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Idílios e Cantatas

Medeia

Já de Colcos a fera, ardente Maga
Hórridos versos murmurado havia;
Ao som de atroz conjuro, e negra praga
Já tinha amortecido a luz do dia:
Já co'a força do encanto
Os implacáveis monstros subjugara
Na feia habitação do eterno pranto,
E à voz terrível, ao potente aceno
A triforme carranca enfim curvara
Do rei das sombras a feroz consorte.
Embebidas n'um férvido veneno
As roupas nupciais, brilhante ornato,
Em que ia disfarçada, alegre a Morte,
Instrumentos da raiva, e do ciúme,
Punindo a vil traição do esposo ingrato,
O invisível por arte, aéreo lume
Pouco a pouco ateavam
Nas lisas carnes da real donzela,
E a preferida, a bela
Miseranda rival desesperavam.
Descendente do Sol, do deus fogoso,
Tu, zelosa, frenética Medeia,
Foste colher ao carro luminoso
Tênue, fatal porção da luz febeia;
Talhaste fulvo anel da ígnea trança,
E d'ele urdiste aspérrima vingança.
Estás desafrontada? Estás contente?
Nas garras da aflição Creúsa expira;
Jason sem alma a sente,
Jason, que te ofendeu, Jason delira,
Brama de horror, de angústia desfalece,
E mais que teu furor teu dó merece:
Eis o envolve, o consterna amargo luto,
Foi falso, foi traidor, foi réu sem fruto.
Que novo crime insólito, execrando,
Que atrocidade insana
Vás contra a natureza aparelhando?
Poupa os filhinhos, bárbara, inumana,
Poupa os meigos filhinhos:
Eles são inocentes,
Eles inda têm jus aos teus carinhos.
Não vês que, descontentes,
Não vês que, enternecidos,
A teu fado, a teu mal dão mil gemidos,
Soluçam, tremem, choram,
Se lamentam do pai, e a mãe deploram?
Oh céus! No coração da maga horrenda
Natureza e vingança
Armam fervente, pertinaz contenda:
Ora a ternura suspirando amansa
Dos zelos a raivosa tempestade,
Ora de agro despeito
Ao vigoroso impulso
Cede a benigna, maternal piedade:
Enfim do irado peito
Foge, voa carpindo Amor expulso.
Eis a mãe (já não mãe) qual ímpia Fúria,
Medonha, e desgrenhada,
Te faz, oh Natureza, atroz injúria!
A tua doce voz em vão lhe brada,
Em vão lhe representa, em vão lhe pinta
Com mimoso pincel, com vária tinta
Áureos instantes, cenas deleitosas;
Nos meninos gentis em vão lhe aponta
De amor suave as prendas carinhosas:
Co'as imagens brilhantes
Se assanha do divórcio a crua afronta,
Dobra-se a pena, a raiva se requinta.
Já lança mão dos cândidos infantes,
E empunhando mortífero instrumento
Com que a Ternura espanca
No cerrado aposento
Estas vozes cruéis do peito arranca:
«Longe, afetos piedosos,
Longe, materno amor! — Estes, que eu mato,
São prole de Jason, são criminosos,
Detestável porção de um peito ingrato.
Morra, morra com eles a memória
Do pérfido consorte.
Justiça, Indignação, dai-me a vitória!
Cessa de murmurar, oh Natureza,
Recebe as tenras vítimas, oh Morte!...»
N'isto em chamas do inferno a maga acesa,
Vibra o férreo punhal contra os mesquinhos,
Lacrimosos filhinhos:
Ao ato de os ferir lhe cai por terra,
Mas a destra fatal de novo o aferra.
Infância, formosura, a dor, e o pranto
Nada o terrível ímpeto embaraça,
Um após outro os míseros traspassa:
Tu, Ciúme cruel, tu podes tanto!
No horror da morte as vítimas arquejam,
E, inda sentindo a filial ternura,
A mãe, o algoz acarinhar desejam.
Ela, mais que rochedos seca, e dura,
Denso véu lutuoso
Sobre os rotos cadáveres estende,
E aos olhos tristes do culpado esposo
A triste cena renovar pretende...
Ei-lo, ah! Ei-lo, convulso, arrebatado,
Derriba a porta da lutuosa estância
No liso pavimento ensanguentado:
Ferro mortal brandindo
Corre a Medeia com terrível ânsia.
Ao vê-lo, em novas fúrias se afogueia,
Relâmpagos dos olhos sacudindo
A torva maga, e súbito meneia
Com rápido sussurro a tênue vara,
Que às longas vestes do perjuro aplica:
Ele treme, ele para,
Calado, imóvel qual estátua fica;
Porém se perde a voz, e o movimento,
Conserva ilesos vista, e sentimento.
Logo o fúnebre véu Medeia alçando,
Do falsário Jason a angústia dobra,
Aponta ao espetáculo nefando,
Mostra-lhe os filhos, e a traição lhe exprobra.
Depois, abominando os ímpios lares,
Teatro de seus hórridos furores,
As soberbas abóbadas atroa
Com mil imprecações, com mil clamores;
E em leve salto se arremessa aos ares,
E pelos ares voa
De alígeros dragões n'um carro enorme,
Dádiva de Prosérpina triforme.
Das Górgonas, das Fúrias negro bando
Retorce os olhos, que arremedam brasas,
A segue, e vai correndo, e vai crestando
Com rubro facho ardente ao vento as asas.
Uníssono alarido
A sanhuda caterva aos céus levanta,
E da brutal fereza
O triunfo atrocíssimo decanta.
O sol na escuridão fica sumido,
Negreja horrorizada a natureza,
Montanhas ergue o mar, vulcões a terra,
Aos sons, que o coro estígio desencerra:
E entretanto o misérrimo consorte
Jaz entre os filhos, a lutar co'a morte.
«Triunfe (os monstros clamam,
E a Compaixão suspira)
Triunfe, reine a Ira,
Caia, pereça Amor.
«Teus raios, oh Vingança,
Jamais, jamais se apaguem:
Sempre o altar te alaguem
Ondas de rubra cor.
«Pasmai, tartáreas hidras,
Pasma, infernal tirano;
Inda o furor humano
Transcende o teu furor.
«Da atroz Medeia o nome
Em perenal memória
Será do averno a glória,
E dos mortais o horror.
«Tropel de acerbos males
O mundo assalte, e fira;
Reine, triunfe a Ira,
Caia, pereça Amor.

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