Os Escravos
Mater dolorosa
Deixa-me murmurar á tua alma um adeus eterno, em vez de lagrimas chorar sangue, chorar o sangue de meu coração sobre meu filho; porque tú deves morrer, meu filho, tú deves morrer. (Nathaniel Lee)
Meu filho, dorme, dorme o sono eterno
No berço imenso, que se chama — o céu.
Pede às estrelas um olhar materno,
Um seio quente, como o seio meu.
Ai! borboleta, na gentil crisálida,
As asas de ouro vás além abrir.
Ai! rosa branca no matiz tão pálida,
Longe, tão longe vás de mim florir.
Meu filho, dorme... Como ruge o norte
Nas folhas secas do sombrio chão!...
Folha d'est'alma como dar-te à sorte?...
É tredo, horrível o feral tufão!
Não me maldigas... N'um amor sem termo
Bebi a força de matar-te... a mim...
Viva eu cativa a soluçar num ermo...
Filho, sê livre.. Sou feliz assim...
— Ave — te espera da lufada o açoite,
— Estrela — guia-te uma luz falaz.
— Aurora minha — só te aguarda a noite,
— Pobre inocente — já maldito estás.
Perdão, meu filho... se matar-te é crime...
Deus me perdoa... me perdoa já.
A fera enchente quebraria o vime...
Velem-te os anjos e te cuidem lá.
Meu filho dorme... dorme o sono eterno
No berço imenso, que se chama o céu.
Pede as estrelas um olhar materno,
Um seio quente, como o seio meu.
Recife, 7 de Junho de 1865.