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Confissões — Livro Livro I

Livro I

I.1 Grande és tu, Senhor, e sumamente digno de louvor; grande é o teu poder, e a tua sabedoria não tem número. E quer louvar-te o homem, uma pequena parte da tua criação; o homem que anda carregando a sua mortalidade, carregando o testemunho do seu pecado e o testemunho de que resistes aos soberbos; e, no entanto, quer louvar-te o homem, uma pequena parte da tua criação. Tu o despertas para que louvar-te seja o seu deleite, porque nos fizeste para ti, e inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em ti. Concede-me, Senhor, saber e entender se o primeiro é invocar-te ou louvar-te, e se o primeiro é conhecer-te ou invocar-te. Mas quem te invoca sem te conhecer? Pois quem não conhece poderia invocar uma coisa por outra. Ou antes és invocado para seres conhecido? Mas como invocarão aquele em quem não creram? Ou como crerão sem quem pregue? E louvarão o Senhor os que o buscam: pois os que o buscam o acham, e os que o acham o louvarão. Que eu te busque, Senhor, invocando-te, e te invoque crendo em ti: pois foste pregado a nós. Invoca-te, Senhor, a minha fé, que tu me deste, que me inspiraste pela humanidade do teu Filho, pelo ministério do teu pregador.

II.2 E como invocarei o meu Deus, o meu Deus e Senhor, se, quando o invocar, é para dentro de mim mesmo, sem dúvida, que o chamarei? E que lugar há em mim aonde venha a mim o meu Deus, aonde venha a mim Deus, o Deus que fez o céu e a terra? É assim, Senhor meu Deus? Há em mim alguma coisa capaz de te conter? Ou será que o céu e a terra, que fizeste e nos quais me fizeste, te contêm? Ou, porque sem ti não existiria nada do que existe, acontece que tudo o que existe te contém? Se, pois, também eu existo, por que peço que venhas a mim, eu que não existiria se não estivesses em mim? Pois eu ainda não estou nos infernos, e, no entanto, também lá estás tu; pois, ainda que eu desça ao inferno, lá estás. Eu não existiria, portanto, meu Deus, não existiria de modo nenhum, se não estivesses em mim. Ou antes, não existiria se não estivesse em ti, de quem são todas as coisas, por quem são todas as coisas, em quem são todas as coisas? Assim é, Senhor, assim é. Para onde te chamo, se estou em ti? Ou de onde virias a mim? Pois para onde me retiraria, fora do céu e da terra, para que de lá viesse a mim o meu Deus, que disse: “Eu encho o céu e a terra”?

III.3 Contêm-te, então, o céu e a terra, já que tu os enches? Ou tu os enches e sobra, já que não te contêm? E para onde derramas o que sobra de ti, depois de cheios o céu e a terra? Ou não tens necessidade de ser contido em parte alguma, tu que conténs todas as coisas, porque as que enches, enches contendo-as? Pois não são os vasos cheios de ti que te dão estabilidade, porque, ainda que se quebrem, tu não te derramas. E, quando te derramas sobre nós, não és tu que jazes por terra, mas nos levantas; nem és tu que te dispersas, mas nos recolhes. Mas tudo o que enches, é com todo o teu ser que o enches. Ou, porque todas as coisas não te podem conter inteiro, contêm uma parte de ti, e todas ao mesmo tempo contêm a mesma parte? Ou cada coisa contém a sua parte, as maiores, maiores, as menores, menores? Há, então, uma parte tua maior, e outra menor? Ou estás inteiro em toda parte, e nenhuma coisa te contém inteiro?

IV.4 Que és, então, meu Deus? Que és, pergunto, senão o Senhor Deus? Pois quem é Senhor além do Senhor? Ou quem é Deus além do nosso Deus? Sumo, ótimo, potentíssimo, onipotentíssimo, misericordiosíssimo e justíssimo, secretíssimo e presentíssimo, belíssimo e fortíssimo, estável e incompreensível, imutável que tudo mudas, nunca novo, nunca velho, que tudo renovas e levas à velhice os soberbos, e eles não o sabem; sempre agindo, sempre em repouso, recolhendo sem carecer, sustentando, enchendo e protegendo, criando, nutrindo e aperfeiçoando, buscando, embora nada te falte. Amas e não ardes, tens zelos e estás sem cuidado, arrependes-te e não sofres, iras-te e estás tranquilo, mudas as obras e não mudas o desígnio; recolhes o que achas e nunca perdeste; nunca necessitado, e te alegras com os ganhos; nunca avaro, e exiges juros; dão-te além do devido, para que fiques devedor: e quem tem alguma coisa que não seja tua? Pagas dívidas sem dever a ninguém, perdoas dívidas sem nada perder. E que dissemos nós, meu Deus, minha vida, minha santa doçura? Ou que diz alguém quando fala de ti? E ai dos que se calam a teu respeito, porque, falando muito, são mudos.

