Lira dos Vinte Anos
Desalento
Porque havieis passar tão doces dias? (A. F. de Serpa Pimentel)
Feliz d'aquele que no livro d'alma
Não tem folhas escritas,
E nem saudade amarga, arrependida,
Nem lágrimas malditas!
Feliz d'aquele que de um anjo as tranças
Não respirou sequer,
E não bebeu eflúvios descorado
N'uma voz de mulher!
E não sentiu a mão cheirosa e branca
Perdida em seus cabelos,
Nem resvalou do sonho deleitoso
A reais pesadelos!
Quem nunca te beijou, flor dos amores,
Flor do meu coração,
E não pediu frescor, febril e insano,
Da noite à viração!
Ah! feliz quem dormiu no colo ardente
Da huri dos amores,
Que sôfrego bebeu o orvalho santo
Das perfumadas flores,
E pode vê-la morta ou esquecida
Dos longos beijos seus,
Sem blasfemar das ilusões mais puras
E sem rir-se de Deus!
Mas, nesse doloroso sofrimento
Do pobre peito meu,
Sentir no coração que à dor da vida
A esperança morreu!....
Que me resta, meu Deus?! aos meus suspiros
Nem geme a viração,
E dentro — no deserto de meu peito
Não dorme o coração!