Clã do Jabuti
Lenda do céu
Andorinha, andorinha,
Andorinha avoou,
Andorinha caiu,
Curumim a pegou.
— Piá, não me maltrata não!
Eu levo você pro mato
Enxergar bichos tamanhos
E correr com os guanumbis...
O menino brincava,
Andorinha sofria
E dum lado pra outro
Atordoada gemia:
— Piá, não me maltrata não!
Eu levo você pro mar
Ver as ondas ver as praias
Ver os peixinhos do mar...
O menino malvado
Taperá machucou.
E já morre morrendo
A coitada falou:
— Piá, não me maltrata não...
Eu levo você pro céu...
E nunca ninguém não cansa
De ver as coisas do céu...
É um sítio bonito mesmo
Beiradeando o trem-de-ferro,
Lá você acha sua gente
Que faz muito que morreu.
Assegura em minhas penas,
Vamos embora com Deus...
Andorinha, andorinha,
Andorinha avoou,
Foi subindo pro céu,
Curumim carregou.
— Assegura bem, menino,
Não olha pra baixo não.
Não tem sodade do mundo
Que o mundo é só perdição.
E avoando avoando
Afinal se chegou.
Andorinha desceu.
Curumim apeou.
Abriu os olhos e viu.
Era o céu... oh boniteza!
Tinha espingarda gangorra
Estilingue... Tinha bichos
E tinha tantas surpresas
Que era mesmo um desperdício.
Olha um cachorro janguar!
Olha a ave seriema!
Olha aquelas três-marias
Da gente bolear nhandus!...
Era que nem um pomar
Com tanta fruta aromando
Que o ar ficava que ficava
Bonzinho de respirar.
O curumim caminhava
Seguindo os postes da linha,
Lá pelo varjão se ouvia
Duma fordeca a chispada,
E no meio-dia quente
Amulegando maneiro
Um aboio tão chorado
Que acuava no corpo doce
O sono do brasileiro.
Tinha mandioca e assai
Mate cana arroz café
Muita banana e feijão
Milho cacau... Tinha até
Pra lá do cercado novo
Cheio de taperebás
Um rancho do nosso povo
Com seu mastro de São João.
No galpão um homem comprido
Duma quente morenez,
Com a pele bem sapecada
Pelo Sol deste país,
Gemia uma sanfona
ũa mazurca tão linda
Que si parava um bocado
O ouvido cantava ainda.
O menino olhou pro homem
E gritou: — B’as tarde, tio!
— Meu sobrinho, entra no rancho,
Nossa gente já está aí.
E o piá se rindo matava
Saudades do coração.
Tomava a bênção da mãe,
Do pai, abraçava o irmão,
Afinal topou com o primo
Que era unha-e-carne com ele
E comovidos os dois,
Os dois se deram a mão.
E foram brincar pra sempre
Pelos pagos abençoados
Do meio-dia do céu.
No céu sempre é meio-dia...
Não tem noite, não tem doença
E nem outra malvadez...
A gente vive brincando...
E não se morre outra vez.