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Primeiros Cantos

Miserrimus

Quando o inverno chegou, — por sobre a terra
O robre secular espalha a coma,
Que o rábido tufão cortou de morte.
Despida e nua jaz a flor mimosa,
Agora hástea somente; e o sol brilhante
Despede a custo a luz que mal penetra
As nuvens trovejadas que o circundam.
Mas o inverno passou! — De novo assume
Virente rama o robre gigantesco,
A flor formosa e bela vem brotando,
E o sol, rei do horizonte, já rutila
Em céu de puro azul auri-brilhante.
Mas quando o desengano, qual tormenta
Que por desertos só valente reina,
Do quente coração arranca, esmaga
Esp'ranças, que o amor enfeitiçava,
Em vão a natureza ufana brilha,
Em vão de puro orvalho a flor se arreia,
Em vão dardeja o sol seus quentes raios,
Em vão!... que o coração jaz frio e murcho,
E não mais viverá! — que a alma sentida
Conhece que o amor é só mentira,
Que é mentira o prazer, mentira tudo.
Um dia apareceu um recém-nado,
Como a concha que o mar à praia arroja,
Cresceu; — qual cresce a planta em terra inculta,
Que ninguém educou; — a chuva apenas.
Infante — viu de roda sepulturas,
Em que não atentou; — sonhos mimosos,
Acordado ou dormindo, lhe doiravam
A infância leve, d'inocência rica.
Viu belo o ar, e terra, e céus, e mares,
Viu bela a natureza, como a noiva
Sorrindo em breve dia de noivado!
Então sentiu brotarem na sua alma
Sonhos de puro amor, sonhos de glória;
Sentiu no peito um mundo de esperanças,
Sentiu a força em si — patente o mundo.
Forte se levantou! correu fogoso,
E qual águia que nas asas se equilibra
Começou a trilhar da vida a senda.
Um monte além topou; mais vagoroso
Subiu, — vingou mais lento! — Inda mais outro
Colossal — descalvado — íngreme e liso,
Costeou, mas cansou, que era sozinho!
Sentou-se, e mudo, e fraco, e pensativo
À borda do caminho; e sobre o peito
A cabeça inclinou, cruzando os braços.
Minha mãe! — soluçou; e um eco ao longe
Minha mãe! — respondeu. — Sentiu que a fome
Dolorosa as entranhas lhe apertava,
E sede intensa a ressequir-lhe as fauces;
Fome e sede curtiu como n'um sonho.
Do rosto nas maçãs descoloridas
— Filtro do coração — sentiu que o pranto
Ardente escorregava a tez queimando.
Muda era a sua dor, — d'homem que sofre,
Que chora isento de vergonha ou crime.
Encontrou mais além no seu caminho,
Bela na sua dor, sozinha e fraca,
Figura virginal que ali jazia.
Esqueceu-se de si pensando n'ela;
Nova força criou, — novo incentivo,
Coragem nova o seu amor criou-lhe.
Lavou-lhe os curtos pés, — contra o seu peito
Do frio a protegeu, — tomou nos braços
A carga tão mimosa! — E ela co'os olhos,
Que o amor vendava um pouco, agradecia.
E ela pôde viver; — disse que o amava,
Que era o seu coração d'ele — e só d'ele: —
Disse, e mais que uma vez, com peito e lábios
No peito e lábios d'ele; — era mentira!
E ele o conheceu! por precipícios
Descrido se arrojou, sentindo a morte,
Seu berço entre sepulcros procurando.
Aqui — ali — além — eram sepulcros;
E o nome de sua mãe, sequer não pode
Dos nomes conhecer de tantos mortos.
E só no seu morrer, qual só na vida,
Na terra se estendeu; nem dor, nem pranto
Tinha no coração que era já morto!
E alguém, que ali passou, vendo um cadáver
De sânie e podridão comido e sujo,
Co'o pé n'um fosso o revolveu; — e terra
Caída acaso o sepultou p'ra sempre.
Amizade! — ilusão que os anos somem;
Amor! — um nome só, bem como o nada,
A dor no coração, delícias n'alma,
Nos lábios o prazer, nos olhos pranto
— Tudo é vão, tudo é vão, exceto a morte.

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