V.5 Quem me dará repousar em ti? Quem me dará que venhas ao meu coração e o embriagues, para que eu esqueça os meus males e abrace o meu único bem, a ti? Que és tu para mim? Tem compaixão, para que eu fale. Que sou eu mesmo para ti, que me ordenas que te ame e, se não o faço, te iras contra mim e me ameaças com imensas misérias? É pequena, por si mesma, a miséria de eu não te amar? Ai de mim! Dize-me, pelas tuas misericórdias, Senhor meu Deus, o que és para mim. Dize à minha alma: “Eu sou a tua salvação.” Dize-o de modo que eu ouça. Eis diante de ti, Senhor, os ouvidos do meu coração: abre-os e dize à minha alma: “Eu sou a tua salvação.” Correrei atrás dessa voz e te alcançarei. Não escondas de mim a tua face: que eu morra, para não morrer, a fim de vê-la.

V.6 Estreita é a casa da minha alma para que venhas a ela: alarga-a tu. Está em ruínas: restaura-a. Tem coisas que ofendem os teus olhos: confesso-o e sei-o. Mas quem a purificará? Ou a quem mais, senão a ti, clamarei: “Purifica-me, Senhor, das minhas faltas ocultas, e das alheias poupa o teu servo”? Creio, e por isso falo, Senhor: tu o sabes. Não te declarei, contra mim mesmo, os meus delitos, meu Deus, e tu perdoaste a impiedade do meu coração? Não pleiteio em juízo contigo, que és a verdade; e eu não quero enganar a mim mesmo, para que a minha iniquidade não minta a si mesma. Não pleiteio, pois, em juízo contigo, porque, se observares as iniquidades, Senhor, Senhor, quem subsistirá?

VI.7 Mas, ainda assim, deixa-me falar diante da tua misericórdia, a mim, terra e cinza; deixa-me, ainda assim, falar. Pois eis que é à tua misericórdia, e não a um homem que zomba de mim, que eu falo. E também tu, talvez, zombas de mim; mas, voltando-te, terás compaixão de mim. Pois que é o que eu quero dizer, Senhor, senão que não sei de onde vim para aqui, para esta, digo eu, vida mortal, ou morte vital? Não sei. E acolheram-me as consolações das tuas misericórdias, como ouvi dos pais da minha carne, daquele de quem e daquela em quem me formaste no tempo; pois eu não me lembro. Receberam-me, pois, as consolações do leite humano; e não eram minha mãe nem minhas amas que enchiam para si os seios, mas eras tu que, por meio delas, me davas o alimento da infância, segundo a tua ordenação e as riquezas que dispuseste até o fundo das coisas. Tu me davas também não querer mais do que me davas, e às que me nutriam davas querer dar-me o que lhes davas: pois, por um afeto ordenado, queriam dar-me aquilo de que, por ti, tinham abundância. Pois era um bem para elas o bem que me vinha delas, e que não vinha delas, mas por meio delas. De ti, com efeito, vêm todos os bens, ó Deus, e do meu Deus vem toda a minha salvação. Isso eu o percebi mais tarde, quando me clamavas por meio dessas mesmas coisas que concedes por dentro e por fora. Pois então eu sabia mamar e aquietar-me nos deleites, e chorar os incômodos da minha carne; nada mais.

VI.8 Depois comecei também a sorrir, primeiro dormindo, depois acordado. Isso me foi contado de mim, e eu o acreditei, porque assim vemos fazer as outras criancinhas; pois dessas coisas minhas não me lembro. E eis que, pouco a pouco, eu percebia onde estava, e queria mostrar as minhas vontades àqueles por quem pudessem ser satisfeitas, e não podia, porque elas estavam dentro, e eles fora, e por nenhum dos seus sentidos conseguiam entrar na minha alma. Por isso agitava os membros e soltava vozes, sinais semelhantes às minhas vontades, os poucos que podia, tais como podia; pois não eram verdadeiramente semelhantes. E, quando não me obedeciam, ou por não me entenderem, ou para que a coisa não me fizesse mal, indignava-me com os mais velhos, que não se sujeitavam a mim, e com os que eram livres, que não me serviam, e vingava-me deles chorando. Que assim são as criancinhas, aprendi-o das que pude conhecer; e que assim fui eu, mostraram-me mais as criancinhas, sem o saberem, do que, sabendo-o, os que me criaram.

VI.9 E eis que a minha infância morreu há muito, e eu vivo. Mas tu, Senhor, que sempre vives e em quem nada morre, porque antes do princípio dos séculos, e antes de tudo o que ainda se possa chamar “antes”, tu és, e és Deus e Senhor de todas as coisas que criaste, e em ti permanecem estáveis as causas de todas as coisas instáveis, e ficam imutáveis as origens de todas as coisas mutáveis, e vivem sempiternas as razões de todas as coisas irracionais e temporais: dize a este teu suplicante, ó Deus, e, misericordioso, dize a este teu mísero, se a minha infância sucedeu a alguma outra idade minha já morta. Seria aquela que passei nas entranhas de minha mãe? Pois também dela me foi contada alguma coisa, e eu mesmo vi mulheres grávidas. E antes dela, que houve, minha doçura, meu Deus? Estive em algum lugar, ou fui alguém? Pois não tenho quem me diga essas coisas: nem pai nem mãe o puderam, nem a experiência dos outros, nem a minha memória. Ou zombas de mim, que pergunto tais coisas, e me ordenas que te louve e me confesse a ti por aquilo que conheço?

