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Lira Paulistana

Lira Paulistana

Minha viola bonita,
Bonita viola minha,
Cresci, cresceste comigo
Nas Arábias.
Minha viola namorada,
Namorada viola minha,
Cantei, cantaste comigo
Em Granada.
Minha viola ferida,
Ferida viola minha,
O amor fugiu para leste
Na borrasca.
Minha viola quebrada,
Raiva, anseios, lutas, vida,
Miséria, tudo passou-se
Em São Paulo.
São Paulo pela noite.
Meu espírito alerta
Baila em festa e metrópole.
São Paulo na manhã.
Meu coração aberto
Dilui-se em corpos flácidos.
São Paulo pela noite.
O coração alçado
Se expande em luz sinfônica.
São Paulo na manhã.
O espírito cansado
Se arrasta em marchas fúnebres.
São Paulo noite e dia...
A forma do futuro
Define as alvoradas:
Sou bom. E tudo é glória.
O crime do presente
Enoitece o arvoredo:
Sou bom. E tudo é cólera.
Garoa do meu São Paulo,
— Timbre triste de martírios —
Um negro vem vindo, é branco!
Só bem perto fica negro,
Passa e toma a ficar branco.
Meu São Paulo da garoa,
— Londres das neblinas finas —
Um pobre vem vindo, é rico!
Só bem perto fica pobre,
Passa e toma a ficar rico.
Garoa do meu São Paulo,
— Costureira de malditos —
Vem um rico, vem um branco,
São sempre brancos e ricos...
Garoa, sai dos meus olhos.
Vaga um céu indeciso entre nuvens cansadas,
Onde está o insofrido? O mal das almas
Quase parece um bem na linha das calçadas,
A palavra se inutiliza em brisas calmas
De andantes, onde estou! No entanto é dia claro...
Toda forma de ação se esvai numa atonia,
Há desamparo e aceitação do desamparo.
— Essa história de amar quando começa o dia...
Ruas do meu São Paulo,
Onde está o amor vivo,
Onde está?
Caminhos da cidade,
Corro em busca do amigo,
Onde está?
Ruas do meu São Paulo,
Amor maior que o cibo,
Onde está?
Caminhos da cidade,
Resposta ao meu pedido,
Onde está?
Ruas do meu São Paulo,
A culpa do insofrido,
Onde está?
Há de estar no passado,
Nos séculos malditos,
Aí está.
Abre-te boca e proclama
Em plena praça da Sé,
O horror que o Nazismo infame
É.
Abre-te boca e certeira,
Sem piedade por ninguém,
Conta os crimes que o estrangeiro
Tem.
Mas exalta as nossas rosas,
Esta primavera louca,
Os tico-ticos mimosos,
Cala-te boca.
Esse homem que vai sozinho
Por estas praças, por estas ruas,
Tem consigo um segredo enorme,
É um homem.
Essa mulher igual às outras
Por estas ruas, por estas praças,
Traz uma surpresa cruel,
É uma mulher.
A mulher encontra o homem,
Fazem ar de riso, e trocam de mão,
A surpresa e o segredo aumentam
Violentos.
Mas a sombra do insofrido
Guarda o mistério na escuridão.
A morte ronda com sua foice.
Em verdade, é noite.
O disco terminara e a companhia estava volnerada.
Foi quando Camargo Guarnieri arrancou:
— Mas nunca numa sala de concerto se pode obter sonoridade assim!
Um disse:
— Essa música é uma mentira.
Meus olhos se enchem de lágrimas.
Tudo se turva em recusas escuras,
Muxibas congeladas, casas
Em série, músicas racionadas,
O deus novo científico e marcial
Gerando latagões. Em latas.
Partir eu parto...
Mas essa música é mentira.
Mas partir eu parto.
Mas eu não sei onde vou.
O bonde abre a viagem,
No banco ninguém,
Estou só, ‘stou sem.
