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Luís de Camões

Luís Vaz de Camões · c. 1524–1580

Poeta de Os Lusíadas e o maior lírico da língua.

Sonetos

  1. Enquanto quis fortuna que tivesse
  2. Eu cantarei de amor tão docemente
  3. Com grandes esperanças já cantei
  4. Despois que quis Amor que eu só passasse
  5. Em prisões baixas fui um tempo atado
  6. Ilustre e digno ramo dos Meneses
  7. No tempo que de amor viver soía
  8. Amor, que o gesto humano na alma escreve
  9. Tanto de meu estado me acho incerto
  10. Transforma-se o amador na cousa amada
  11. Passo por meus trabalhos tão isento
  12. Em flor vos arrancou, de então crescida
  13. N'um jardim adornado de verdura
  14. Todo animal da calma repousava
  15. Busque Amor novas artes, novo engenho
  16. Quem vê, Senhora, claro e manifesto
  17. Quando da bela vista e doce riso
  18. Doces lembranças da passada glória
  19. Alma minha gentil, que te partiste
  20. N'um bosque, que das Ninfas se habitava
  21. Os Reinos e os Impérios poderosos
  22. De vós me parto, ó vida, e em tal mudança
  23. Cara minha inimiga, em cuja mão
  24. Aquela triste e leda madrugada
  25. Em formosa Leteia se confia
  26. Males, que contra mim vos conjurastes
  27. Está-se a Primavera trasladando
  28. Sete anos de pastor Jacó servia
  29. Está o lascivo e doce passarinho
  30. Pede o desejo, Dama, que vos veja
  31. Porque quereis, Senhora, que ofereça
  32. Se tanta pena tenho merecida
  33. Quando o sol encoberto vai mostrando
  34. Um mover de olhos, brando e piedoso
  35. Tomou-me vossa vista soberana
  36. Não passes, caminhante. Quem me chama?
  37. Formosos olhos, que na idade nossa
  38. O fogo que na branda cera ardia
  39. Alegres campos, verdes arvoredos
  40. Quantas vezes do fuso se esquecia
  41. Lindo e sutil trançado, que ficaste
  42. O cisne quando sente ser chegada
  43. Por os raros extremos que mostrou
  44. Tomava Daliana por vingança
  45. Grão tempo há já que soube da Ventura
  46. Se somente hora alguma em vós piedade
  47. Oh como se me alonga de ano em ano
  48. Amor, com a esperança já perdida
  49. Apolo e as nove Musas, descantando
  50. Lembranças saudosas, se cuidais
  51. Apartava-se Nise de Montano
  52. Quando vejo que meu destino ordena
  53. Náiades, vós que os rios habitais
  54. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades
  55. Se as penas com que Amor tão mal me trata
  56. Quem jaz no grão sepulcro, que descreve
  57. Quem pode livre ser, gentil Senhora
  58. Como fizeste, ó Pórcia, tal ferida?
  59. De tão divino acento em voz humana
  60. Debaixo desta pedra está metido
  61. Que vençais no Oriente tantos Reis
  62. Vossos olhos, Senhora, que competem
  63. Pois meus olhos não cansam de chorar
  64. Dai-me ũa lei, Senhora, de querer-vos
  65. Ferido sem ter cura perecia
  66. Na metade do céu subido ardia
  67. Já a roxa e branca Aurora destoucava
  68. Quando de minhas mágoas a comprida
  69. Suspiros inflamados que cantais
  70. Aquela fera humana que enriquece
  71. Ditoso seja aquele que somente
  72. Quem fosse acompanhando juntamente
  73. O culto divinal se celebrava
  74. Leda serenidade deleitosa
  75. Bem sei, Amor, que é certo o que receio
  76. Como quando do mar tempestuoso
  77. Amor é um fogo que arde sem se ver
  78. Se pena por amar-vos se merece
  79. Que levas, cruel Morte? Um claro dia
  80. Ondados fios de ouro reluzente
  81. Foi já n'um tempo doce cousa amar
  82. Dos antigos Ilustres, que deixaram
  83. Conversação doméstica afeiçoa
  84. Esforço grande, igual ao pensamento
  85. No mundo quis o Tempo que se achasse
  86. Vós, que de olhos suaves e serenos
  87. Que poderei do mundo já querer
  88. Pensamentos, que agora novamente
  89. Se tomo a minha pena em penitência
  90. Aquela que, de pura castidade
  91. Os vestidos Elisa revolvia
  92. Oh quão caro me custa o entender-te
  93. Se despois de esperança tão perdida
  94. O raio cristalino se estendia
  95. No mundo poucos anos e cansados
  96. Quem pudera julgar de vós, Senhora
  97. Quem, Senhora, presume de louvar-vos
  98. Moradoras gentis e delicadas
  99. Já claro vejo bem, já bem conheço
  100. Não vás ao monte, Nise, com teu gado
  101. A violeta mais bela que amanhece
  102. Tornai essa brancura à alva açucena
  103. A chaga que, Senhora, me fizestes
  104. Se com desprezos, Ninfa, te parece
  105. Uma admirável erva se conhece
  106. Crescei, desejo meu, pois que a Ventura