VI.10 Confesso-te, Senhor do céu e da terra, e digo-te louvor pelos meus princípios e pela minha infância, de que não me lembro. E deste ao homem conjecturar de si mesmo pelos outros, e crer muitas coisas de si pela autoridade até de umas mulherzinhas. Pois eu já existia e vivia também então, e já no fim da infância procurava sinais com que dar a conhecer aos outros o que sentia. De onde vem tal ser vivo, senão de ti, Senhor? Ou haverá alguém que seja artífice de si mesmo? Ou se tira de outra parte algum veio por onde o ser e o viver corram para nós, fora o fato de que tu nos fazes, Senhor, tu, para quem ser e viver não são uma coisa e outra, porque ser em sumo grau e viver em sumo grau são o mesmo? Pois és sumo e não mudas, e não se cumpre em ti o dia de hoje, e, no entanto, em ti se cumpre, porque em ti estão também todas essas coisas: não teriam caminhos por onde passar, se tu não os contivesses. E, porque os teus anos não acabam, os teus anos são o dia de hoje. E quantos dias nossos e de nossos pais já passaram pelo teu hoje, e dele receberam as suas medidas, e de algum modo existiram; e passarão ainda outros, e receberão, e de algum modo existirão. Mas tu és sempre o mesmo, e tudo o que é de amanhã e de mais adiante, e tudo o que é de ontem e de mais atrás, hoje o farás, hoje o fizeste. Que me importa, se alguém não entende? Alegre-se também ele, dizendo: “Que é isto?” Alegre-se mesmo assim, e ame mais achar-te não achando do que, achando, não te achar.

VII.11 Ouve, ó Deus. Ai dos pecados dos homens! E é um homem que diz isto, e tu te compadeces dele, porque tu o fizeste, e o pecado não o fizeste nele. Quem me faz lembrar o pecado da minha infância? Pois ninguém está limpo de pecado diante de ti, nem a criança cuja vida sobre a terra é de um só dia. Quem me faz lembrar? Acaso qualquer pequenino de agora, tão pequeno assim, em quem vejo o que não recordo de mim? Em que pecava eu, então? Seria porque, chorando, me lançava de boca aberta aos seios? Pois, se agora o fizesse, lançando-me assim de boca aberta, não aos seios, decerto, mas ao alimento próprio dos meus anos, seria escarnecido e repreendido com toda a justiça. Então, pois, eu fazia coisas repreensíveis; mas, como não podia entender quem me repreendesse, nem o costume nem a razão permitiam que me repreendessem; pois, quando crescemos, arrancamos e lançamos fora essas coisas. E nunca vi ninguém que, sabendo o que faz, ao limpar alguma coisa, jogue fora o que é bom. Ou seriam boas, para aquele tempo, também estas coisas: pedir chorando até o que lhe seria dado para o seu mal; indignar-se asperamente contra homens livres e mais velhos que não se lhe sujeitam; e, contra aqueles mesmos que o geraram, e contra muitos outros mais sensatos, que não obedecem ao aceno da sua vontade, esforçar-se por ferir e fazer mal quanto pode, porque não se obedece a ordens a que só se obedeceria para a sua perdição? Assim, inocente é a fraqueza dos membros infantis, não o espírito das crianças. Eu vi e conheci por experiência um pequenino tomado de ciúme: ainda não falava, e já olhava, pálido, com olhar amargo, o seu irmão de leite. Quem não sabe disso? As mães e as amas dizem que esconjuram essas coisas com não sei que remédios. A não ser que seja também inocência não suportar, junto a uma fonte de leite que corre farta e abundante, que a partilhe um companheiro tão necessitado de socorro, e que só desse alimento tira ainda a vida. Mas toleram-se com brandura essas coisas, não porque sejam nada ou pouca coisa, mas porque hão de desaparecer com o avanço da idade. E isso se pode comprovar: essas mesmas coisas não se suportam com paciência quando surpreendidas em alguém de mais idade.

VII.12 Tu, pois, Senhor meu Deus, que deste à criança a vida e o corpo, corpo que, como vemos, assim proveste de sentidos, compuseste de membros, ornaste de forma, e no qual, para a sua inteireza e conservação, infundiste todos os impulsos de um ser vivo, tu me ordenas que te louve por estas coisas, e te confesse, e cante salmos ao teu nome, ó Altíssimo; porque és Deus onipotente e bom, ainda que só isto tivesses feito, o que ninguém mais pode fazer senão tu, ó uno, de quem vem toda medida, ó formosíssimo, que formas todas as coisas e com a tua lei ordenas todas as coisas. Esta idade, pois, Senhor, que não me lembro de ter vivido, acerca da qual acreditei nos outros, e que conjecturei ter passado pelo que vi em outras crianças, ainda que essa conjectura seja muito digna de fé, custa-me contá-la nesta minha vida que vivo neste século. Pois, no que toca às trevas do meu esquecimento, é igual àquela que vivi no ventre de minha mãe. E, se fui concebido na iniquidade, e nos pecados minha mãe me nutriu no ventre, onde, eu te peço, meu Deus, onde, Senhor, eu, teu servo, onde ou quando fui inocente? Mas eis que deixo de lado aquele tempo: e que tenho eu já com ele, se dele não recordo vestígio nenhum?

