Idílios e Cantatas
Crinaura, ou o amor mágico
Já, da noute ametade anunciando,
O galo velador tinha cantado;
Regougavam nas serras as raposas,
Carpiam pelas árvores os mochos,
E no sórdido lago as rãs coaxavam.
Por entre densas, pluviosas nuvens,
Prenhes de raios, transluzia apenas
Semimorto clarão da frouxa lua.
Entregue ao sono o racional jazia
Ou nos braços de amor, ou solitário,
Sobre cama de feno, ou leito de ouro,
Segundo teus caprichos, oh Fortuna,
Com que dás tudo a uns, a outros nada.
Só n'um bosque de víboras coalhado,
Fértil de sombras, sombras dos infernos,
N'um ermo, onde não há pegada humana,
Que dos magos notívagos não seja,
Velava um d'eles, o amoroso Elmano,
Perto de turvo, e rápido ribeiro,
Que do atro seio de horrorosa gruta
Com ríspido sussurro ia correndo.
Fantasmas infernais, que a negra noute
Arroja à terra, sacudindo o manto,
Vagavam por ali: Górgonas, Fúrias,
Que o pavoroso báratro vomita,
Que exalam peste das cruéis entranhas,
As serpes, as melenas assanhavam
Em torno do infeliz, queixoso amante,
Influindo-lhe a raiva, a dor, e a morte.
No centro da terrível assembleia
Com carrancudo aspecto o malfadado
Só tinha em ti, Crinaura, os pensamentos!
Tu lhe negavas o fulgor suave
Com que teu rosto os céus abrilhantaram;
Longe estavas, cruel; porém supriam
Aos olhos corporais os olhos d'alma;
Longe estavas, cruel; porém pasmado
Na fantástica imagem de teu gesto,
Que vivamente Amor lhe debuxava,
D'esta maneira os ares atroava:
«Potentes versos meus, arte divina,
As tartáreas cavernas invadistes,
Comovestes Sumano, e Prosérpina,
Hidras, Cerastes, Fúrias atraístes:
Da fresca lua a face cristalina
Com tenebrosas nuvens denegristes,
Domais as feras n'esta horrível mata:
Só não podeis vencer Crinaura ingrata.
«Versos! Versos! Oh dádiva celeste!
Apinhando os delfins ao som da lira,
O músico Arion remir pudeste
Das cobiçosas mãos, em que caíra:
Desarraigaste as árvores, soubeste
As penhas derreter! Amor te inspira,
Amor a força tua em mim dilata,
E não hás de vencer Crinaura ingrata!
«Versos! Versos! Nas ermas sepulturas
Com graça, pelas graças influída,
Furtando as almas das prisões escuras,
Tornais às cinzas o calor, e a vida:
A Dite, revogando-lhe as leis duras,
Tirais a ninfa, do áspide mordida:
Tanto podes, oh arte aos deuses grata!
Só não triunfarás d'aquela ingrata!
«Ah! Sim, tentemos outra vez a sorte;
A ternura porfie, a paixão teime;
Deixai-me, oh desenganos, longe, oh Morte:
Deus Febo, teu fervor minha alma queime!
Eia, Vênus, e Amor, dai-me um transporte
Digno de vós: oh filho! Oh mãe! Valei-me,
Não só, não só por mim, de vós se trata:
Vós venceis, se eu vencer Crinaura ingrata.
«Solte-se a veia, principie o encanto;
Versos! Versos! Crinaura! Eu t'os envio.
Eis nas plumas do Zéfiro o meu canto,
Eis Íris sobre o ar úmido, e frio:
Cessa o berro da rã, do mocho o pranto,
Ficam mudas as Fúrias, mudo o rio:
Lá mostra a lua a face prateada,
Trazei-me, versos meus, a minha amada.
«Esta semente, de fragrância bela,
Aos raios venerável como o louro,
Planto aqui: flores mil brotarão d'ela
Súbito... ah! Ei-las, é feliz o agouro:
Acendamos três vezes esta vela,
Crestemos à terceira este besouro:
Minha mestra m'a deu, Canídia, a fada.
Trazei-me, versos meus, a minha amada.
«As amoras silvestres espremamos
N'este vaso de Alceu, mágico experto;
Sobre o licor sanguíneo desfaçamos
Folha a folha este cravo meio-aberto:
Misturemos-lhe agora o mel, e os ramos,
Que torrei, que mói, remédio certo
Contra o negro lacrão: não falte nada;
Trazei-me, versos meus, a minha amada.
«Pondo este roto véu, que era de Circe,
Depois batendo o pé, Lâmia podia
Converter-se em morcego, e restituir-se
À forma natural, quando queria;
Eis o buço de lobo: a sabia Tirse
Com ele assombros mil também fazia:
Já com isto em serpente a vi mudada.
Trazei-me, versos meus, a minha amada.
«Pus a secar debaixo de um penedo
Crescida, e gorda rã, que apanhei viva;
Dous ossos lhe guardei: pondo-lhe o dedo
Qualquer amante, seu amor se aviva;
Tem a virtude, enfim, tem o segredo
De amansar lobos: a caduca Oliva
Com eles das mãos d'um foi já tirada.
Trazei-me versos meus, a minha amada.
«A torta vara, com que Ileu fazia
Milhões de espectros negrejar nos ares,
Com que ao mínimo aceno embravecia
Plácidas auras, bonançosos mares:
Parte do incenso, que Medeia ímpia
Dava da horrível Hécate aos altares,
Guardo n'aquela gruta, ao sol vedada.
Trazei-me, versos meus, a minha amada.
«Falta a cinza (ei-la aqui) do corvo branco,
Que Lícidas caçou, que tanto estimo:
Dos feridos com ela o sangue estanco,
E os quase mortos, em querendo, ânimo:
Eis a admirável planta, com que arranco
As mais cravadas setas, eis o limo,
E esta concha, no Eufrates apanhada.
Trazei-me, versos meus, a minha amada.
«Produzi, meus encantos, vosso efeito
Para glória de Amor, e glória minha;
Venha curar o mal, que me tem feito,
Aquela, em cujos olhos me mantinha:
Trazei-a... ah! Que prazer me inunda o peito,
Que luz, que objeto para mim caminha!
Que força oculta as forças me restaura!
Basta, meus versos: ali vem Crinaura.»