Ir para o texto
Biblioteca

Esfinges

Ângelus

A Felinto d'Almeida
Desmaia a tarde. A pouco e pouco, no poente,
O sol, rei fatigado, em seu leito adormece;
Uma ave canta, ao longe; o ar pesado estremece
Do Ângelus ao soluço agônico e plangente.
Salmos cheios de dor, impregnados de prece,
Sobem da terra ao céu numa ascensão ardente.
E enquanto o vento chora e o crepúsculo desce,
A Ave-Maria vai cantando, tristemente.
Nest' hora, muita vez, em que fala a saudade
Pela boca da noite e pelo som que passa,
Lausperene de amor cuja mágoa me invade,
Desejo ser a noite, ébria e douda
De trevas, o silêncio; a nuvem que esvoaça,
Ou fundir-me na luz e desfazer-me toda.

Sobre esta edição