Depois sobe um homem,
No banco sentou,
Companheiro vou.
O bonde está cheio,
De novo porém
Não sou mais ninguém.
Eu nem sei si vale a pena
Cantar São Paulo na lida,
Só gente muito iludida
Limpa o gosto e assopra a avena,
Esta angústia não serena,
Muita fome pouco pão,
Eu só vejo na função
Miséria, dolo, ferida,
Isso é vida?
São glórias desta cidade
Ver a arte contando história,
A religião sem memória
De quem foi Cristo em verdade,
Os chefes nossa amizade,
Os estudantes sem textos,
Jornalismo no cabresto,
Tolos cantando vitória,
Isso é glória?
Divórcio pra todo o lado,
As guampas fazem furor,
Grã-finos do despudor,
No gasogênio empestado,
Das moças do operariado
São os gozosos mistérios,
Isso de ter filho, néris,
E se ama seja o que for,
Isso é amor?
Mas o pior desta nação
É ter fábrica de gás
Que donos-da-vida faz
Ianques e ingleses de ação,
Tudo vem de convulsão
Enquanto se insulta o Eixo,
Lights, Tramas, Corporation,
E a gente de trás pra trás,
Isso é paz?
Pois nada vale a verdade,
Ela mesma está vendida,
A honra é uma suicida,
Nuvem a felicidade,
E entre rosas a cidade,
Muito concha e relambória,
Sem paz, sem amor, sem glória,
Se diz terra progredida,
Eu pergunto:
Isso é vida?
O céu claro tão largo, cheio de calma na tarde,
É ver uma criança adormecida
Baixando as pálpebras sem pensamento
Sobre um mundo que ainda não viveu.
Luzes suaves e certas, luzes até nas sombras,
Doçura em tudo. Os homens estão mais longe,
São apenas recordações mansas pousando
Num sentimento sem temor.
Os ruídos se amaciam quase envelhecidos,
Doçura em tudo. O chão é vagarento,
O ar se esquece. A tensão do insofrido se abranda
Como a firmeza das continuações.
Eu te guardo, homem do meu caminho...
Oh espelhos, Pireneus, caiçaras insistentes,
Por que não sereis sempre assim!
Abril...
Tua imagem se apaga em certos bairros,
Mas tua dor rasga nos ares,
Não me deixa dormir.
Oh, Gilda, Oneida, Tarsila, me fechem a boca,
Tapem meus olhos e meus ouvidos,
Para que a glória do insofrido
Volte a cantar Minas Gerais!
A tua dor se dispersa nos ares,
Mas tua imagem suando ao dia inútil
Me impede até de chorar.
Eu vou-me embora, vou-me embora,
Fazer week-end em Santo Amaro,
Repartir em vãs alegrias
Meu desejo vão de esquecer!
Só isso levas, coração.
Numa cabeleira pesada
Que ondula defronte de mim
No bonde,
Há reflexos de sol vermelho.
Um calor nasce no meu corpo
Que todo se desfolha em dedos
Amigos
Que eu perco pelas multidões.
Os reflexos do sol vermelho
Incendeiam as multidões
Felizes
Que construirão a outra São Paulo
Que reconduzirá meus dedos
Para a conclusão do meu corpo
No leito
Duma cabeleira pesada.
Na rua Barão de Itapetininga
O meu coração não sabe de si,
Não se vê moça que não seja linda,
Minha namorada não passeia aqui.
Na rua Barão de Itapetininga
Minha aspiração não aguenta mais,
A tarde caindo, a vida foi longa,
Mas a esperança já está no cais.
Na rua Barão de Itapetininga
Minha devoção quebra duma vez,
Porque a mulher que eu amo está longe,
É... a princesa do império chinês.
Na rua Barão de Itapetininga
Noite de São João qualquer mês terá,
Em mil labaredas de fogo e sangue
Bandeira ardente tremulará.
