Primeiros Cantos
O Romper d'Alva
Quand ta corde n'aurait qu'un son,
Harpe fidèle, chante encore
Le Dieu que ma jeunesse adore,
Car c'est un hymne que son nom. (Lamartine)
Harpe fidèle, chante encore
Le Dieu que ma jeunesse adore,
Car c'est un hymne que son nom. (Lamartine)
Do vento o rijo sopro as mansas ondas
Varreu do imenso pego, — e o mar rugindo
Às nuvens se elevou com fúria insana;
Enoveladas vagas se arrojaram
Ao céu co'a branca espuma!
Raivando em vão se encontram soluçando
Na base d'erma rocha descalvada;
Em vão de fúrias crescem, que se quebra
A força enorme do impotente orgulho
Na rocha altiva ou na arenosa praia.
Da tormenta o furor lhe acende os brios,
Da tormenta o furor lh'enfreia as iras
Que em teimosos gemidos se descerram,
Da quieta noite despertando os ecos
Além — no vale humilde — onde não chega
Seu sanhudo gemer, que o dia encobre.
Mas a brisa sussurrando
A face do céu varreu,
Tristes nuvens espalhando,
Que a noite em ondas verteu.
Além — atrás da montanha
Branda luz se patenteia,
Que d'alma a dor afugenta
Se dentro — sentida anceia.
Branda luz, que afaga a vista,
De que se ama o céu tingir,
Quando entre o azul transparente
Parece alegre sorrir;
Como és linda? — Como dobras
Da vida a força e do amor?
— Que também luz dentro d'alma
Teu luzir encantador!
No teu ameno silêncio
A tormenta se perdeu,
E do mar a forte vida
Nos abismos se escondeu!
Por que assim de novo agora
Que o vento o não vem toldar,
Parece que vai queixoso
Mansamente a soluçar?
Por que as ramas do arvoredo,
Bem como as ondas do mar,
Sem correr sopro de vento
Começam de murmurar?
Sobre o tapiz d'alta relva,
— Rocio da madrugada —
Destila gotas de orvalho
A verde folha inclinada.
Renascida a natureza
Parece sentir amor;
Mais brilhante, mais viçoso
O cálix levanta a flor.
Por entre as ramas ocultas,
Docemente a gorjear,
Acordam trinando as aves,
Alegres — no seu trinar.
O arvoredo n'essa língua
Que diz, por que assim sussurra?
Que diz o cantar das aves?
Que diz o mar que murmura?
— Dizem um nome sublime,
O nome do que é Senhor,
Um nome que os anjos dizem,
O nome do Criador.
Também eu, Senhor, direi
Teu nome — do coração,
E ajuntarei o meu hino
Ao hino da criação.
Quando a dor meu peito acanha,
Quando me rala a aflição,
Quando nem tenho na terra
Mesquinha consolação;
Tu, Senhor, do peso insano
Livras meu peito arquejante,
Secas-me o pranto que os olhos
Vertendo estão abundante.
Tu pacificas minha alma
Quando se rasga com pena,
Como a noite que se esconde
Na luz da manhã serena.
Tu és a luz do universo,
Tu és o ser criador,
Tu és o amor, és a vida,
Tu és meu Deus, meu Senhor.
Direi nas sombras da noite,
Direi ao romper da aurora:
— Tu és o Deus do universo,
O Deus que minha alma adora.
Também eu, Senhor, direi
Teu nome — do coração,
Eu juntarei o meu hino
Ao hino da criação.