VIII.13 Não foi, avançando desde a infância para cá, que cheguei à meninice? Ou antes foi ela que veio a mim e sucedeu à infância? E aquela não se retirou: pois para onde foi? E, no entanto, já não existia. Pois eu já não era a criança sem fala, mas era já um menino que falava. E disso me lembro; e de onde aprendera a falar, percebi depois. Pois não eram os mais velhos que me ensinavam, apresentando-me as palavras numa ordem certa de ensino, como pouco depois as letras; mas eu mesmo, com a mente que me deste, meu Deus, quando queria, com gemidos e vozes várias e vários movimentos dos membros, exprimir os sentimentos do meu coração, para que obedecessem à minha vontade, e não conseguia exprimir tudo o que queria, nem a todos a quem queria, agarrava-as com a memória. Quando eles nomeavam alguma coisa e, conforme aquela palavra, moviam o corpo em direção a algo, eu via e retinha que aquela coisa era chamada por eles pelo som que proferiam quando a queriam mostrar. E que isso queriam, revelava-se pelo movimento do corpo, como que pelas palavras naturais de todos os povos, que se fazem com o rosto e o aceno dos olhos, com o gesto dos outros membros e com o som da voz, que indica a afeição da alma ao pedir, possuir, rejeitar ou evitar as coisas. Assim, as palavras postas em seus lugares em frases diversas, e muitas vezes ouvidas, eu ia aos poucos coligindo de que coisas eram sinais; e, domada já a boca para esses sinais, por meio deles exprimia as minhas vontades. Assim troquei com aqueles entre os quais vivia os sinais para exprimir as vontades, e entrei mais a fundo na tempestuosa convivência da vida humana, pendente da autoridade dos pais e do aceno dos mais velhos.

IX.14 Ó Deus, meu Deus, que misérias ali experimentei, e que zombarias, quando a mim, menino, se propunha como viver retamente obedecer aos que me exortavam a florescer neste século e a sobressair nas artes palavrosas, servas da honra dos homens e das falsas riquezas! Depois fui posto na escola para aprender as letras, e eu, coitado, ignorava que utilidade tinham. E, no entanto, se era preguiçoso em aprender, apanhava. Pois isso era louvado pelos mais velhos; e muitos que levaram esta vida antes de nós tinham aberto de antemão caminhos penosos, pelos quais éramos obrigados a passar, multiplicados o trabalho e a dor para os filhos de Adão. Encontramos, porém, Senhor, homens que te rogavam, e com eles aprendemos a sentir, como podíamos, que tu eras alguém grande, que podias, mesmo sem aparecer aos nossos sentidos, ouvir-nos e socorrer-nos. Pois, ainda menino, comecei a rogar-te, meu auxílio e meu refúgio, e, para te invocar, rompia os nós da minha língua, e rogava-te, pequeno, com afeto não pequeno, que não apanhasse na escola. E, quando não me ouvias, o que não era para a minha insensatez, os mais velhos, e até os meus próprios pais, que não queriam que nenhum mal me acontecesse, riam-se das minhas pancadas, que eram então o meu grande e grave mal.

IX.15 Haverá, Senhor, alma tão grande, unida a ti por um afeto tão imenso, haverá, digo, alguém (pois também certa estupidez produz isso: há, portanto, alguém), que, unido piedosamente a ti, esteja tão grandiosamente disposto que tenha em tão pouca conta os cavaletes, as unhas de ferro e outros tormentos semelhantes (para escapar dos quais se te suplica com grande temor por todas as terras), amando os que os temem acerbissimamente, como os nossos pais riam dos tormentos com que nós, meninos, éramos afligidos pelos mestres? Pois nem os temíamos menos, nem menos te suplicávamos que nos livrasses deles; e, no entanto, pecávamos, escrevendo, lendo ou estudando as letras menos do que se exigia de nós. Pois não nos faltava, Senhor, memória ou engenho, que quiseste que tivéssemos bastante para aquela idade; mas gostávamos de brincar, e éramos castigados por quem, afinal, fazia coisas semelhantes. Mas as ninharias dos grandes chamam-se negócios; as dos meninos, sendo da mesma espécie, são punidas pelos grandes; e ninguém se compadece dos meninos, nem dos grandes, nem de uns e outros. A não ser que algum bom juiz das coisas aprove que eu apanhasse porque, menino, jogava bola, e com esse jogo me atrasava em aprender as letras com que, já grande, havia de jogar um jogo mais feio. Ou fazia outra coisa aquele mesmo que me batia, o qual, se em alguma questiúncula era vencido por um colega de magistério, se torcia de bílis e de inveja mais do que eu, quando numa partida de bola era superado pelo meu companheiro de jogo?

