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Kiriale

IV

A Catedral

Ao Dr. Dario da Silva
Ignota landa astral da Bem-Aventurança,
Já não ha sobre a terra o que eu chamo esperança, (José Severiano de Rezende, Presbyt.)
D. Guiomar tombou de giolhos,
Dobravam todolos sinos —
E no horizonte dos seus olhos
Dois Anjos cantaram hinos.
As mãos em cruz, a alma petrina
Suspendendo os alvos peitos.
Que amargura quase-divina
Nos seus olhos contrafeitos!
Era no tempo em que a moirama
Dominava a Portugal.
Como rezaste, nobre Dama,
Nessa noite de Natal...
—«Senhor meu Deus onipotente,
Ouvide a voz de uma louca...
(Bem se via que uma alma crente
Te soluçava na boca.)
«Senhor meu Deus de alta clemência,
Eis o que hoje vos imploro:
Seja eterna a minha existência
Neste deserto onde moro.
«A Catedral que vos levanto
É feita de pedra e cal...
Senhor Deus, que eu exista emquanto
Existir a Catedral!»
Foram palavras céu arriba,
Clamaram no mar profundo...
Ouviu-as Deus, e um velho escriba
Anotou-as cá no mundo.
E mesterais dos mais valentes
Vão começando o trabalho;
Qual quebra as pedras em torrentes,
Qual as prepara com o malho.
Tamanho esforço sobre-humano
Põe de pé a Catedral.
E já passara mais um ano,
E outra noite de Natal.
Não têm mais conta os dobrões de oiro
Que a Dama gastou na Igreja.
Fosse embora mais de um tesoiro
Eis acabada a peleja.
Dona Guiomar está contente,
Toda ledice na face.
Por não morrer, ri-se da gente...
Não houve quem lá invejasse.
Lastima o tempo em que era forte,
Benfadada e benquerida.
Se reza agora, pede a morte,
Só por ter eterna vida.
Como o Senhor há de ouvi-la,
Se não tomba a Catedral?
— Dorme, Fidalga, bem tranquila,
Que não tem cura o teu mal.
E para ela um caixão foi feito:
E nele o corpo deitando,
Dona Guiomar, com as mãos ao peito,
Pôs-se esperando, esperando...
Séculos passam no infinito,
E ela está sempre deitada,
Sem um gemido, sem um grito,
De olhos fitos sem ver nada.
Junto à Dama quase-defunta
Reza um padre no Natal.
Dona Guiomar então pergunta
Se tombou a Catedral...

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