XIV
A lição do discípulo
— Fique, fique, conselheiro, disse Santos apertando a mão ao diplomata. Aprenda as verdades eternas.
— Verdades eternas pedem horas eternas, ponderou este, consultando o relógio.
Um tal Aires não era fácil de convencer. Plácido falou-lhe de leis científicas para excluir qualquer mácula de seita, e Santos foi com ele. Toda a terminologia espírita saiu fora, e mais os casos, fenômenos, mistérios, testemunhos, atestados verbais e escritos... Santos acudiu com um exemplo: dois espíritos podiam tornar juntos a este mundo; e, se brigassem antes de nascer?
— Antes de nascer, crianças não brigam, replicou Aires, temperando o sentido afirmativo com a entonação dubitativa.
— Então nega que dois espíritos...? Essa cá me fica, conselheiro! Pois que impede que dois espíritos?...
Aires viu o abismo da controvérsia, e forrou-se à vertigem por uma concessão, dizendo:
— Por exemplo?
— Por exemplo, se as duas crianças quiserem ajoelhar-se ao mesmo tempo para adorar o Criador. Aí está um caso de conflito, mas de conflito espiritual, cujos processos escapam à sagacidade humana. Também poderia ser um motivo temporal. Suponhamos a necessidade de se acotovelarem para ficar melhor acomodados; é uma hipótese que a ciência aceitaria; isto é, não sei... Há ainda o caso de quererem ambos a primogenitura.
— Para quê? perguntou Plácido.
— Conquanto este privilégio esteja hoje limitado às famílias régias, à câmara dos lords e não sei se mais, tem todavia um valor simbólico. O simples gosto de nascer primeiro, sem outra vantagem social ou política, pode dar-se por instinto, principalmente se as crianças se destinarem a galgar os altos deste mundo.
Santos afiou o ouvido neste ponto, lembrando-se das «coisas futuras». Aires disse ainda algumas palavras bonitas, e acrescentou outras feias, admitindo que a briga podia ser prenúncio de graves conflitos na terra; mas logo temperou esse conceito com este outro:
— Não importa; não esqueçamos o que dizia um antigo, que «a guerra é a mãe de todas as coisas». Na minha opinião, Empédocles, referindo-se à guerra, não o fez só no sentido técnico. O amor, que é a primeira das artes da paz, pode-se dizer que é um duelo, não de morte, mas de vida, — concluiu Aires sorrindo leve, como falava baixo, e despediu-se.
15 de 122 · índice