Na rua Barão de Itapetininga
Minha namorada vem passear.
Beijos mais beijos,
Milhões de beijos preferidos,
Venho de amores com a minha amada,
Insaciáveis.
Rosas mais rosas,
Milhões de rosas paulistanas,
Venho de sustos com a minha amiga,
Implacáveis.
Luzes mais luzes,
Luzes perdidas na garoa,
Trago tristezas no peito vivo,
Implacáveis.
Ideais, ideais,
Ideais raivosos do insofrido,
Trago verdades novas na boca,
Insaciáveis.
Jornais, jornais,
Notícias que enchem e esvaziam,
— Me dá uma bomba sem retardamento,
Implacável!
Horas mais horas,
Rio do meu mistério esquivo,
— Me dá violetas pelos meus dedos
Insaciáveis...
Silêncio em tudo. Que a música
Rola em disco sem cessar.
Uns pensam, outros suspiram,
Um escuta.
Lourdes reina a paz em Varsóvia.
A advertência dos vidrilhos
Ladrilha tudo. Nos cantos
Murcham as flores de retórica.
Rui bom, cuidado! Motorista
Dos highlands do pensamento:
Nessas landas os nativos
Não consertam as estradas.
Minas Gerais, fruta paulista,
Sambre et Meuse bem marxante,
Periga às vezes, por confiança
Nas gageures.
Esse clima de São Paulo,
Muito vento e bem calor,
Abrir e fechar de portas
Nas auroras do cristal.
Paulo Emílio assim que o ruído
Ruiu, o trem descarrilou
No screen-play ruim... Mas os ratos
Os ratos roem por aí.
Um largo gesto desmaia
Na ribalta. Não faz mal
Que em São Paulo deciolizem
Lagartixas ao sol.
Essa impiedade da paineira
Consigo mesma... Qualquer vento,
Vento qualquer... Os canários
Cantam que mais cantam.
Lourival sentencioso,
Parceiro de dor e vale,
Nunca houve fúrias de Averno
Em diabo grande.
O arreliquim de Tintagiles, Gilda,
Me esconde tudo, neblina.
A hera deu flo... A saudade
Lilá ri das inquietações.
Silêncio em tudo... Que a música
Na cuíca mansa e amiga,
Faz que diz mas não diz...
Adormeceram.
Bailam em saltos fluidos
Na graça flébil da tarde
— Adeus, meninas e violas! —
Mas o goleiro alvo explode
Num fulgor que salva o gol.
Insultos, glórias, estertores,
Menino que me recusas
Tua verdade em cruzeiros...
A massa bruta se esgueira
Buscando os refúgios.
Onde andam os perdões?
A dor fugiu para as ilhas,
Enquanto a noite nega
Enfermos e agitados
Corpos, corpos, corpos.
A catedral de São Paulo
Por Deus! que nunca se acaba
— Como minha alma.
É uma catedral horrível
Feita de pedras bonitas
— Como minha alma.
A catedral de São Paulo
Nasceu da necessidade
— Como minha alma.
Sacro e profano edifício,
Tem pedras novas e antigas
— Como minha alma.
Um dia há de se acabar,
Mas depois se destruirá
— Como o meu corpo.
E a alma, memória triste,
Por sobre os homens arisca,
Sem porto.
... os que esperam, os que perdem
o motivo, os que emudecem,
os que ignoram, os que ocultam
a dor, os que desfalecem,
os que continuam, os
que duvidam... Coração,
Afirma, afirma e te abrasa
Pelas milícias do não!
Agora eu quero cantar
Uma história muito triste
Que nunca ninguém cantou,
A triste história de Pedro,
Que acabou qual principiou.
Não houve acalanto. Apenas
Um guincho fraco no quarto
Alugado. O pai falou,
Enquanto a mãe se limpava:
— É Pedro. E Pedro ficou.
