Ir para o texto
Biblioteca

Losango Cáqui

Parada

7 de Setembro de 1922
— “Colunas de pelotões por quatro!”
O DESFILE PRINCIPIA.
O refle rombudo da soldadesca marchando
Mansamente se embainha na Avenida.
— “Olhe a conversão!”
Conversão de S. Paulo...
Todos convergem pra esquerda.
Lá está Bilac estreando a fatiota de bronze.
Pátria latejo em ti...
Meu Brasilzinho do coração!
A alma da gente drapeja no espaço cinzento.
Os mil milhões de rosas paulistanas.
Moça bonita!
Muitas moças.
Conhecidos.
— “Troque o passo!”
Gi, Taco, Maria, que lindos os três!
Máquinas cinematográficas.
My Boy.
Não posso me rir.
Olhar altivo pra frente...
Na minha frente
O cabo mais descabido deste mundo.
Rua Augusta curiosa.
Todas as ruas transversais espiando curiosas
Trepadas em trincheiras de automóveis.
Sorveteiro.
Moça bonita!
Palmas.
Grade dos escoteiros perfilados.
Cunhãs, velhas corocas debruçadas...
Brutas!
No parapeito das cabeças infantis.
As famílias dos mitras nos castelos roqueiros
Apresentam armas em négligé.
Zero uniforme.
Este cabo caminha em contratempo,
Cinco por quatro,
Tal e qual Boieldieu na Dama Branca
“Viens, gentille dame”...
Zortzico de Albeniz...
Esculhamba toda a marcha!
Moça bonita!
— “Olhe o Mário de Andrade!”
Se enganou, moça.
Onde estarei?
Ela não veio com certeza...
Que bem me importa!
Saiba a cidade de S. Paulo
Que nela vive um homem feliz!
— “Olhe a cadência!”
O TRIANON VAI PASSAR
Palmas.
O tenente gesticula com a espada
E todos olham pra direita em continência.
Músicas.
Ovação.
Trinta carinhas adoráveis.
Esta família sorocaba...
Tudo procissiona em meus olhos um-dois...
Árvores,
O preto,
Beiço vermelho tapa o resto.
Moça bonita!
Músicas.
Cornetas.
Cornacas.
Bengalós.
No alto dum palanquim
Sua Excia. o Marajá de Khajurao.
O sr. presidente do Estado não gosta de Modernismo...
Olha pra mim!
— “Fora de forma!
Quarenta dias de prisão!...”
Oh, minhas alucinações!
Moça bonita!
Palmas.
Passou o palanquim.
Serenamente continuou sua jornada
Sua Excia. o marajá de Khajurao.
E os diademas de pérolas luzentes
Nos risos das favoritas.
Toneladas de moças bonitas!
— “Viva o Brasil!”
— “Viva o Quarto Batalhão de Caçadores”!
Risos.
Sorveteiro-sorveteiro.
Acerte o passo, cabo!
Um senhor três filhas gordas.
Colares falsos,
Terra-roxa,
Guaratinguetá,
Tabatinguera,
Oblivion!
Oblivion...
Está acabando a preocupação.
Braço doi.
A Avenida escampou.
Não tem mais moça bonita.
Que dê as palmas?
Não existo.
Não marcho.
Muito longe
Nos cafundós penumbristas de Santo Amaro
O vácuo badalando badalando...
Eco dentro de mim.
Não tem mais Independência do Brasil.
Olhos defuntos.
Ninguém.
Nada.
Pra quê tanto tambor?
O braço nem doi mais.
Cheiros de almoços mayonnaises.
Sol crestado nas nuvens que nem PÃO.
Kennst du das Land
Wo die Zitronen blühen?...
Assombrações desaparecidas.
O mundo não existe.
Não existo.
Não sou.
Ciclização
Alô?...
Dava dez mil-réis por um copo de leite.

Sobre esta edição