Últimos Cantos
Cumprimento de um Voto
Feito às Sras. de Itapacorà, que abrilhantarão a festa do Illm. Sr. Antonio José Rodrigues Torres.
PORTO DAS CAIXAS — 25 de agosto de 1850.
Se ao mísero cantor vos praz mandar-lhe
Cantar voltas de amor, à graça tanta
Será mudo o cantor, nem há de aos ecos
A cítara incivil falar de amores?
Mandais, que sois, senhoras, minhas musas;
Quando a senhora manda o escravo cumpre
E às súplicas da musa o vate cede!
Afinada por voz a lira humilde,
Já desafeita aos sons que o peito abrandam,
À nova esfera se remonta agora.
O frescor juvenil dos vossos anos,
E as que vos ornam, deleitosas graças,
Hão de ameigar-lhe as cordas, perfumá-las,
Ditar-lhe os fáceis, inspirados carmes.
A estrela, que fulge no céu anilado,
Com plácido brilho de noite s'inflama;
Na fonte e no prado
Reflexos luzentes esparge e derrama.
Nos ramos cobertos de ameno rocio
As aves descantam à luz da alvorada,
E a meiga toada
Repetem aos ecos do bosque sombrio.
Na gleba virente, do sol bafejada,
Recende perfumes a flor matutina,
Que à luz da alvorada
Ao sopro da brisa de leve s'inclina.
A flor que trescala perfumes suaves,
A estrela que brilha no céu anilado.
E o canto das aves,
Que soa no bosque virente e copado;
Se cantam, perfumam, despedem fulgores,
É tal o seu fado: — vós sois como elas,
Sois como as estrelas,
Na graça e no canto, sois aves, sois flores.
Como elas, pagai-vos de ver quão fugaces
Encurtam-se as horas do nosso viver,
De ver como as faces,
Que tendes em torno, ressumbram prazer.
Estes versos na mente sussurravam
Do vate, cuja lira merencória
Foi por vós de festões engrinaldada;
Por vós, cujo sorriso mavioso
Melhor perfume exala, do que as notas
Concertadas com arte; dai um riso
Dos vossos, um volver dos brandos olhos,
Aos alegres convivas; e um reflexo
Do vosso meigo olhar e brando riso
Venha morrer na lira do poeta,
Como do astro-rei quando no ocaso
Doura no campo as folhas mais humildes.