Ela tinha o que fazer,
Ele inda mais, e outro nome
Ali ninguém procurou,
Não pensaram em Alcibíades,
Floriscópio, Ciro, Adrasto,
Que-dê tempo pra inventar!
— É Pedro. E Pedro ficou.
Pedrinho engatinhou logo
Mas muito tarde falou;
Ninguém falava com ele,
Quando chorava era surra
E aprendeu a emudecer.
Falou tarde, brincou pouco,
Em breve a mãe ajudou.
Nesse trabalho insuspeito
Passou o dia, e nem bem
A noite escura chegou,
Como única resposta
Um sono bruto o prostrou.
Por trás do quarto alugado
Tinha uma serra muito alta
Que Pedro nunca notou,
Mas num dia desses, não
Se sabe porque, Pedrinho
Para a serra se voltou:
— Havia de ter, decerto,
Uma vida bem mais linda
Por trás da serra, pensou.
Sineta que fere ouvido,
Vida nova anunciou;
Que medo ficar sozinho,
Sem pai, mesmo longínquo, sem
Mãe, mesmo ralhando, tanta
Piazada, ele sem ninguém...
Pedro foi para um cantinho,
Escondeu o olho e chorou.
Mas depois foi divertido,
Aliás prazer misturado,
Feito de comparação.
O menino roupa-nova
Pegava tudo o que a mestra
Dizia, ele não pegou!
Porquê!... Mas depois de muito
Custo, a coisa melhorou.
Ele gostava era da
História Natural, os
Bichos, as plantas, os pássaros,
Tudo entrava fácil na
Cabecinha mal penteada,
Tudo Pedro decorou.
Havia de saber tudo!
Se dedicar! descobrir!
Mas já estava bem grandinho
E o pai da escola o tirou.
Ah que dia desgraçado!
E quando a noite chegou,
Como única resposta
Um sono bruto o prostrou.
Por trás da escola de Pedro
Tinha uma serra bem alta
Que o menino nunca olhou;
Logo no dia seguinte
Quando a oficina parou,
Machucado, sujo, exausto,
Pedrinho a escola rondou.
E eis que de repente, não
Se sabe porque, Pedrinho
Para a serra se voltou:
— Havia de ter por certo
Outra vida bem mais linda
Por trás da serra! pensou.
Vida que foi de trabalho,
Vida que o dia espalhou,
Adeus, bela natureza,
Adeus, bichos, adeus, flores,
Tudo o rapaz, obrigado
Pela oficina, largou.
Perdeu alguns dentes e antes,
Pouco antes de fazer quinze
Anos, na boca da máquina
Um dedo Pedro deixou.
Mas depois de mês e pico
Ao trabalho ele voltou,
E quando em frente da máquina,
Pensam que teve ódio? Não!
Pedro sentiu alegria!
A máquina era ele! a máquina
Era o que a vida lhe dava!
E Pedro tudo perdoou.
Foi pensando, foi pensando,
E pensou que mais pensou,
Teve uma ideia, veio outra,
Andou falando sozinho,
Não dormiu, fez experiência,
E um ano depois, num grito,
Louca alegria de amor,
A máquina aperfeiçoou.
O patrão veio amigável
E Pedro galardoou,
Pôs ele noutro trabalho,
Subiu um pouco o ordenado:
— Aperfeiçoe esta máquina,
Caro Pedro! e se afastou.
Era um cacareco de
Máquina! e lá, bem na frente,
Bela, puxa vida! bela,
A primeira namorada
De Pedro, nas mãos dum outro,
Bela, mais bela que nunca,
Se mexendo trabalhou
O dia inteiro. Nem bem
A noite negra chegou,
O rapaz desiludido
Um sono bruto prostrou.
Por trás da fábrica havia
Uma serra bem mais baixa
Que Pedro nunca enxergou,
Porém no dia seguinte
Chegando pra trabalhar,
Não se sabe porque, Pedro
Para a serra se voltou:
— Havia de ter, decerto,
Uma vida bem mais linda
Por trás da serra, pensou.
