Clã do Jabuti
Yayá, Fruta-do-Conde, Castanha-do-Pará!...
Yayá, fruta-do-conde,
Castanha-do-Pará!...
O préstito passando.
Bandos de clarins em cavalos fogosos.
Utiaritis aritis assoprando cornetas sagradas.
Fanfarras fanfarrans
fenferrens
finfirrins...
Forrobodó de cuia!
Vitória sobre a civilização! Que civilização?... É Baco!
É Baco num carro feito de oiro e de mulheres
E dez parelhas de bestas imorais.
Tudo aplaude guinchos berros,
E sobre o Etna de loucuras e pólvoras
Os Tenentes do Diabo.
Alegorias, críticas, paródias
Palácios bestas do fundo do mar,
Os alugueis se elevam...
Os senhorios exigentes...
Cães! infames! malditos!...
... Eu enxerguei com estes meus olhos que inda a Terra há de comer
Anteontem as duas mulheres se fantasiando- de lágrimas.
A mais nova amamentava o esqueletinho.
Quatro barrigudinhos sem infância,
Os trastes sem conchego
No lar-de-todos da rua...
O Solzão ajudava a apoteose
Com o despejo das cores e calores...
Segue o préstito numa via-látea de esplendores.
Presa num palanquim de ônix e pórfiro...
Ota, morena boa!
Os olhos dela têm o verde das florestas,
Todo um brasil de escravos-banzo sensualismos,
Índios nus balanceando na terra das tabas,
Cauim curare cachiri
Cajás... Ariticuns... Pele de Sol!
Minha vontade por você serpentinando...
O préstito se vai.
Os Blocos se amontoam me afastando de você...
Passa o Flor de Abacate,
Passa o Miséria e Fome, o Ameno Resedá...
O préstito se vai...
Você também se foi rindo pros outros,
Senhora dona ingrata
Coberta de oiro e prata...
Esfuzios de risos...
Arrancos de metais...
Schlschlsch monótono das serpentinas...
Monótono das serpentinas...
E a surpresa do fim: Fadiga de gozar.
Claros em torno da gente.
Bolas de fitas de papel rolando pelo chão.
Manchas de asfalto.
Os corpos adquirem de novo as sombras deles.
Tem lugares no bar.
As árvores poisam de novo no chão graciosas ordenadas,
Os palácios começam de novo subindo no céu...
Quatro horas da manhã.
Nos clubes nas cavernas
Inda se ondula vagamente no maxixe.
Os corpos se unem mais.
Tem cinzas na escureza indecisa da arraiada.
Já é quarta-feira no Passeio Público.
Numa sanha final
Os varredores carnavalizam as brisas da manhã
Com poeiras perfumadas e cromáticas.
Peri triste sentou na beira da calçada.
O carro-chefe dos Democráticos
Sem falação do estandarte
Sem vida, sem mulheres
Senil buscando o barracão.
Democraticamente...
Aurora... Tchim! Um farfalhar de plumas áureas no ar.
E as montanhas que nem tribus de guaianás em rapinas de luz
Com seus cocares de penas de tucano.
O poeta se debruça no parapeito de granito.
A rodelinha de confete cai do chapéu dele,
Vai saracotear ainda no samba mole das ondas.
Então o poeta vai deitar.
Lentamente se acalma no país das lembranças
A invasão furiosa das sensações.
O poeta sente-se mais seu.
E puro agora pelo contato de si mesmo
Descansa o rosto sobre a mão que escreverá.
Lhe embala o sono
A barulhada matinal de Guanabara...
Sinos buzinas clacsons campainhas
Apitos de oficinas
Motores bondes pregões no ar,
Carroças na rua transatlânticos no mar...
É a cantiga-de-berço.
E o poeta dorme.
O poeta dorme sem necessidade de sonhar.