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Primeiros Cantos

Recordação

Quando em meu peito as aflições rebentam
Eivadas de sofrer acerbo e duro;
Quando a desgraça o coração me arrocha
Em círculos de ferro com tal força,
Que dele o sangue em borbotões golfeja;
Quando minha alma de sofrer cansada
— Bem que afeita a sofrer — sequer não pode
Clamar: — Senhor, piedade; e que os meus olhos
Rebeldes — uma lágrima não vertem
Do mar d'angústias que meu peito oprime:
Volvo aos instantes de ventura, e penso
Que a sós comigo em prática serena
Melhor futuro me augurava, — as doces
Palavras tuas — sôfregos — atentos
Sorvendo meus ouvidos, — nos teus olhos
Lendo os meus olhos tanto amor, que a vida
Longa, bem longa, não bastara ainda
Porque de os ver me saciasse; o pranto
Então dos olhos meus corre espontâneo,
Que não mais te verei. — Em tal pensando
De martírios calar sinto no peito
Tão grande plenitude, que a minha alma
Sente amargo prazer de quanto sofre.

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