As Primaveras
Pepita
A toi! toujours a toi! (V. Hugo)
Minh'alma é mundo virge' — ilha perdida —
Em lagos de cristais;
Vem, Pepita, — Colombo dos amores, —
Vem descobri-lo, no país das flores
Sultana reinarás!
Eu serei teu vassalo e teu cativo
Nas terras onde és rei;
À sombra dos bambus vem tu ser minha;
Teu reinado de amor, doce rainha,
Na lira cantarei.
Minh'alma é como o pombo inda sem penas
Sozinho a pipilar;
— Vem tu, Pepita, visitá-lo ao ninho;
As asas a bater, o passarinho
Contigo irá voar.
Minh'alma é como a rocha toda estéril
Nos plainos do Sará;
Vem tu — fada de amor — dar-lhe co'a vara...
— Qual do penedo que Moisés tocara
O jorro saltará.
Minh'alma é um livro lindo, encadernado,
Co'as folhas em cetim;
— Vem tu, Pepita, soletrá-lo um dia...
Tem poemas de amor, tem melodia
Em cânticos sem fim!
Minh'alma é o batel prendido à margem
Sem leme, em ócio vil;
— Vem soltá-lo, Pepita, e correremos
— Soltas as velas — desprezando remos,
Que o mar é todo anil.
Minh'alma é um jardim oculto em sombras
Co'as flores em botão;
— Vem ser da primavera o sopro louco,
Vem tu, Pepita, bafejar-me um pouco
Que as rosas abrirão.
O mundo em que eu habito tem mais sonhos,
A vida mais prazer;
— Vem, Pepita, das tardes no remanso,
Da rede dos amores no balanço
Comigo adormecer.
Oh! vem! eu sou a flor aberta à noite
Pendida no arrebol!
Dá-me um carinho d'essa voz lasciva,
E a flor pendida s'erguerá mais viva
Aos raios d'esse sol!
Bem vês, sou como a planta que definha
Torrada do calor.
— Dá-me o riso feliz em vez da mágoa...
O lírio morto quer a gota d'água,
— Eu quero o teu amor!
Rio — 1858.