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Versos e Versões

Job

Quem vai passando, sinta
Nojo embora, ali para. Ao princípio era um só;
Depois dez, vinte, trinta
Mulheres e homens... tudo a contemplar o Job.
Qual fixa-o boquiaberto;
Qual a distância o vê; qual se aproxima, altivo,
Para olhar mais de perto
Esse pântano humano, esse monturo vivo.
Grossa turba o rodeia...
E o que mais horroriza é vê-lo a mendigar,
E ninguém ter a ideia
De um só vintém às mãos roídas lhe atirar;
Não é ver que a indigência
Transforma-o em pasto já de vermes; e lhe impera,
Na imunda florescência
Do corpo, a podridão em plena primavera;
Nem ver sobre ele, em bando,
Os moscardos cruéis de ríspidos ferrões,
Incômodos, cantando
A música feral das decomposições;
Nem ver que, entre os destroços
De seus membros, a Morte, em blasfêmias e pragas,
Descarnando-lhe os ossos,
Os dentes mostra a rir, pelas bocas das chagas;
Nem ver que só o escasso
Roto andrajo, que a lepra horrível, que lhe prui,
Mal encobre, e o pedaço
De telha, com que a raspa, o mísero possui;
Nem do vento às rajadas
Ver-lhe os farrapos vis da roupa flutuante,
Voando—desfraldadas
Bandeiras da miséria imensa e triunfante;
Nem ver... Job agoniza!
Embora; isso não é o que horroriza mais.
—O que mais horroriza
São a falsa piedade, os fementidos ais;
São os consolos fúteis
Da turba que o rodeia, e as palavras fingidas,
Mais baixas, mais inúteis
Do que a língua dos cães, que lambem-lhe as feridas:
Da turba que se, odienta,
Com a pata brutal do seu orgulho vão
Não nos magoa, inventa,
Para nos magoar, a sua compaixão!
Se há, entre a luz e a treva,
Um termo médio, e em tudo há um ponto mediano,
É triste, que não deva
Haver isso também no coração humano!
Por que n'alma não há de
Um meio termo haver d'essa gente também,
Entre a inveja e a piedade?
Pois tem piedade só, quando inveja não tem!
Junho, 85.

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