Últimos Cantos
O Assassino
Pero una sola lagrima, um gemido
Sobre sus restos á ofrecer no van,
Que es sudario d'infames el olvido...
Bien con su nombre en su sepulcro estan!
Zorrilla.
Ei-lo! seu rosto pálido se encova;
Incerto, mais que os voos d'um morcego,
Seu andar, ora lento, ora apressado,
Profunda agitação revela aos olhos.
Crespos os cenhos, enrugada a fronte,
Semelha luz de tocha mortuária
A luz que os olhos seus despedem torvos.
Momentos há em que o seu rosto fero
De tal arte s'enruga e se transtorna,
Que os seus próprios amigos o fugiram
E temeu sua mãe de o unir ao seio.
Quando os lábios descerra, só murmura
Frases, cujo sentido não se alcança,
Ou blasfêmias a Deus, que o sofre em vida!
O que amou n'outro tempo, agora odeia;
Despreza o que estimou, evita, foge
Quanto afanoso procurava outrora:
Receia a luz do sol, o véu da noite,
A voz do crime, o grito da inocência!
A cólera de Deus caiu tremenda
Sobre o seu peito, e o coração lhe oprime,
De cuja interna chaga em jorros salta
O sangue e a podridão: horrendo e fero,
A vítima das fúrias do remorso,
Terrível e cobarde, e ao mesmo tempo
Rebelde contra a mão, que o vexa e pune,
Enquanto a Deus maldiz, blasfema, irrita,
D'uma voz, d'uma sombra se acobarda.
Não pode suportar seus pensamentos
A sós consigo, e aborrecendo os homens
De os ver e de os não ver sofre martírios.
Na cidade suspeita esposa, amigos,
A mãe e os filhos; — um terror, um pasmo,
Cuja causa recôndita se ignora,
Na voz, no rosto e gesto o denunciam
Como escravo do crime ou da miséria.
No ermo a própria voz o sobressalta!
O som dos passos, do seu corpo a sombra,
Das fontes o correr por entre as pedras,
Da brisa o suspirar por entre as folhas,
Quanto vê, quanto escuta o intimida.
Minaz lhe brada a natureza inteira,
Soluça um nome que lhe irriça a coma
E o frio do terror lh'imerge n'alma.
O mar nas ondas crespas, que se enrolam,
Batidas pelo açoite da procela
Troveja o mesmo nome; as vagas dizem-no
Quando passam, cuspindo-lhe o semblante;
E Deus, o próprio Deus no espaço o grava
Nos fuzis que os relâmpagos centelham.
Tem medo, quando sonha e quando vela.
Deixando o leito em seu suor banhado,
No silêncio da noite — a horas mortas,
Levanta-se medonho; range os dentes,
Nas mãos convulsas um punhal aperta
E a lâmina buída e os olhos torvos
Agoureiro clarão despedem juntos.
Soltando roucos sons com voz sumida,
Apalpa cauteloso as densas trevas,
E vai... caminha... atende... de repente
Apunhala um fantasma! — solta um grito,
Larga o punhal convulso e arrepiado!
N'um ferrete de sangue lê seu fado,
Um ferrete, que a dor não desfaz nunca,
Nem lava o pranto, nem consome o tempo.
Miserável, provando o fel da morte,
Ante o passo medonho se horroriza,
Odeia o mundo que fugir não pode,
Rejeita a religião que o não consola,
Odeia e teme a Deus, — teme a justiça
De quem na fronte vil do fratricida
Nódoa eterna gravou do crime infando.