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Odes

O Desengano

Assaz temos cantado, assaz carpido
Oh lira, oh doce lira,
Os bens e os males do comum tirano,
Que nas almas derrama
A dor, e o riso, o néctar, e o veneno.
Longe a brilhante ideia
De olhos fagueiros, de aneladas tranças,
De angélicos sorrisos,
De momentâneos amorosos furtos;
Longe a amarga lembrança
De vis perjúrios, de cruéis enganos,
De traições estudadas;
Longe as memórias da infiel Marília.
Feitiços perigosos,
Verdugos da alterosa Liberdade;
Tu, dom da formosura,
Fatal aos corações, suave aos olhos;
Tu, que em meus pensamentos
No arbítrio meu despótico imperavas,
Tirano, impõe teu jugo,
Teu férreo jugo na cerviz d'aqueles
Que a sisuda Experiência
Por entre pavorosos precipícios
Inda ao templo remoto
Não guiou do profícuo Desengano.
Vencida a longa estrada,
Onde o Erro elevou montes e montes
Para estorvar ao homem
Sagaz instinto, que à Verdade o guia,
Vejo, saúdo os lares,
Lares augustos do terrível nume,
Atento à voz do aflito
Que ingênuas preces lhe dirige às aras,
Surdo a rogos falazes
Do cego escravo, que idolatra os ferros,
Liberdade implorando...
Que solidão, que plácida tristeza,
Que profundo silêncio
Reina em torno do alcáçar venerando!
Oh sacro domicílio
Da Verdade imortal!... Que! Tu n'um ermo!
Os teus átrios desertos,
Sem culto, sem ministro os teus altares,
Enquanto à vã grandeza
Servil caterva prostitui incensos,
E a curvada Lisonja
Os crimes doura, os vícios abrilhanta!
Ah! Eu te vingo, oh deusa!
Eu entro o franco pórtico espaçoso
E às aras... Mas que sinto!
Que gelo, que tremor, que sobressalto
Me prende a voz, e a planta,
Me abate as forças, me arrepia as carnes!
Coração, que te assombra?
Que temes, coração? Perder Marília?
Marília acaso é tua?
Não maculou traidora os puros votos,
Os ternos juramentos?
Não viste a desleal sem dor, sem pejo,
Cevar-se nos teus males,
C'os lindos olhos em Fileno absortos?
Que importa que em seus lábios,
Seu ledo rosto, seu virgíneo seio,
Os Amores, e as Graças
Pressintam mil imagens deleitosas,
Onde os sentidos pascem,
Que importa, se a traição surgiu do averno
A corromper-lhe o peito?
Que vale sem virtude a formosura?
Cede ao tempo, à desgraça;
Do espírito a beleza é sempre nova.
Coração, triunfemos,
Triunfemos da pérfida Marília,
E se a razão não basta,
Vença a vaidade o que a razão não vence.
Envergonha-te ao menos
De seres só feliz quando o permite
O teu rival soberbo,
Que enjoando os afagos importunos
Da perjura, que adoras,
Às vezes com desprezo em ócio os deixa,
E se a ti se dirigem,
Não vêm do coração, vêm do costume.
Eia, mísero escravo,
Sacode o jugo, despedaça os ferros,
A vaidade te anime:
Quase tudo o que é raro, estranho, ilustre,
Da vaidade procede,
Móvel primeiro das ações pasmosas.
Tente-se a grande empresa,
Forcem-se os fados... Ai de mim! Palpitas?
E em frequentes arrancos
Como que exprimes o pavor da morte!
Coração, não desmaies,
Alenta-te, infeliz... Porém que escuto!
Que ruído! que assombro!
Que resplendor me cerca, e me deslumbra!
Torvos dragões, batendo
Asas de negra cor com duro estrondo,
Se encontram, se atropelam,
E quais noturnas aves, que amedronta
O clarão matutino,
Espavoridos pelos ares fogem
Ao fulgor cintilante
De rubro facho, que na destra empunha
Venerável matrona,
Librada sobre os Zéfiros plumosos!
Ah! Quem és? Vens do Olimpo,
Portentosa visão? Vens socorrer-me?
Ou és aéreo fruto
Da enferma, delirante fantasia,
Que entre ilusões vagueia?...
Não; já me iluminaste a mente cega,
Reconheço-te, oh deusa,
És a prole dos céus, és a Virtude,
Que no benigno seio
Acolhes os meus ais, os meus remorsos,
Indulgente à demora
Que tive em demandar teu santo asilo.
Esses monstros, voando
Ante o celeste resplendor, que espraias,
São pungentes saudades,
Feias traições, frenéticos ciúmes,
Que invisíveis té agora
As cálidas entranhas me ralavam.
Graças, oh divindade,
Que do sábio varão manténs o esforço
Quando a volúvel sorte,
Inimiga do mérito, o sepulta
Nas solitárias sombras
De profunda masmorra aferrolhada,
Onde por mãos infames
De aspérrimas correntes o carrega:
Munido da inocência
Contigo ri o herói no cadafalso;
Contigo alegre observa
Do carrancudo algoz na mão terrível
O amolado cutelo
Executor da bárbara sentença;
E contigo, oh deidade,
Oh alta benfeitora, encaro as portas
Do formidável templo.
Teu sagrado fervor de veia em veia
Me agita, me transporta,
Eu te sigo, eu te sigo... Oh céus! Oh deuses!
Já sou meu, já sou livre.
Ídolo falso, que de altar profano
Davas leis à minh'alma,
Recebias meus votos, meus incensos,
Tributos da fraqueza;
Aleivosa Marília, horror e afronta
Té do tropel de ingratas,
De astutas, de infiéis, que o mundo infamam,
O escravo de teus olhos,
A vítima infeliz de teus enganos
Já tem rotos os ferros,
Solta a vontade, o coração tranquilo.
Como o sol, quando vibra
Na cristalina esfera os raios d'ouro,
Gasta, desfaz, consome
Vapores, que exalou do seio a terra;
Também, falaz Marília,
As luzes, que a verdade em mim dardeja,
Absorvem, desvanecem
A funesta ilusão, que na minh'alma
Te assemelhava aos deuses.
Ingrata, consumiram-se os incensos,
Retrataram-se os votos,
Foram-se as oblações, e os sacrifícios,
Caiu o altar, e o númen!

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