Segundos Cantos
O Amor
Amare amabam. (S. Agost.)
Amor! enlevo d'alma, arroubo, encanto
Desta existência mísera, onde existes?
Fino sentir ou mágico transporte,
(O quer que seja que nos leva a extremos,
Aos quais não basta a natureza humana;)
Simpática atração d'almas sinceras
Que unidas pelo amor, no amor se apuram,
Por quem suspiro, sereis nome apenas?
A inútil chama ressecou meus lábios,
Mirrou meu coração em meia vida,
E à terra fez baixar a mente errada
Que entre nuvens, amor, por ti bradava!
Não te pude encontrar! — em vão meus anos
No louco intento esperdicei; gelados,
Uns após outros a cair precípites
Vi-os na urna do passado; eu triste,
Amor, por ti clamava; — e o meu deserto
Aos meus acentos reboava embalde
Em vão meu coração por ti se fina,
Em vão minha alma te compr'ende e busca,
Em vão meus lábios sôfregos cobiçam
Libar a taça que aos mortais of'reces!
Dizem-na funda, inesgotável, meiga;
Enquanto a vejo rasa, amarga e dura;
Dizem-na bálsamo, eu veneno a sorvo:
Prazer, doçura, — eu dor e fel encontro!
Dobrei-me as duras leis que me impuseste,
Curvei ao jugo teu meu colo humilde,
Feri-me aos teus ardentes passadores,
Prendi-me aos teus grilhões, rogei por terra...
E o lucro?.. foram lágrimas perdidas,
Foi roxa cicatriz q'inda conservo,
Gastada a natureza, a vida exausta!
Amor! amor! que és tu? Se acaso existes,
Se és mais que sombra vã, se és mais que um nome,
Se és mais que fantasia, ou mais que um sonho,
Dá-me sequer uma hora de ventura,
Uma hora, gênio ou Deus, se podes tanto.
Celeste emanação, gratos eflúvios
Das roseiras do céu; bater macio
Das asas auribrancas d'algum anjo,
Que roça em noite amiga a nossa esfera,
Centelha e luz do sol que nunca morre;
És tudo, e mais do q'isto: — és luz e vida,
Perfume, e voo d'anjo mal sentido,
Peregrinas essências trescalando!..
Também passas veloz, — breve te apagas,
Como d'uma ave a sombra fugitiva,
Desgarrada voando à flor de um lago!