  107. De quantas graças tinha a natureza
  108. Doces e claras águas do Mondego
  109. Senhor João Lopes, o meu baixo estado
  110. A Morte, que da vida o nó desata
  111. O filho de Latona esclarecido
  112. Presença bela, angélica figura
  113. Por cima destas águas forte e firme
  114. Tal mostra de si dá vossa figura
  115. Na desesperação já repousava
  116. Diversos dões reparte o Céu benino
  117. Gentil Senhora, se a Fortuna imiga
  118. Que modo tão sutil da natureza
  119. Quando se vir com água o fogo arder
  120. Quando a suprema dor muito me aperta
  121. Sempre a Razão vencida foi de Amor
  122. Julga-me a gente toda por perdido
  123. Criou a natureza Damas belas
  124. Vencido está de amor meu pensamento
  125. En una selva al dispuntar del día
  126. Orfeo enamorado que tañía
  127. Eu cantei já, e agora vou chorando
  128. Ai amiga cruel! que apartamento
  129. Ah minha Dinamene! assi deixaste
  130. Guardando em mi a Sorte o seu direito
  131. Cantando estava um dia bem seguro
  132. O céu, a terra, o vento sossegado
  133. Ah Fortuna cruel! ah duros Fados
  134. Lembranças, que lembrais o bem passado
  135. Por sua Ninfa Céfalo deixava
  136. Sentindo-se alcançada a bela esposa
  137. Seguia aquele fogo, que o guiava
  138. Ornou sublime esforço ao grande Atlante
  139. Despois que viu Cibele o corpo humano
  140. Erros meus, má Fortuna, Amor ardente
  141. Cá nesta Babilônia donde mana
  142. Correm turbas as águas deste rio
  143. Vós outros, que buscais repouso certo
  144. Para se namorar do que criou
  145. Desce do céu imenso Deus benino
  146. Dos céus à terra desce a mor Beleza
  147. Porque a tamanhas penas se oferece
  148. Onde mereci eu tal pensamento
  149. De frescas belvederes rodeadas
  150. Nos braços de um Silvano adormecendo
  151. Quem diz que Amor é falso, ou enganoso
  152. Nem o tremendo estrépito da guerra
  153. Fiou-se o coração, de muito isento
  154. Que me quereis perpétuas saudades
  155. Vós, Ninfas da Gangética espessura
  156. Alma gentil, que à firme eternidade
  157. Debaixo desta pedra sepultada
  158. Quanta incerta esperança, quanto engano
  159. Como podes (oh cego pecador!)
  160. Verdade, Amor, Razão, Merecimento
  161. Ditosas almas, que ambas juntamente
  162. Contente vivi já, vendo-me isento
  163. Doce contentamento já passado
  164. Este amor, que vos tenho limpo e puro
  165. A formosura desta fresca serra
  166. Já não sinto, Senhora, os desenganos
  167. Eu vivia de lágrimas isento
  168. Indo o triste pastor todo embebido
  169. Dizei, Senhora, da beleza ideia
  170. Na ribeira do Eufrates assentado
  171. Chorai, Ninfas, os fados poderosos
  172. Doce sonho, suave e soberano
  173. Diana prateada, esclarecida
  174. Enquanto Febo os montes acendia
  175. N'um tão alto lugar, de tanto preço
  176. À romana Populônia perguntava
  177. A ti, Senhor, a quem as sacras Musas
  178. Aqueles claros olhos que chorando
  179. Com que voz chorarei meu triste fado
  180. Com voz desordenada, sem sentido
  181. De um tão felice engenho, produzido
  182. Deixando o doce fato e a cabana
  183. Descalço e sem chapéu Apolo louro
  184. El vaso reluciente y cristalino
  185. Em um batel que com doce meneio
  186. Já tempo foi que meus olhos folgavam
  187. Memória de meu bem, cortado em flores
  188. Memórias ofendidas que um só dia
  189. O dia em que eu nasci, morra e pereça
  190. Ó gloriosa cruz, ó vitorioso
  191. O tempo acaba o ano, o mês e a hora
  192. Olhos fermosos, em quem quis Natura
  193. Posto me tem fortuna em tal estado
  194. Pues lágrimas tratáis, mis ojos tristes
  195. Qual tem a borboleta por costume
  196. Quando cuido no tempo que, contente
  197. Quando, Senhora, quis Amor que amasse
  198. «Que gritos são os que ouço?» – «De tristeza»
  199. Que pode já fazer minha ventura
  200. Quem quiser ver d'Amor ũa excelência
  201. Quem vos levou de mi, saudoso estado
  202. Razão é já que minha confiança
  203. Se a Fortuna inquieta e mal olhada
  204. Se a ninguém tratais com desamor
  205. Se cuidasse que nesse peito isento
  206. Se de vosso fermoso e lindo gesto
  207. Se em mi, ó Alma, vive mais lembrança
  208. Se lágrimas choradas de verdade
  209. Se os capitães antigos colocados
  210. Sempre, cruel Senhora, receei
  211. Senhora já dest'alma, perdoai
  212. Sustenta meu viver ũa esperança
  213. Todas as almas tristes se mostravam
  214. Vai-me gastando Amor e um pensamento