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Na Arca — Capítulo C

C

1. — Eis aqui chegou Noé ao lugar onde lutavam os dois filhos,

2. — E achou-os ainda agarrados um ao outro, e Sem debaixo do joelho de Jafé, que com o punho cerrado lhe batia na cara, a qual estava roxa e sangrenta.

3. — Entretanto, Sem, alçando as mãos, conseguiu apertar o pescoço do irmão, e este começou a bradar: «Larga-me, larga-me.»

4. — Ouvindo os brados, as mulheres de Jafé e Sem acudiram também ao lugar da luta, e, vendo-os assim, entraram a soluçar e a dizer: «O que será de nós? A maldição caiu sobre nós e nossos maridos.»

5. — Noé, porém, lhes disse: «Calai-vos, mulheres de meus filhos, eu verei de que se trata, e ordenarei o que for justo.» E caminhando para os dois combatentes,

6. — Bradou: «Cessai a briga. Eu, Noé, vosso pai, o ordeno e mando.» E ouvindo os dois irmãos o pai, detiveram-se subitamente, e ficaram longo tempo atalhados e mudos, não se levantando nenhum deles.

7. — Noé continuou: «Erguei-vos, homens indignos da salvação e merecedores do castigo que feriu os outros homens.»

8. — Jafé e Sem ergueram-se. Ambos tinham feridos o rosto, o pescoço e as mãos, e as roupas salpicadas de sangue, porque tinham lutado com unhas e dentes, instigados de ódio mortal.

9. — O chão também estava alagado de sangue, e as sandálias de um e outro, e os cabelos de um e outro,

10. — Como se o pecado os quisera marcar com o selo da iniquidade.

11. — As duas mulheres, porém, chegaram-se a eles, chorando e acariciando-os, e via-se-lhes a dor do coração. Jafé e Sem não atendiam a nada, e estavam com os olhos no chão, medrosos de encarar seu pai.

12. — O qual disse: «Ora, pois, quero saber o motivo da briga.»

13. — Esta palavra acendeu o ódio no coração de ambos. Jafé, porém, foi o primeiro que falou e disse:

14. — «Sem invadiu a minha terra, a terra que eu havia escolhido para levantar a minha tenda, quando as águas houverem desaparecido e a arca descer, segundo a promessa do Senhor;

15. — «E eu, que não tolero o esbulho, disse a meu irmão: «Não te contentas com quinhentos côvados e queres mais dez? «E ele me respondeu: «Quero mais dez e as duas margens do rio que há de dividir a minha terra da tua terra.»

16. — Noé, ouvindo o filho, tinha os olhos em Sem; e acabando Jafé, perguntou ao irmão: «Que respondes?»

17. — E Sem disse: «— Jafé mente, porque eu só lhe tomei os dez côvados de terra, depois que ele recusou dividir o rio em duas partes; e propondo-lhe ficar com as duas margens, ainda consenti que ele medisse outros dez côvados nos fundos das terras dele,

18. — «Para compensar o que perdia; mas a iniquidade de Caim falou nele, e ele me feriu a cabeça, a cara e as mãos.»

19. — E Jafé interrompeu-o dizendo: «Porventura não me feriste também? Não estou ensanguentado como tu? Olha a minha cara e o meu pescoço; olha as minhas faces, que rasgaste com as tuas unhas de tigre.»

20. — Indo Noé falar, notou que os dois filhos de novo pareciam desafiar-se com os olhos. Então disse: «Ouvi!» Mas os dois irmãos, cegos de raiva, outra vez se engalfinharam, bradando: — «De quem é o rio?» — «O rio é meu.»

21. — E só a muito custo puderam Noé, Cam e as mulheres de Sem e Jafé, conter os dois combatentes, cujo sangue entrou a jorrar em grande cópia.

22. — Noé, porém, alçando a voz, bradou: — Maldito seja o que me não obedecer. Ele será maldito, não sete vezes, não setenta vezes sete, mas setecentas vezes setenta.

23. — «Ora, pois, vos digo que, antes de descer a arca, não quero nenhum ajuste a respeito do lugar em que levantareis as tendas.»

24. — Depois ficou meditabundo.

25. — E alçando os olhos ao céu, porque a portinhola do teto estava levantada, bradou com tristeza:

26. — «Eles ainda não possuem a terra e já estão brigando por causa dos limites. O que será quando vierem a Turquia e a Rússia?»

27. — E nenhum dos filhos de Noé pôde entender esta palavra de seu pai.

28. — A arca, porém, continuava a boiar sobre as águas do abismo.

Fim

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