Kiriale
Ascetas
XIII
I
Ascetas imortais da Idade-Média, os joelhos
Sangraram-vos de tanto orar: o olhar contrito,
Seguindo o olhar de Deus nos ocasos vermelhos,
Fugiu-vos para o céu, sedento de infinito.
As nuvens para vós eram como evangelhos,
Páginas onde a mão de Deus havia escrito.
E vós lieis por lá, ansiosos como os velhos,
O roteiro estelar de um destino bendito.
Se eu podesse viver a vossa doce vida,
No mistério final de um mosteiro de treva,
Onde se ia apagar tanta alma dolorida...
Viver longe da carne ardente, da luxúria
Que para nos tentar em cada peito eleva,
Como frutos de luz, duas tetas de fúria!
II
Pudesse eu, pudesse eu viver acima disto,
Onde... não sei, e nem me importa a mim sabê-lo.
Em um logar em que de ninguém fosse visto,
Envolta a fronte num fulgor de setestrelo.
E lá, junto a meu Pai celeste, ouvindo a Cristo,
Fonte de luz, feliz por tão de perto vê-lo,
Todo branco de luar, ser o filho bem quisto
A quem o pai afaga e beija-lhe o cabelo.
Viver em pleno mundo azul, longe do nivel
Comum para quem é mortal, sempre ajoelhado,
Na santa comunhão de um amor impassível.
Ser um Eleito, bem longe da humana vida,
Ser o Cordeiro que vai ser sacrificado,
E vê na luz do céu a terra prometida.