Kiriale
XIII
O campanário
A José Inácio de Araújo Lima
No campanário, ao sol incerto,
Não há sineiros nem há sinos...
Se alguém morrer aqui por perto,
Não terá dobres vespertinos,
Lamento de almas no deserto.
Já não há sinos nem sineiros
No campanário em abandono...
Bastam, talvez, os carpinteiros
A trabalhar dias inteiros,
Dando leitos a quem tem sono.
Nenhuma cruz, abrindo os braços,
Vela por quem já não existe...
No chão pisado não há traços
De joelhos, mas somente passos
Indiferentes de algum triste.
Junto deste caixão informe
Ninguém reza de joelhos juntos...
Basta, talvez, a cova enorme
Para abrigar o homem que dorme
No campo-santo dos defuntos.
Só, na Capela entristecida,
Que dorme sobre a encosta agreste,
Nossa-Senhora, a Dolorida,
Vem apontar-nos a outra vida,
Olhando o Céu com o olhar celeste.
E no Altar-Mor, cheio de palmas,
No claro-escuro de um sol-posto,
Nosso-Senhor recebe as almas,
Abrindo as pálpebras tão calmas
Por entre as chagas do seu rosto.
No seu olhar de Abandonado,
Pois a Capela está vazia,
Fulgura o humano luar sagrado
Que arranca os homens do pecado
E de Jesus nos faz um dia.
Já não há sinos nem sineiros
No campanário em abandono...
Sob a sombra dos salgueiros
Ele aparece nos outeiros
Como um solar que não tem dono.
Ah! como é triste, ao sol incerto,
Longe da voz santa dos sinos...
Para guiar-nos ao céu aberto
Já não tem dobres vespertinos
O campanário do deserto.