X.16 E, no entanto, eu pecava, Senhor Deus, ordenador e criador de todas as coisas da natureza, mas dos pecados só ordenador; Senhor meu Deus, eu pecava agindo contra os preceitos dos pais e daqueles mestres. Pois depois podia usar bem das letras que os meus queriam que eu aprendesse, com qualquer intenção que fosse. Pois eu não era desobediente por escolher coisas melhores, mas por amor ao jogo, amando nas competições as vitórias soberbas, e ter os ouvidos coçados por falsas historietas, para que comichassem mais ardentemente, enquanto a mesma curiosidade faiscava cada vez mais pelos olhos em direção aos espetáculos, os jogos dos grandes — e os que os oferecem, no entanto, sobressaem revestidos de tal dignidade que quase todos a desejam para os seus pequenos, e contudo consentem de bom grado que eles apanhem, se tais espetáculos os afastam do estudo pelo qual desejam que cheguem a oferecê-los. Vê estas coisas, Senhor, com misericórdia, e livra-nos a nós, que já te invocamos; livra também os que ainda não te invocam, para que te invoquem e tu os livres.

XI.17 Pois eu, ainda menino, ouvira falar da vida eterna que nos foi prometida pela humildade do Senhor nosso Deus, que desceu até a nossa soberba; e já era assinalado com o sinal da sua cruz e temperado com o seu sal já desde o ventre de minha mãe, que muito esperou em ti. Tu viste, Senhor, quando eu ainda era menino e, certo dia, por uma opressão do estômago, de repente ardi em febre, quase à morte, tu viste, meu Deus, porque já eras o meu guarda, com que ímpeto da alma e com que fé reclamei o batismo do teu Cristo, meu Deus e Senhor, à piedade de minha mãe e da mãe de todos nós, a tua Igreja. E a mãe da minha carne, perturbada, porque também a minha salvação eterna ela a dava à luz com mais amor, em seu coração casto, na tua fé, já cuidava, apressada, de que eu fosse iniciado nos sacramentos da salvação e lavado, confessando-te a ti, Senhor Jesus, para a remissão dos pecados, se eu não me tivesse restabelecido logo. Foi, pois, adiada a minha purificação, como se fosse necessário que eu me sujasse ainda, se vivesse, porque, naturalmente, depois daquele banho, seria maior e mais perigosa a culpa nas imundícies dos delitos. Assim, eu já cria, e ela e toda a casa, exceto só o meu pai, que, no entanto, não venceu em mim o direito da piedade materna, a ponto de impedir que eu cresse em Cristo, como ele ainda não cria. Pois ela se esforçava para que tu fosses meu pai, meu Deus, mais do que ele; e nisso a ajudavas, para que vencesse o marido, a quem ela, sendo melhor, servia, porque também nisso servia a ti, que certamente assim o ordenas.

XI.18 Peço-te, meu Deus: queria saber, se também tu o quisesses, com que desígnio fui adiado, para não ser batizado então; se foi para o meu bem que se me afrouxaram, por assim dizer, as rédeas para pecar. Ou não foram afrouxadas? De onde vem, então, que ainda hoje, de uns e de outros, soa de todos os lados aos nossos ouvidos: “Deixa-o, que faça; ainda não foi batizado”? E, no entanto, quando se trata da saúde do corpo, não dizemos: “Deixa que seja ainda mais ferido; ainda não foi curado.” Quanto melhor, então, teria sido que eu fosse logo curado, e que, pela diligência dos meus e pela minha, se fizesse comigo de modo que a salvação recebida pela minha alma ficasse a salvo sob a tua salvaguarda, tu que a terias dado! Melhor, de fato. Mas quantas e quão grandes vagas de tentações pareciam ameaçar depois da meninice, aquela mãe já as conhecia, e preferia entregar a elas a terra de que depois eu havia de ser formado, a entregar-lhes a própria imagem já formada.

XII.19 Na própria meninice, porém, pela qual se temia por mim menos do que pela adolescência, eu não amava as letras e odiava que me forçassem a elas; e, no entanto, era forçado, e o bem me era feito. Nem eu fazia bem (pois não aprenderia se não me obrigassem; e ninguém faz bem contra a vontade, ainda que seja bom o que faz), nem faziam bem os que me forçavam; mas o bem me era feito por ti, meu Deus. Pois eles não olhavam a que fim eu aplicaria o que me obrigavam a aprender, senão a saciar os desejos insaciáveis de uma opulenta indigência e de uma glória ignominiosa. Tu, porém, para quem estão contados os nossos cabelos, do erro de todos os que me pressionavam a aprender te servias para meu proveito, e do meu, que não queria aprender, te servias para meu castigo, do qual não era indigno, tão pequeno menino e tão grande pecador. Assim, por meio dos que não faziam bem, tu me fazias bem, e por meio de mim mesmo, que pecava, justamente me retribuías. Pois tu o ordenaste, e assim é: que todo espírito desordenado seja para si mesmo o seu castigo.

XIII.20 Mas qual era a causa de eu odiar as letras gregas, nas quais, ainda pequenino, era instruído? Nem agora o tenho bem averiguado. Pois tinha amado muito as latinas, não as que ensinam os primeiros mestres, mas as que ensinam os chamados gramáticos. Porque aquelas primeiras, em que se aprende a ler, escrever e contar, não as tinha por menos pesadas e penosas que todas as gregas. Mas de onde vinha também isto, senão do pecado e da vaidade da vida, pela qual eu era carne e sopro que vai e não volta? Pois sem dúvida melhores, porque mais seguras, eram aquelas primeiras letras, pelas quais se fazia em mim, e se fez, e tenho, o poder de ler o que encontro escrito e de escrever eu mesmo o que quero, do que aquelas pelas quais era obrigado a reter as errâncias de não sei que Eneias, esquecido das minhas próprias errâncias, e a chorar Dido morta, porque se matou por amor, enquanto, no meio disso, morrendo longe de ti, ó Deus, minha vida, eu suportava a mim mesmo, misérrimo, de olhos enxutos.

