Luís de Camões
Poeta de Os Lusíadas e o maior lírico da língua.
Sonetos
- Enquanto quis fortuna que tivesse
- Eu cantarei de amor tão docemente
- Com grandes esperanças já cantei
- Despois que quis Amor que eu só passasse
- Em prisões baixas fui um tempo atado
- Ilustre e digno ramo dos Meneses
- No tempo que de amor viver soía
- Amor, que o gesto humano na alma escreve
- Tanto de meu estado me acho incerto
- Transforma-se o amador na cousa amada
- Passo por meus trabalhos tão isento
- Em flor vos arrancou, de então crescida
- N'um jardim adornado de verdura
- Todo animal da calma repousava
- Busque Amor novas artes, novo engenho
- Quem vê, Senhora, claro e manifesto
- Quando da bela vista e doce riso
- Doces lembranças da passada glória
- Alma minha gentil, que te partiste
- N'um bosque, que das Ninfas se habitava
- Os Reinos e os Impérios poderosos
- De vós me parto, ó vida, e em tal mudança
- Cara minha inimiga, em cuja mão
- Aquela triste e leda madrugada
- Em formosa Leteia se confia
- Males, que contra mim vos conjurastes
- Está-se a Primavera trasladando
- Sete anos de pastor Jacó servia
- Está o lascivo e doce passarinho
- Pede o desejo, Dama, que vos veja
- Porque quereis, Senhora, que ofereça
- Se tanta pena tenho merecida
- Quando o sol encoberto vai mostrando
- Um mover de olhos, brando e piedoso
- Tomou-me vossa vista soberana
- Não passes, caminhante. Quem me chama?
- Formosos olhos, que na idade nossa
- O fogo que na branda cera ardia
- Alegres campos, verdes arvoredos
- Quantas vezes do fuso se esquecia
- Lindo e sutil trançado, que ficaste
- O cisne quando sente ser chegada
- Por os raros extremos que mostrou
- Tomava Daliana por vingança
- Grão tempo há já que soube da Ventura
- Se somente hora alguma em vós piedade
- Oh como se me alonga de ano em ano
- Amor, com a esperança já perdida
- Apolo e as nove Musas, descantando
- Lembranças saudosas, se cuidais
- Apartava-se Nise de Montano
- Quando vejo que meu destino ordena
- Náiades, vós que os rios habitais
- Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades
- Se as penas com que Amor tão mal me trata
- Quem jaz no grão sepulcro, que descreve
- Quem pode livre ser, gentil Senhora
- Como fizeste, ó Pórcia, tal ferida?
- De tão divino acento em voz humana
- Debaixo desta pedra está metido
- Que vençais no Oriente tantos Reis
- Vossos olhos, Senhora, que competem
- Pois meus olhos não cansam de chorar
- Dai-me ũa lei, Senhora, de querer-vos
- Ferido sem ter cura perecia
- Na metade do céu subido ardia
- Já a roxa e branca Aurora destoucava
- Quando de minhas mágoas a comprida
- Suspiros inflamados que cantais
- Aquela fera humana que enriquece
- Ditoso seja aquele que somente
- Quem fosse acompanhando juntamente
- O culto divinal se celebrava
- Leda serenidade deleitosa
- Bem sei, Amor, que é certo o que receio
- Como quando do mar tempestuoso
- Amor é um fogo que arde sem se ver
- Se pena por amar-vos se merece
- Que levas, cruel Morte? Um claro dia
- Ondados fios de ouro reluzente
- Foi já n'um tempo doce cousa amar
- Dos antigos Ilustres, que deixaram
- Conversação doméstica afeiçoa
- Esforço grande, igual ao pensamento
- No mundo quis o Tempo que se achasse
- Vós, que de olhos suaves e serenos
- Que poderei do mundo já querer
- Pensamentos, que agora novamente
- Se tomo a minha pena em penitência
- Aquela que, de pura castidade
- Os vestidos Elisa revolvia
- Oh quão caro me custa o entender-te
- Se despois de esperança tão perdida
- O raio cristalino se estendia
- No mundo poucos anos e cansados
- Quem pudera julgar de vós, Senhora
- Quem, Senhora, presume de louvar-vos
- Moradoras gentis e delicadas
- Já claro vejo bem, já bem conheço
- Não vás ao monte, Nise, com teu gado
- A violeta mais bela que amanhece
- Tornai essa brancura à alva açucena
- A chaga que, Senhora, me fizestes
- Se com desprezos, Ninfa, te parece
- Uma admirável erva se conhece
- Crescei, desejo meu, pois que a Ventura
