Pastoral aos Crentes do Amor e da Morte
VII
Minh'alma é a torre de uma igreja
Minh'alma é a torre de uma igreja:
Passa de luto o sacristão...
A coruja que nela adeja
É o meu próprio coração.
E o sacristão que nunca dorme
(E' um esqueleto que não conheço.)
Sobe a escadaria enorme
Que não tem fim nem tem começo.
Sobe e põe-se lá de cima,
Como dolente trovador que é,
A dizer versos onde a rima
É a uncção de um peito cheio de fé.
São salmos tristes, mortuários,
Profundas preces de penitência.
Surgem imagens de calvários,
No fim de cada uma existência.
Matinas, vésperas, completas,
Soluçam na sua voz.
Seguem-se horas de silêncio, inquietas,
De uma agonia atroz.
E o sacristão, todo de preto,
Beija o retrato de uma dama.
É bem gentil este esqueleto
Fazendo um gesto de quem ama.
Só neste instante é que, fitando
Os finos ossos que Deus me deu,
Me reconheço no miserando
Espectro vil: sou eu! sou eu!
Quando morre quem quer que seja,
O sacristão põe-se a rezar.
Minh'alma é a torre de uma igreja,
Que tem um sino sempre a dobrar...