Segundos Cantos
As Duas Amigas
.......... Vivamos juntas
N'um só logar!
N'um só logar, ou sejão mansos ares,
Se ali te exaltas;
Ou sejão campos, se é ali que a relva
De pranto esmaltas. (V. Hugo. Trad.)
N'um só logar!
N'um só logar, ou sejão mansos ares,
Se ali te exaltas;
Ou sejão campos, se é ali que a relva
De pranto esmaltas. (V. Hugo. Trad.)
Já vistes sobre a flor de manso lago
Duas aves brincando solitárias,
Já pousadas na lisa superfície,
Já levantando o voo?
Já vistes duas nuvens no horizonte,
Brancas, orladas com listões de fogo,
A deslumbrante alvura cambiando
Ao pôr de sol estivo?
Já vistes duas lindas mariposas
Abrindo ao romper d'alva as longas asas,
Onde reflete o sol, como em um prisma,
Belas, garridas cores?
Nem as pombas que vagam solitárias,
Nem as nuvens do ocaso, nem as vagas
Borboletas gentis que adejam livres
Em vale ajardinado:
Não prazem tanto como doces virgens
Airosas, belas, com sorrir singelo,
Da vida negra e má duros abrolhos
Impróvidas calcando.
Quanto há no mundo d'ilusões fagueiras,
De perfume e de amor, guardam no peito,
Quanto há de luz no céu mostram nos olhos,
Quanto há de belo n'alma.
Como um jardim seu coração se mostra,
Seus olhos como um lago transparente,
Sua alma como uma harpa harmoniosa,
Seu peito como um templo!
Mas um fraco arruído espanta as aves,
Uma brisa ligeira as nuvens perde,
E uma gota de orvalho ensopa as asas
Das leves mariposas.
Desgarradas voando as aves fogem,
Dos castelos dos céus perdem-se as nuvens,
Nem mais adejam borboletas vagas
Sobre o esmalte das flores.
Pois quem resiste ao perpassar do tempo?
Depois que derramou grato perfume
Sobre as asas dos ventos que a bafejam,
A flor também definha.
Mas um nobre sentir que se enraíza
No peito do mulher que menos ama,
É como essência preciosa e grata,
Que se lacrou n'um vaso.
Repassa-o: depois embora o esgotem
Leves emanações, gratos eflúvios
Há de eterno verter da mesma essência,
Talvez porém mais doces.