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Lira dos Vinte Anos

Virgem morta

Oh! make her a grove where the sun-beams rest
When they promise a glorious morrow!
They'll sink o'er her sleep, like a smile from the west,
From her own loved land of sorrow. (Th. Moore)
Lá bem na extrema da floresta virgem,
Onde na praia em flor o mar suspira,
E, quando geme a brisa do crepúsculo,
Mais poesia do arrebol transpira;
Nas horas em que a tarde moribunda
As nuvens roxas desmaiando corta,
No leito mole da molhada areia
Manso repousem a beleza morta.
Irmã chorosa a suspirar desfolhe
No seu dormir da laranjeira as flores,
Vistam-na de cetim, e o véu de noiva
Lhe desdobrem da face nos palores.
Vagueie em torno, de saudosas virgens,
Errando à noite, a lamentosa turma;
Nos cânticos de amor e de saudade
Junto às ondas do mar a virgem durma.
À brisa da saudade suspirando
Aí na tarde, misteriosa e bela,
Entregarei as cordas do alaúde
E irei meus sonhos prantear por ela!
Quero eu mesmo de rosa o leito encher-lhe
E de amorosos prantos perfumá-la,
E a essência dos cânticos divinos,
No túmulo da virgem, derramá-la.
Que importa que ela durma descorada,
E velasse o palor a cor do pejo?
Quero a delícia que o amor sonhava,
Nos lábios dela pressentir n'um beijo.
Desbotada coroa do poeta,
Foi ela mesma quem prendeu-te flores...
Ungiu-as no sacrário de seu peito
Inda virgem do alento dos amores...
Na minha fronte riu de ti passando
Dos sepulcros o vento peregrino...
Irei eu mesmo desfolhar-te agora
Da fronte dela no palor divino!...
E contudo eu sonhava! e pressuroso
Da esperança o licor sorvi sedento!
Ah! que tudo passou! — só tenho agora
O sorriso de um anjo macilento!
. . . . . . . . . . .
Ó minha amante, minha doce virgem,
Eu não te profanei, e dormes pura:
No sono do mistério, qual na vida,
Podes sonhar apenas na ventura.
Bem cedo ao menos eu serei contigo
— Na dor do coração a morte leio....
Poderei amanhã, talvez, meus lábios
Da irmã dos anjos encostar no seio....
E tu, vida que amei! pelos teus vales
Com ela sonharei eternamente,
Nas noites junto ao mar, e no silêncio
Que das notas enchi da lira ardente!....
Dorme ali minha paz, minha esperança,
Minha sina de amor morreu com ela,
E o gênio do poeta, lira eólia
Que tremia ao alento da donzela!
Qu'esperanças, meu Deus! E o mundo agora
Se inunda em tanto sol no céu da tarde!
Acorda, coração!... Mas no meu peito
Lábio de morte murmurou — É tarde!
É tarde! e quando o peito estremecia
Sentir-me abandonado e moribundo!
É tarde! é tarde! ó ilusões da vida,
Morreu com ela da esperança o mundo!...
No leito virginal de minha noiva
Quero, nas sombras do verão da vida,
Prantear os meus únicos amores,
Das minhas noites a visão perdida!
Quero ali, ao luar, sentir passando
Por alta noite a viração marinha,
E ouvir, bem junto às flores do sepulcro,
Os sonhos de sua alma inocentinha.
E quando a mágoa devorar meu peito,
E quando eu morra de esperar por ela,
Deixai que eu durma ali e que descanse,
Na morte ao menos, junto ao seio dela!

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