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Remate de Males

Louvação matinal

Dezembro de 1925
É de-manhã. Se sente a fadiga boa do sono.
Porém o corpo estica, chupando com os poros abertos,
Toda a luz, todo o frescor, todo o ímpeto da manhã.
Eu fiz da minha vida sempre um rasgo matinal...
Enquanto a água rija do banho me bate no corpo
Sinto a manhã se levantando viva no país...
Sinto movendo as coxas das coxilhas lá no sul;
Adiante os colonos monótonos erguem o mate,
E na sombra fraca do carijó a brisa trabalha,
Deitando sobre a congonha o bafo sedento dela;
Nos sítios de serra-acima o Solzão dependurado,
Polido e carnudo que nem fruta de jerimum,
Despenca dos itaquás sangrentos e se esbandalha
Nas roças de milho, nas roças de arroz e nos corgos,
Afugentando a sombra funda das canhadas;
Nas terras de milagre as águas prenhes dos garimpos
Choram em cada bateia a lágrima dum diamante;
Mais pra arriba o grito pontudo do Cabugi
Achata o murmurejo religioso das juremas;
E quando lá no Amazonas as águas vadias se listram
Com os círculos dos jacarés que afundam pra descansar,
Vida de trabalho brabo, vida de todo dia.
Os gaiolas sobem lentamente o rio,
E os passarões, de pernas esticadas,
Mergulham em reta nas nuvens morenas do céu...
Tudo o que acorda na manhã do dia natural
Segue uma linha bem traçada, linha já sabida,
Aonde assusta de sopetão o prisco do imprevisto,
Ver codorna que sem querer o camarada levantou.
Possuir consciência de si mesmo isso é a felicidade,
Isso é a glória de ser, fazendo o que será.
Que a vida de cada qual seja um projeto de casa!
Seco, o projeto agride o olho da gente no papel,
Porém quando a casa se agarra no lombo da terra,
Ela se amiga num átimo com tudo o que enxerga em volta,
Se adoça, perde a solidão que tinha no projeto,
Se relaciona com a existência, um homem vive nela,
E ela brilha da força do indivíduo e o glorifica.
Deflorar a virgindade boba do que tem de vir!....
Eu nunca andei metido em sortes nem feitiçarias,
Não posso contar como é a sala das cartomantes,
E minhas mãos só foram lidas pelos beijos das amadas,
Porém sou daqueles que sabem o próprio futuro,
E quando a arraiada começa, não solto a rédea do dia,
Não deixo que siga pro acaso, livre das minhas vontades.
O meu passado... Não sei. Nem nunca matuto nele.
Quem vê na noite? o que enxerga na escureza assombrada?
O que passou, passou; nossa vaidade é tão constante,
Os preconceitos e as condescendências são tão fáceis
Que o passado da gente não é mais
Que um sono bem comprido aonde um poder de sombras lentas
Mostram que a gente sonhou. Porém não sabe o que sonhou.
Não recapitular! Nunca rememorar!
Porém num rasgo matinal, em coragem perpétua
Ir continuando o que um dia a gente determinou!
Eu trago na vontade todo o futuro traçado!
Não turtuveio mais nem gesto meu para indeciso!
Passam por mim pampeiros de ambições e de conquistas,
Chove tortura, estrala o mal, serenateia a alegria,
Futuro está gravado em pedra e não se apaga mais!
Por isso é que o imprevisto é para mim mais imprevisto
Guardo na sensação o medo ágil da infância,
Eu sei me rir! eu sei me lastimar com ingenuidade!
Nombrada da terra em força nova na manhã!
Ao pé de mim São Paulo em rosa vibra cheirando vida
O Sol abrindo o paraquedas de ouro na amplidão
E peneirando o polem do calor sobre esse mundo..,
Rangem os caminhões. Padeiro entrega o pão. O leite
Ferve no fogo. A feira grita de cor. As notícias
Correm povo no galopão folgado dos jornais.
Autoônibus bufando. Tudo bufando, abrindo asa...
A cidade mexe de vida fresca, temporã.
É a manhã! é a manhã! a glória formidável da manhã!...
Eu fiz da minha vida sempre um rasgo, uma nombrada matinal...
Isso é a felicidade.
E a minha glória.

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