Papéis Avulsos
Na Arca
Três capítulos inéditos do Gênesis
Primeira publicação: O Cruzeiro, 14 de maio de 1878, com o pseudônimo Eleazar
A
1. — Então Noé disse a seus filhos Jafé, Sem e Cam: — «Vamos sair da arca, segundo a vontade do Senhor, nós, e nossas mulheres, e todos os animais. A arca tem de parar no cabeço de uma montanha; desceremos a ela.
2. — «Porque o Senhor cumpriu a sua promessa, quando me disse: Resolvi dar cabo de toda a carne; o mal domina a terra, quero fazer perecer os homens. Faze uma arca de madeira; entra nela tu, tua mulher e teus filhos.
3. — «E as mulheres de teus filhos, e um casal de todos os animais.
4. — «Agora, pois, se cumpriu a promessa do Senhor, e todos os homens pereceram, e fecharam-se as cataratas dó céu; tornaremos a descer à terra, e a viver no seio da paz e da concórdia.»
5. — Isto disse Noé, e os filhos de Noé muito se alegraram de ouvir as palavras de seu pai; e Noé os deixou sós, retirando-se a uma das câmaras da arca.
6. — Então Jafé levantou a voz e disse: — «Aprazível vida vai ser a nossa. A figueira nos dará o fruto, a ovelha a lã, a vaca o leite, o sol a claridade e a noite a tenda.
7. — «Porquanto seremos únicos na terra, e toda a terra será nossa, e ninguém perturbará a paz de uma família, poupada do castigo que feriu a todos os homens.
8. — «Para todo o sempre.» Então Sem, ouvindo falar o irmão, disse: — «Tenho uma ideia.» Ao que Jafé e Cam responderam: — «Vejamos a tua ideia, Sem.»
9. — E Sem falou a voz de seu coração, dizendo: — «Meu pai tem a sua família; cada um de nós tem a sua família; a terra é de sobra; podíamos viver em tendas separadas. Cada um de nós fará o que lhe parecer melhor: e plantará, caçará, ou lavrará a madeira, ou fiará o linho.»
10. — E respondeu Jafé: — «Acho bem lembrada a ideia de Sem; podemos viver em tendas separadas. A arca vai descer ao cabeço de uma montanha; meu pai e Cam descerão para o lado do nascente: eu e Sem para o lado do poente. Sem ocupará duzentos côvados de terra, eu outros duzentos.»
11. — Mas dizendo Sem: — «Acho pouco duzentos côvados» —, retorquiu Jafé: «Pois sejam quinhentos cada um. Entre a minha terra e a tua haverá um rio, que as divida no meio, para se não confundir a propriedade. Eu fico na margem esquerda e tu na margem direita;
12. — «E a minha terra se chamará a terra de Jafé, e a tua se chamará a terra de Sem; e iremos às tendas um do outro, e partiremos o pão da alegria e da concórdia.»
13. — E tendo Sem aprovado a divisão, perguntou a Jafé: «Mas o rio? a quem pertencerá a água do rio, a corrente?
14. — «Porque nós possuímos as margens, e não estatuímos nada a respeito da corrente.» E respondeu Jafé, que podiam pescar de um e outro lado; mas, divergindo o irmão, propôs dividir o rio em duas partes, fincando um pau no meio. Jafé, porém, disse que a corrente levaria o pau.
15. — E tendo Jafé respondido assim, acudiu o irmão: — «Pois que te não serve o pau, fico eu com o rio, e as duas margens; e para que não haja conflito, podes levantar um muro, dez ou doze côvados, para lá da tua margem antiga.
16. — «E se com isto perdes alguma coisa, nem é grande a diferença, nem deixa de ser acertado, para que nunca jamais se turbe a concórdia entre nós, segundo é a vontade do Senhor.»
17. — Jafé porém replicou: — «Vai bugiar! Com que direito me tiras a margem, que é minha, e me roubas um pedaço de terra? Porventura és melhor do que eu.
18. — «Ou mais belo, ou mais querido de meu pai? que direito tens de violar assim tão escandalosamente a propriedade alheia?
19. — «Pois agora te digo que o rio ficará do meu lado, com ambas as margens, e que se te atreveres a entrar na minha terra, matar-te-ei como Caim matou a seu irmão.»
20. — Ouvindo isto, Cam atemorizou-se muito, e começou a aquietar os dois irmãos,
21. — Os quais tinham os olhos do tamanho de figos e cor de brasa, e olhavam-se cheios de cólera e desprezo.
22. — A arca, porém, boiava sobre as águas do abismo.
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