XIII.21 Pois que há de mais mísero que um mísero sem misericórdia de si mesmo, que chora a morte de Dido, que lhe veio por amar Eneias, e não chora a sua própria morte, que lhe vinha por não te amar a ti, ó Deus, luz do meu coração, e pão da boca interior da minha alma, e força que desposa a minha mente e o seio do meu pensamento? Eu não te amava, e fornicava longe de ti, e ao fornicador ressoava de todos os lados: “Muito bem! Muito bem!” Pois a amizade deste mundo é fornicação longe de ti, e “Muito bem! Muito bem!” se diz para que o homem se envergonhe, se não for assim. E isto eu não chorava, e chorava Dido, “morta, e que, a golpe de ferro, seguiu os extremos”, eu que seguia os extremos das tuas criaturas, abandonando-te a ti, terra que ia para a terra. E, se me proibissem de ler essas coisas, eu sofreria por não ler o que me fazia sofrer. Com tal demência se julgam essas letras mais nobres e mais ricas do que aquelas com que aprendi a ler e a escrever.

XIII.22 Mas agora clame na minha alma o meu Deus, e a tua verdade me diga: “Não é assim, não é assim.” Melhor é, sem dúvida, aquele primeiro ensino. Pois eis que estou mais pronto a esquecer as errâncias de Eneias e tudo o que é desse gênero do que a escrever e a ler. É verdade que pendem cortinas à entrada das escolas dos gramáticos; mas elas não significam tanto a honra de um mistério quanto o encobrimento do erro. Não gritem contra mim aqueles que já não temo, enquanto te confesso o que a minha alma quer, meu Deus, e repouso na reprovação dos meus maus caminhos, para que ame os teus bons caminhos; não gritem contra mim os vendedores ou os compradores de gramática; porque, se eu lhes propuser a pergunta se é verdade o que diz o poeta, que Eneias veio um dia a Cartago, os menos doutos responderão que não sabem, e os mais doutos dirão até que não é verdade. Mas, se eu perguntar com que letras se escreve o nome de Eneias, todos os que aprenderam isto me respondem a verdade, segundo o pacto e a convenção com que os homens fixaram entre si esses sinais. Do mesmo modo, se eu perguntar qual destas coisas cada um esqueceria com maior dano para esta vida, ler e escrever, ou aquelas ficções poéticas, quem não vê o que há de responder quem não se esqueceu inteiramente de si mesmo? Pecava, pois, em menino, quando preferia no meu amor aquelas vaidades a estas coisas mais úteis, ou, antes, quando odiava estas e amava aquelas. E, então, “um e um, dois; dois e dois, quatro” era para mim uma cantilena odiosa; e dulcíssimo espetáculo da vaidade, o cavalo de madeira cheio de homens armados, e o incêndio de Troia, e “a sombra da própria Creúsa”.

XIV.23 Por que, então, odiava eu também a gramática grega, que canta coisas semelhantes? Pois também Homero é perito em tecer tais historietas, e dulcissimamente vão; e, no entanto, a mim, menino, era amargo. Creio que também para os meninos gregos assim seja Virgílio, quando são obrigados a aprendê-lo como eu a ele. Era, sem dúvida, a dificuldade, a dificuldade de aprender a fundo uma língua estrangeira, que como que espargia de fel todas as suavidades gregas das narrações fabulosas. Pois eu não conhecia nenhuma daquelas palavras, e, para que as conhecesse, me apertavam com veemência, com cruéis terrores e castigos. Pois também das latinas, quando criança, decerto não conhecia nenhuma, e, no entanto, prestando atenção, aprendi-as sem medo nem tormento algum, entre os afagos das amas, os gracejos dos que me sorriam e as alegrias dos que brincavam comigo. Aprendi-as, sim, sem o peso penoso dos que nos apertam, quando me apertava o meu coração a dar à luz o que concebera, o que não teria sido possível se eu não tivesse aprendido algumas palavras, não dos que ensinam, mas dos que falam, a cujos ouvidos também eu dava à luz tudo o que sentia. Daí se vê bem claro que, para aprender estas coisas, tem mais força a curiosidade livre do que a necessidade medrosa. Mas o fluxo daquela é refreado por esta, segundo as tuas leis, ó Deus, as tuas leis, desde as férulas dos mestres até as provações dos mártires; as tuas leis, que sabem misturar amarguras salutares, que nos chamam de volta a ti, da deleitação pestífera pela qual nos afastamos de ti.