Oh, segunda namorada,
Flor de abril! cabelo crespo,
Mão de princesa, corpinho
De vaca nova... Era vaca.
Aquele riso que faz
Que ri, nunca me enganou...
Caiu nos braços de quem?
Caiu nos braços de todos,
Caiu na vida e acabou.
Com a terceira namorada,
Na primeira roupa preta,
Pedro de preto casou.
E logo vieram os filhos,
Vieram doenças... Veio a vida
Que tudo, tudo aplainou.
Nada de horrível, não pensem,
Nenhuma desgraça ilustre
Nem dores maravilhosas,
Dessas que orgulham a gente,
Fazendo cegos vaidosos,
Tísicos excepcionais,
Ou formando Aleijadinhos,
Beethovens e heróis assim:
Pedro apenas trabalhou.
Ganhou mais, foi subindinho,
Um pão de terra comprou.
Um pão apenas, três quartos
E cozinha, num subúrbio
Que tudo dificultou.
Menos tempo, mais despesa,
Terra fraca, alguma pêra,
Emprego lá na cidade,
Escola pra filho, ofício
Pra filho, um num choque de
Trem, inválido ficou.
— Sono! único bem da vida!...
Foi essa frase sem força,
Sem História Natural,
Sem máquina, sem patente
De invenção, que por derradeiro
Pedro na vida inventou.
E quando remoendo a frase,
A noite preta chegou,
Pedro, Pedrinho, José,
Francisco, e nunca Alcibíades,
Um sono bruto anulou.
Por trás da morada nova
Não tinha serra nenhuma,
Nem morro tinha, era um plano
Devastado e sem valor,
Mas um dia desses, sempre
Igual ao que ontem passou,
Pedro, João, Manduca, não
Se sabe porque, Antônio
Para o plano se voltou:
— Talvez houvesse, quem sabe,
Uma vida bem mais calma
Além do plano, pensou.
Havia, Pedro, era a morte,
Era a noite mais escura,
Era o grande sono imenso;
Havia, desgraçado, havia
Sim, burro, idiota, besta,
Havia sim, animal,
Bicho, escravo sem história,
Só da História Natural!...
Por trás do túmulo dele
Tinha outro túmulo... Igual.
Na rua Aurora eu nasci
Na aurora da minha vida
E numa aurora cresci.
No largo do Paissandu
Sonhei, foi luta renhida,
Fiquei pobre e me vi nu.
Nesta rua Lopes Chaves
Envelheço, e envergonhado
Nem sei quem foi Lopes Chaves.
Mamãe! me dá essa lua,
Ser esquecido e ignorado
Como esses nomes da rua.
Vieste dum futuro selvagem,
Todo fera e diamante bruto,
Trazido pelo vento sul,
Vento sul.
Me perseguiste em toda a parte,
Me brutalizou teu minuto
Em Mogi, São Bernardo e Embu,
Vento sul.
Mas a devastação fraterna
Incendeia o coração puro
Em labaredas de ouro e azul,
Vento sul.
E na promessa do teu nome,
Partindo os espelhos do escuro,
Me converteste em vento sul,
Vento sul.
Moça linda bem tratada,
Três séculos de família,
Burra como uma porta:
Um amor.
Grã-fino do despudor,
Esporte, ignorância e sexo,
Burro como uma porta:
Um coió.
Mulher gordaça, filó
De ouro por todos os poros
Burra como uma porta:
Paciência...
Plutocrata sem consciência,
Nada porta, terremoto
Que a porta do pobre arromba:
Uma bomba.
Quando eu morrer quero ficar,
Não contem aos meus inimigos,
Sepultado em minha cidade,
Saudade.
Meus pés enterrem na rua Aurora,
No Paissandu deixem meu sexo,
Na Lopes Chaves a cabeça
Esqueçam.
