Lira dos Vinte Anos
O poeta
Un souvenir heureux est peut-être sur terre
Plus vrai que le bonheur! (A. de Musset)
Plus vrai que le bonheur! (A. de Musset)
Era uma noite — eu dormia
E nos meus sonhos revia
As ilusões que sonhei!
E no meu lado senti....
Meu Deus! porque não morri?
Porque do sono acordei?
No meu leito — adormecida,
Palpitante e abatida,
A amante de meu amor!
Os cabelos recendendo
Nas minhas faces correndo
Como o luar n'uma flor!
Senti-lhe o colo cheiroso
Arquejando sequioso;
E nos lábios, que entr'abria
Lânguida respiração,
Um sonho do coração
Que suspirando morria!
Não era um sonho mentido;
Meu coração iludido
O sentiu e não sonhou:
E sentiu que se perdia
N'uma dor que não sabia....
Nem ao menos a beijou!
Soluçou o peito ardente,
Sentiu que a alma demente
Lhe desmaiava a tremer:
Embriagou-se de enleio,
No sono daquele seio,
Pensou que ele ia morrer!
Que divino pensamento,
Que vida n'um só momento
Dentro do peito sentiu....
Não sei.... Dorme no passado
Meu pobre sonho doirado....
Esperança que mentiu!
Sabem as noites do céu
E as luas brancas sem véu
As lágrimas que eu chorei!
Contem do vale as florinhas
Esse amor das noites minhas!
Elas sim.... eu não direi!
E se eu tremendo, senhora,
Viesse pálido agora
Lembrar-vos o sonho meu,
Com a fronte descorada
E com a voz sufocada
Dizer-vos baixo — Sou eu!
Sou eu! que não esqueci
A noite que não dormi,
Que não foi uma ilusão!
Sou eu que sinto morrer
A esperança de viver....
Que o sinto no coração! —
Riríeis das esperanças,
Das minhas loucas lembranças,
Que me desmaiam assim?
Ou então, de noite, a medo
Choraríeis em segredo
Uma lágrima por mim?