Primeiros Cantos
Amor! Delírio — Engano
Amor! delírio — engano..... Sobre a terra
Amor também frui; a vida inteira
Concentrei n'um só ponto — ama-la, e sempre.
Amei! — dedicação, ternura, extremos
Cismou meu coração, cismou minha alma,
— Minha alma que na taça da ventura
Vida breve d'amor sorveu gostosa.
Eu e ela, ambos nós, na terra ingrata
Oásis, paraíso, éden ou templo
Habitamos um nada; e logo o tempo
Com a foice roaz quebrou-lhe o encanto,
Doce encanto que o amor nos fabricara.
E eu sempre a via, quer nas nuvens d'oiro
Quando ia o sol nas vagas sepultar-se,
Ou quer na branca nuvem que velava
O círculo da lua, — quer no manto
D'alvacenta neblina que baixava
Sobre as folhas do bosque, muda e grave,
Da tarde no cair; nos céus, na terra,
A ela, a ela só, viam meus olhos.
Seu nome — sua voz — ouvia eu sempre;
Ouvia-os no gemer da parda rola,
No trépido correr da veia argêntea,
No respirar da brisa, no sussurro
Do arvoredo frondoso, na harmonia
Dos astros inefável; — o seu nome!
Nos fugitivos sons de alguma frauta,
Que da noite o silêncio realçavam,
Os ares e a amplidão divinizando,
Ouviam meus ouvidos; e de ouvi-lo
Arfava de prazer meu peito ardente.
Ah! quantas vezes, quantas! junto d'ela
Não senti sua mão tremer na minha,
Não lhe escutei um lânguido suspiro
Que vinha lá do peito à flor dos lábios
Deslizar-se e morrer?! Dos seus cabelos
A mágica fragrância respirando,
Escutando-lhe a voz doce e pausada,
Mil venturas colhi dos lábios d'ela,
Que instantes de prazer me futuravam.
Cada sorriso seu era uma esp'rança,
E cada esp'rança enlouquecer de amores.
E eu a amei tanto! — Oh! não, não hão de os homens
Saber que amor, à ingrata, havia eu dado;
Que afetos melindrosos, que em meu peito
Tinha eu guardado para ornar-lhe a fronte!
Oh! não, — morra comigo o meu segredo;
Rebelde o coração murmure embora.
Que de vezes pensando a sós comigo
Não disse eu entre mim: — Anjo formoso,
Da minha vida que farei, se acaso
Faltar-me o teu amor um só instante;
— Eu que só vivo por te amar, que apenas
O que sinto por ti a custo exprimo?
No mundo que farei, como estrangeiro
Pelas vagas cruéis à praia inóspita
Exânime arrojado? — Eu, que isto disse,
Existo e penso — e não morri, — não morro
Do que outr'ora senti — do que ora sinto,
De pensar nela, de a rever em sonhos,
Do que fui, do que sou e ser podia!
Existo; — e ela de mim jaz esquecida!
Esquecida talvez de amor tamanho,
Derramando talvez n'outros ouvidos
Frases doces, de amor, que dos seus lábios
Tantas vezes ouvi, — que tantas vezes
Em êxtasis divino aos céus me alçaram,
— Que dando à terra ingrata o que era terra
Minha alma além das nuvens transportaram.
Existo! — como outr'ora, no meu peito
Férvido o coração pular sentindo,
Todo o fogo da vida derramando
Em queixas mulheris, em moles versos,
E ela! — ela talvez nos braços d'outrem
Com sua vida alimenta uma outra vida,
Com o seu coração o de outro amante
Que mais feliz do que eu, inferno! — a goza.
Ela, que eu respeitei, — que eu venerava
Como a relíquia santa! — a quem meus olhos,
Receiando ofendê-la, tantas vezes
De castos e de humildes se abaixaram!
Ela, perante quem sentia eu presa
A voz nos lábios e a paixão no peito!
Ela, ídolo meu, a quem o orgulho,
A força d'homem, o sentir, vontade
Própria e minha dediquei, — sujeita
À voz de alguém que não sou eu, — desperta,
Talvez no instante em que de mim se lembra,
Por um ósculo frio — por geladas
Carícias d'um esposo!...
Oh! não poder-te,
Abutre roedor — cruel ciúme,
Tua funda raiz e a imagem d'ela
No peito em sangue espedaçar raivoso!
Mas tu, cruel, que és meu rival, n'uma hora
Em que ela só julgar-se, hás de escutar-lhe
Um quebrado suspiro do imo peito,
Que d'eras já passadas se recorda.
Hás de escutá-lo, — e ver-lhe a cor sanguínea
Tingir-lhe o rosto ao deparar contigo;
Terás ciúme — e sofrerás comigo,
E em sendo tu como eu, serei vingado.