XV.24 Ouve, Senhor, a minha súplica, para que a minha alma não desfaleça sob a tua disciplina, nem eu desfaleça em confessar-te as tuas misericórdias, pelas quais me arrancaste de todos os meus péssimos caminhos, para que te tornes doce para mim acima de todas as seduções que eu seguia, e eu te ame com todas as forças, e abrace a tua mão com todas as minhas entranhas, e tu me arranques de toda tentação até o fim. Pois eis-te aqui, Senhor, meu rei e meu Deus: a ti sirva tudo o que de útil aprendi em menino; a ti sirva o que falo, e escrevo, e leio, e conto; porque, quando eu aprendia coisas vãs, tu me davas disciplina, e, nessas coisas vãs, tu me perdoaste os pecados dos meus deleites. Pois aprendi nelas muitas palavras úteis; mas também se podem aprender em coisas não vãs, e esse é o caminho seguro por onde os meninos deveriam andar.

XVI.25 Mas ai de ti, torrente do costume humano! Quem te resistirá? Até quando não secarás? Até quando arrastarás os filhos de Eva para o mar grande e temeroso, que mal atravessam os que tiverem subido ao lenho? Não li eu em ti Júpiter que troveja e Júpiter que adultera? E certamente não podia fazer as duas coisas; mas assim se fez, para que o verdadeiro adultério tivesse autoridade para ser imitado, servindo-lhe de alcoviteiro o falso trovão. E qual desses mestres de capa escuta com ouvido sóbrio um homem do mesmo pó que clama e diz: “Homero inventava estas coisas e transferia aos deuses o que é humano; eu preferiria o que é divino para nós”? Mas é mais verdadeiro dizer que ele as inventava, sim, mas atribuindo a divindade a homens torpes, para que as torpezas não fossem tidas por torpezas, e para que quem quer que as cometesse parecesse imitar, não homens perdidos, mas deuses celestes.

XVI.26 E, no entanto, ó torrente infernal, são lançados em ti os filhos dos homens, e com pagamento, para que aprendam estas coisas; e é grande coisa quando isto se trata publicamente no foro, à vista das leis que decretam salários além da paga; e tu bates nas tuas pedras e ressoas, dizendo: “Aqui se aprendem as palavras, aqui se adquire a eloquência, sumamente necessária para persuadir as coisas e expor os pensamentos.” Então não conheceríamos estas palavras, “chuva de ouro”, e “regaço”, e “engano”, e “templos do céu”, e outras palavras que estão escritas naquele lugar, se Terêncio não pusesse em cena um jovem perdido que se propõe Júpiter como exemplo de devassidão, enquanto contempla um quadro pintado na parede, onde estava esta pintura: Júpiter, “como, contam, deu a Dânae no regaço chuva de ouro, / um engano feito à dama”? E vê como ele se excita à paixão, como que por um magistério celeste: “Que deus!”, diz, “que os templos do céu abala ao som de sumo estrondo. / Homenzinho, eu não faria? Pois o fiz, e com prazer.” De modo nenhum se aprendem mais comodamente essas palavras por meio dessa torpeza; mas, por meio dessas palavras, essa torpeza se comete com mais confiança. Não acuso as palavras, que são como vasos escolhidos e preciosos, mas o vinho do erro que nelas nos davam a beber mestres embriagados; e, se não bebíamos, apanhávamos, e não era permitido apelar para algum juiz sóbrio. E, no entanto, eu, meu Deus, em cuja presença a minha recordação já está tranquila, aprendi com prazer essas coisas, e com elas me deleitava, coitado, e por isso me chamavam menino de boas esperanças.

XVII.27 Deixa-me, meu Deus, dizer alguma coisa também do meu engenho, dom teu, e dos desvarios em que eu o gastava. Pois me propunham uma tarefa bem inquietante para a minha alma, pelo prêmio do louvor e pelo medo da desonra ou das pancadas: que eu dissesse as palavras de Juno, irada e dolorida por não poder “longe da Itália manter o monarca dos teucros”, palavras que eu nunca ouvira Juno dizer. Mas éramos obrigados a seguir, errantes, os rastros das ficções poéticas, e a dizer em prosa algo semelhante ao que o poeta dissera em verso. E falava mais louvavelmente aquele em quem, conforme a dignidade da personagem representada, sobressaía uma afeição de ira e de dor mais semelhante, com palavras que vestiam convenientemente os pensamentos. De que me servia, ó verdadeira vida, meu Deus, que me aclamassem, quando eu recitava, mais do que a muitos dos meus coetâneos e companheiros de leitura? Não era tudo aquilo fumo e vento? Não havia, então, outra coisa em que se exercitassem o meu engenho e a minha língua? Os teus louvores, Senhor, os teus louvores, pelas tuas Escrituras, teriam sustentado o sarmento do meu coração, e ele não seria arrebatado entre as vaidades das ninharias, torpe presa das aves. Pois não é de um só modo que se oferecem sacrifícios aos anjos transgressores.

XVIII.28 Que admira, então, que eu fosse assim levado às vaidades e fosse para fora, longe de ti, meu Deus, quando me propunham como modelos homens que, se contavam alguma ação sua, não má, com um barbarismo ou um solecismo, repreendidos, ficavam confundidos, e, se narravam as suas paixões com palavras corretas e bem encadeadas, com abundância e ornato, louvados, se gloriavam? Tu vês estas coisas, Senhor, e te calas, longânime, muito misericordioso e verdadeiro. Acaso te calarás sempre? E já agora arrancas deste abismo imensíssimo a alma que te busca e tem sede dos teus deleites, e cujo coração te diz: “Busquei a tua face.” A tua face, Senhor, buscarei: pois é na afeição tenebrosa que se está longe da tua face. Não é com os pés nem por distâncias de lugares que alguém se afasta de ti ou volta a ti; nem aquele teu filho mais novo buscou cavalos, carros ou navios, ou voou com asa visível, ou fez caminho movendo os joelhos, para, vivendo numa região longínqua, dissipar prodigamente o que lhe deras à partida, pai doce porque lhe deras, e mais doce ainda para o que voltou indigente. É, portanto, na afeição da paixão, que é a tenebrosa, e isso é estar longe da tua face.

