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Primeiros Cantos

O Desengano

Já vigílias passei namorado,
Doces horas d'insônia passei,
Já meus olhos, d'amor fascinado,
Em ver só meu amor empreguei.
Meu amor era puro, extremoso,
Era amor que meu peito sentia,
Era lavas de um fogo teimoso,
Era notas de meiga harmonia.
Harmonia era ouvir sua voz,
Era ver seu sorriso harmonia;
E os seus modos e gestos e ditos
Eram graça e perfume e magia.
E o que era o teu amor que me embalava
Mais do que meigos sons de meiga lira?
Um dia o decifrou — não mais que um dia —
Fingimento e mentira!
Tão belo o nosso amor! — foi só de um dia,
Como uma flor!
Por que tão cedo o talismã quebraste
Do nosso amor?
Por que n'um só instante assim partiste
Tão donosa a cadeia?
De bom grado a sofreste! — essa lembrança
Inda hoje me recreia.
É que o amor da mulher é como a grimpa
Que um sopro faz voltar;
Ou ar — ou fumo — ou vento, — mariposa
Constante em revoar.
É que o amor da mulher é como o lago,
Cujo a nuvem sombreia toda a flor;
É que o amor da mulher, se acaso existe,
É como a vaga — traidor.
Insensato que eu fui! — busquei firmeza.
Qual em ondas de areia movediça,
Na mulher, — não achei!
E da esp'rança que eu via tão donosa
Sorrir dentro em minha alma, as longas asas
Doido e néscio cortei!
E tu vás caprichosa perseguindo
Essa esteira de amor, que julgas cheia
De flores bem gentis;
Podes ir que os meus olhos te não vejam.
Longe — longe de mim, mas que em minha alma
Eu sinta qu'és feliz.
Podes ir que é desfeito o nosso laço,
Podes ir, que o teu nome nos meus lábios
Nunca mais soará!
Sim, vai; — mas este amor que me atormenta
Que tão grato me foi, que me é tão duro,
Comigo morrerá!
Tão belo o nosso amor! — foi só de um dia
Como uma flor!
Oh! que bem cedo o talismã quebraste
Do nosso amor!

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