- De quantas graças tinha a natureza
- Doces e claras águas do Mondego
- Senhor João Lopes, o meu baixo estado
- A Morte, que da vida o nó desata
- O filho de Latona esclarecido
- Presença bela, angélica figura
- Por cima destas águas forte e firme
- Tal mostra de si dá vossa figura
- Na desesperação já repousava
- Diversos dões reparte o Céu benino
- Gentil Senhora, se a Fortuna imiga
- Que modo tão sutil da natureza
- Quando se vir com água o fogo arder
- Quando a suprema dor muito me aperta
- Sempre a Razão vencida foi de Amor
- Julga-me a gente toda por perdido
- Criou a natureza Damas belas
- Vencido está de amor meu pensamento
- En una selva al dispuntar del día
- Orfeo enamorado que tañía
- Eu cantei já, e agora vou chorando
- Ai amiga cruel! que apartamento
- Ah minha Dinamene! assi deixaste
- Guardando em mi a Sorte o seu direito
- Cantando estava um dia bem seguro
- O céu, a terra, o vento sossegado
- Ah Fortuna cruel! ah duros Fados
- Lembranças, que lembrais o bem passado
- Por sua Ninfa Céfalo deixava
- Sentindo-se alcançada a bela esposa
- Seguia aquele fogo, que o guiava
- Ornou sublime esforço ao grande Atlante
- Despois que viu Cibele o corpo humano
- Erros meus, má Fortuna, Amor ardente
- Cá nesta Babilônia donde mana
- Correm turbas as águas deste rio
- Vós outros, que buscais repouso certo
- Para se namorar do que criou
- Desce do céu imenso Deus benino
- Dos céus à terra desce a mor Beleza
- Porque a tamanhas penas se oferece
- Onde mereci eu tal pensamento
- De frescas belvederes rodeadas
- Nos braços de um Silvano adormecendo
- Quem diz que Amor é falso, ou enganoso
- Nem o tremendo estrépito da guerra
- Fiou-se o coração, de muito isento
- Que me quereis perpétuas saudades
- Vós, Ninfas da Gangética espessura
- Alma gentil, que à firme eternidade
- Debaixo desta pedra sepultada
- Quanta incerta esperança, quanto engano
- Como podes (oh cego pecador!)
- Verdade, Amor, Razão, Merecimento
- Ditosas almas, que ambas juntamente
- Contente vivi já, vendo-me isento
- Doce contentamento já passado
- Este amor, que vos tenho limpo e puro
- A formosura desta fresca serra
- Já não sinto, Senhora, os desenganos
- Eu vivia de lágrimas isento
- Indo o triste pastor todo embebido
- Dizei, Senhora, da beleza ideia
- Na ribeira do Eufrates assentado
- Chorai, Ninfas, os fados poderosos
- Doce sonho, suave e soberano
- Diana prateada, esclarecida
- Enquanto Febo os montes acendia
- N'um tão alto lugar, de tanto preço
- À romana Populônia perguntava
- A ti, Senhor, a quem as sacras Musas
- Aqueles claros olhos que chorando
- Com que voz chorarei meu triste fado
- Com voz desordenada, sem sentido
- De um tão felice engenho, produzido
- Deixando o doce fato e a cabana
- Descalço e sem chapéu Apolo louro
- El vaso reluciente y cristalino
- Em um batel que com doce meneio
- Já tempo foi que meus olhos folgavam
- Memória de meu bem, cortado em flores
- Memórias ofendidas que um só dia
- O dia em que eu nasci, morra e pereça
- Ó gloriosa cruz, ó vitorioso
- O tempo acaba o ano, o mês e a hora
- Olhos fermosos, em quem quis Natura
- Posto me tem fortuna em tal estado
- Pues lágrimas tratáis, mis ojos tristes
- Qual tem a borboleta por costume
- Quando cuido no tempo que, contente
- Quando, Senhora, quis Amor que amasse
- «Que gritos são os que ouço?» – «De tristeza»
- Que pode já fazer minha ventura
- Quem quiser ver d'Amor ũa excelência
- Quem vos levou de mi, saudoso estado
- Razão é já que minha confiança
- Se a Fortuna inquieta e mal olhada
- Se a ninguém tratais com desamor
- Se cuidasse que nesse peito isento
- Se de vosso fermoso e lindo gesto
- Se em mi, ó Alma, vive mais lembrança
- Se lágrimas choradas de verdade
- Se os capitães antigos colocados
- Sempre, cruel Senhora, receei
- Senhora já dest'alma, perdoai
- Sustenta meu viver ũa esperança
- Todas as almas tristes se mostravam
- Vai-me gastando Amor e um pensamento