No Pátio do Colégio afundem
O meu coração paulistano:
Um coração vivo e um defunto
Bem juntos.
Escondam no Correio o ouvido
Direito, o esquerdo nos Telégrafos,
Quero saber da vida alheia,
Sereia.
O nariz guardem nos rosais,
A língua no alto do Ipiranga
Para cantar a liberdade.
Saudade...
Os olhos lá no Jaraguá
Assistirão ao que há de vir,
O joelho na Universidade,
Saudade...
As mãos atirem por aí,
Que desvivam como viveram,
As tripas atirem pro Diabo,
Que o espírito será de Deus.
Adeus.
Num filme de B. de Mille
Eu vi pela quinta vez
A triste vida de Cristo,
Rei dos Reis.
Num mictório de São Paulo
Pouco depois li uma vez,
Sobre o desenho dum pênis,
Rei dos reis.
Num automóvel de luxo,
Sessenta vezes por mês,
Bem barbeado, bom charuto,
Rei dos reis...
Oh, vós todos, homens, homens,
Homens, o escravo sereis,
Si dentro em breve não fordes
Rei dos reis!
Entre o vidrilho das estreias dúbias,
Luisito, voas na guerra italiana...
És minuto e depois minuto, e inteiro
O corpo novo se retesa
Na contensão dos esforços finais.
Cada momento de tua vida é um fim final.
Dentro da luz do sol das mil cores,
Luisito, voas no teu avião de combate,
E és único. Tão só! Estás tão destinadamente
abandonado
Num céu de tocaia, tecido a fogo e destruição.
Cada gesto, cada vontade tua é destruição...
Pousado na terra sem sono,
Dormes envolto num cenário insatisfeito,
E tudo o que é não é: teu lar, tuas namoradas,
Teus estudos e a promessa não cumprida.
Luisito! tens um sabor de promessa falhada!
Em pleno olho sem pálpebras dás morte,
Armado de morte, cercado de morte, amante da morte,
Voas e há somente morte em ti.
Como te fizeram antigo, Luisito, que pena!
Quando voltares, si voltares, jamais te perguntarei nada,
Jamais direi, jamais direi, ficarei mudo, mudo,
Jamais siquer me perguntarei o que sinto...
Mas como te fizeram antigo, meu Luisito!
Rajadas de sinos, rajadas de bandeiras, músicas e danças:
Tudo será esquecido na alegria,
Tudo será futuro em busca do homem novo.
Mas eu sei que em tua face não culpada
Estará inscrita a lágrima que eu choro.
Ah, que ninguém nos deixe aos dois sozinhos
Neste nosso lar familial!
Quem são os dois inimigos que se cumprimentam
formalizados?
Por que escurece a sala o friúme dum rancor?
Como te fizeram antigo, meu Luisito, que pena!
Como te medalharam de passados horríveis!
Não poderei perdoar quando estiver comigo!
Não deverás perdoar pra que sejas perfeito!
A porta vai bater fechando sem adeus.
E alguém, não serei eu, não serás tu, alguém,
Alguém que se quebrou em dois irremediavelmente,
Soluçará: — Que pena...
Nunca estará sozinho.
A estação cinquentenária
Abre a paisagem ferroviária,
Graciano vem comigo.
Nunca estará sozinho.
E tanta luz formosa,
Tanto verde, tanto cor-de-rosa,
Anita vem comigo.
Nunca estará sozinho,
Artigas ali na Escola,
Sargentos, Yan? Me pede esmola
O rancor do inimigo.
Todo o Nordeste canta,
Zé Bento vem comigo,
Confissões na garganta,
Nunca estará sozinho.
A ponte das Bandeiras
Indaga das remotas
Zonas, imaturas zonas,
Meu sinal do Amazonas...
Nunca estará sozinho!
Nem há noite que o salve
Da angústia que o dissolve
Em amigos e inimigos.

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