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Remate de Males

Amar sem ser amado, ora pinhões!

Esperemos neste lugar.
Não sou nenhum conde do papa,
Só mesmo de Anto serei conde...
Sou poeta da viação barata,
Mario, pague os duzentos réis...
Siga, chofer. Espero o bonde.
Cachorro. Trilhos nobres. Moças.
Moças, não. Mulheres perdidas
No oiro, distinga-se, sinão
Perde o sal a comparação
Com que saudei essas amigas:
— Grandes auroras promissoras!
Tenho jeito pra gigolô...
E, por falar de aurora, enfim
Me dá São Paulo uma tardinha
De que o poeta Gonçalves Dias
Si tivesse alguma saudade,
Tinha razão. Que nem rubi
De puro oriente, no ocidente
O Solão despenca do mármore
Dum céu elegante, na estica.
Esta folha no meu chapéu...
Em mim, talqual num tronco de árvore,
Trepa um ventinho piricica.
Me perdi pelas sensações.
Não sou eu, sou eus em farrancho,
E vem lavar minha retina,
Em maretas de poeira fina
Todas as coisas tamisando,
O Tamisa das ilusões.
Me dissolvo por essas águas!
E na vista submarina,
Renovo o milagre cristão
Com a minha multiplicação:
Sou a festança desta vida!
Peixes! Torpedos... bondes... casas...
Cavam a terra no jardim.
É no meu peito. Como um ólio,
Me esparramo pela cidade,
E as coisas, nessa intimidade,
São um dilúvio de olhos, olhos
Meus, assuntados sobre mim.
Tudo se funde em minha vista.
Estou alegre. Coisa estranha,
Não sinto o bem, sorrio ao mal...
Será a inconsciência transcendental
Que enche a boca de Graça Aranha?
Todo Infinito! ôh farra! ôh Lapa!
Não sei não. Porém, ver um Zeus,
Conhecem? Zeus de casimira,
Meio suado, vou no universo
Buscando o meu fogo disperso
Que pelas coisas girogira,
Roubado pelos Prometeus.
As sacudidelas do bonde,
Na minha frente rósea chama
Crepita, ôh pescoço! Um ardor
Principiante, consolador,
Zeus (Zeus sou eu) gemendo chama:
— Fogo, onde estás, aonde? aonde?
É isso! Rapazes, encontrei
O fogaréu maravilhoso
Que foi, que é meu, que será sempre
Meu! Relumeia à minha frente,
E devora num instantinho
As minhas paus Táboas da Lei.
Moralidade, lei seca, vá-se
Embora! Vá por Seca e Meca!
Darei Seca, Meca e Baía
Por mais este amor, sim, mais um,
Porque enfim é amante de poeta
Toda e qualquer mulher que passe!
Êxtase! Desejo! Loucura!
Quase dolorosa surpresa!
Espanto de não ser mais só!
E a gente imagina que é o pó
Que sufoca e, vai, com aspereza
Bota a culpa na Prefeitura.
Minha paixão de sopetão!
Já nem posso mais respirar!
Que pescoço! que braços! quê!...
Bom... olhemos a natureza.
O céu se encurva sobre o chão
Num gesto forte de abraçar.
Te amo!... Que bonita que ela é!...
Trago comigo o cheiro dela,
Só penso nela!... Infelizmente
O meu caso não tem futuro,
Ai, Maria do perfil duro,
Ai, Maria sempre presente!...
Que friúme em minha tristeza...
Rapazes! a minha alegria,
A minha alegria está presa
Num perfil duro de mulher!
Ela me olha tão fria, fria...
Ora! verifiquemos como
Rictus: “Merde! voilà l’hiver.”
Poeta, sossegue, ela é casada...
Pois sim. Pensemos noutra coisa.
No que será?... Negro de suéter,
Que engraçado!... mas... que tristeza!
Esta vida não vale nada!...
Vou cantar a Louvação do Éter!
Vaga hipótese sem perigo!
Hangar da nossa segurança!
Luz de Einstein et caterva! Prova
Dos nove da sabença humana!
Deus, que a cosmogonia nova
Nunca viu, mas conta contigo!
Obra-prima do nosso Amigo!
De alguma entocaiada parte
Aonde a ciência não entrou,
Me dás a honra de ser, e eu sou,
Por tuas artes, Malazarte,
Vaga hipótese sem perigo...
Tudo isto há de passar, Maria,
Durma em sossego. O meu respeito
Sempre há de respeitar você.
Eu não aguento mais meu peito!
Mas jamais não aceitaria
Arranjos como o de Musset!
Durma sem medo, sossegada.
Você não vai prá sala grande,
Tem sala à parte em meu harém.
Vista o pijama dos meus olhos,
E descanse sobre o meu sonho
Que nunca fez pra ninguém!
Eu velarei a corajosa
Dormindo sobre a dinamite...
Fumos... Assombrações... Não te
Largo mais, Iara do Tietê!...
Ao menos até que fareje
Alguma paixonite nova...
É o fim. Lá fora dormirá
Pauliceia. Paz. Quase informe,
Ela dorme, dorme sorrindo,
Enquanto gemo o verso lindo
Com que as índias parecis dormem...
Uirô mococê cê-macá...

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