Apólogos
O corvo e a raposa
(Traduzido do mesmo)
É fama que estava o corvo
Sobre uma árvore pousado,
E que no sôfrego bico
Tinha um queijo atravessado.
Pelo faro àquele sítio
Veio a raposa matreira,
A qual, pouco mais ou menos,
Lhe falou d'esta maneira:
«Bons dias, meu lindo corvo;
És glória d'esta espessura:
És outra fênix, se acaso
Tens a voz, como a figura.»
A tais palavras o corvo
Com louca, estranha afouteza,
Por mostrar que é bom solfista
Abre o bico, e solta a presa.
Lança-lhe a mestra o gadenho,
E diz: «Meu amigo, aprende
Como vive o lisonjeiro
À custa de quem o atende.
«Esta lição vale um queijo,
Tem d'estas para teu uso.»
Rosna então consigo o corvo
Envergonhado, e confuso:
—«Velhaca! Deixou-me em branco,
Fui tolo em fiar-me d'ela;
Mas este logro me livra
De cair n'outra esparrela.»