XVIII.29 Vê, Senhor Deus, e, pacientemente, como vês, vê com que diligência os filhos dos homens observam os pactos das letras e das sílabas recebidos dos que falaram antes deles, e descuidam os pactos eternos da salvação perpétua recebidos de ti; a ponto de que quem conserva ou ensina aquelas velhas convenções dos sons, se, contra a disciplina gramatical, disser hominem sem aspirar a primeira sílaba, desagrada mais aos homens do que se, contra os teus preceitos, odiar um homem, sendo ele homem. Como se algum homem inimigo pudesse ser-lhe mais pernicioso do que o próprio ódio com que se irrita contra ele, ou como se alguém, perseguindo outro, o devastasse mais gravemente do que devasta o próprio coração com a inimizade. E certamente não é mais interior a ciência das letras do que a consciência em que está escrito que não se faça a outro o que não se quer sofrer. Quão escondido és tu, que habitas nas alturas em silêncio, ó Deus, o único grande, que com lei infatigável espalhas cegueiras penais sobre as cobiças ilícitas, quando um homem que busca a fama da eloquência, diante de um homem que é juiz, rodeado de uma multidão de homens, perseguindo o seu inimigo com o ódio mais desumano, se acautela com toda a vigilância para não dizer, por um erro da língua, “inter hominibus”, e não se acautela para não tirar, pelo furor da mente, um homem do meio dos homens!

XIX.30 No limiar destes costumes jazia eu, menino infeliz, e esta era a palestra de tal arena, onde mais temia cometer um barbarismo do que me acautelava, se o cometesse, de invejar os que não o cometiam. Digo estas coisas e as confesso a ti, meu Deus, coisas em que eu era louvado por aqueles a quem agradar era então, para mim, viver honestamente. Pois não via o abismo de torpeza em que fora lançado para longe dos teus olhos. Pois, entre eles, que houve já mais vil do que eu, se até a esses tais eu desagradava, enganando com inúmeras mentiras o pedagogo, os mestres e os pais, por amor ao jogo, pela paixão de ver frivolidades e pela inquietação de imitar as farsas? Também furtava da despensa e da mesa dos pais, ou porque a gula me mandava, ou para ter o que dar aos meninos que me vendiam o seu jogo, com o qual, de qualquer modo, eles se deleitavam tanto quanto eu. E nesse mesmo jogo, vencido eu mesmo pelo vão desejo de sobressair, muitas vezes caçava vitórias fraudulentas. E que coisa eu menos queria sofrer, e repreendia com mais fúria, se a surpreendia, do que aquilo mesmo que eu fazia aos outros? E, se, surpreendido, era repreendido, preferia enfurecer-me a ceder. É esta a inocência dos meninos? Não é, Senhor, não é. Eu te peço, meu Deus: pois são estas mesmas coisas que, dos pedagogos e mestres, das nozes, das bolinhas e dos pardais, passam aos prefeitos e aos reis, ao ouro, às propriedades, aos escravos; são inteiramente estas mesmas, à medida que sucedem as idades maiores, assim como às férulas sucedem suplícios maiores. Foi, pois, o sinal da humildade, na pequena estatura da meninice, que tu, nosso rei, aprovaste, quando disseste: “De tais é o reino dos céus.”

XX.31 E, no entanto, Senhor, graças a ti, excelentíssimo e ótimo criador e governador do universo, Deus nosso, ainda que só tivesses querido que eu fosse menino. Pois eu existia também então, vivia e sentia, e cuidava da minha conservação, vestígio da secretíssima unidade de que provinha; guardava com um sentido interior a integridade dos meus sentidos e, nesses mesmos pequenos pensamentos sobre coisas pequenas, deleitava-me com a verdade. Não queria ser enganado, tinha memória viva, instruía-me na fala, afagava-me a amizade, fugia da dor, da humilhação, da ignorância. Que há, num tal ser vivo, que não seja admirável e digno de louvor? Mas tudo isso são dons do meu Deus. Não fui eu que me dei estas coisas; e são boas, e tudo isto sou eu. Bom é, pois, quem me fez, e ele mesmo é o meu bem, e nele exulto por todos os bens com que eu existia, mesmo em menino. Pois nisto pecava: em procurar, não nele, mas nas suas criaturas, em mim e nas outras, os prazeres, as grandezas, as verdades; e assim me precipitava nas dores, nas confusões, nos erros. Graças a ti, minha doçura, minha honra e minha confiança, meu Deus, graças a ti pelos teus dons; mas guarda-os tu para mim. Pois assim me guardarás a mim, e crescerá e se aperfeiçoará o que me deste, e eu mesmo estarei contigo, porque também o ser foste tu que me deste.

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