Confissões — Livro Livro III
Livro III
I.1 Vim para Cartago, e de todos os lados crepitava ao meu redor uma frigideira de amores torpes. Ainda não amava, e amava amar, e, por uma indigência mais secreta, odiava a mim mesmo por ser menos indigente. Procurava o que amar, amando amar, e odiava a segurança e o caminho sem armadilhas, porque tinha dentro de mim fome do alimento interior, de ti mesmo, meu Deus, e com essa fome não sentia fome; antes, estava sem desejo dos alimentos incorruptíveis, não porque estivesse farto deles, mas, quanto mais vazio, mais enfastiado. E por isso a minha alma não ia bem e, coberta de úlceras, lançava-se para fora, miseravelmente ávida de se coçar ao contato das coisas sensíveis. Mas, se estas não tivessem alma, certamente não seriam amadas. Amar e ser amado me era doce, e mais ainda se gozasse também do corpo de quem me amava. Assim, eu sujava o veio da amizade com as imundícies da concupiscência e anuviava a sua candura com o Tártaro da paixão; e, no entanto, torpe e desonesto como era, ansiava, em transbordante vaidade, por ser elegante e fino. Atirei-me também ao amor, em que desejava ser apanhado. Meu Deus, misericórdia minha, de quanto fel, e com quanta bondade, me aspergiste aquela suavidade! Pois fui amado, e cheguei às ocultas ao laço do gozo, e alegre me deixava atar com nós penosos, para ser açoitado com as varas de ferro em brasa do ciúme e das suspeitas e dos temores e das iras e das brigas.
II.2 Arrebatavam-me os espetáculos do teatro, cheios de imagens das minhas misérias e de lenha para o meu fogo. Que é isto, que o homem queira ali doer-se ao contemplar coisas lutuosas e trágicas, que ele mesmo, no entanto, não quereria padecer? E, no entanto, o espectador quer padecer a dor que delas vem, e a própria dor é o seu prazer. Que é isto, senão uma espantosa loucura? Pois cada um se comove tanto mais com elas quanto menos curado está de tais afetos, embora, quando é ele mesmo quem padece, se costume chamar a isso miséria, e, quando se compadece dos outros, misericórdia. Mas que misericórdia é essa, afinal, nas coisas fingidas e de palco? Pois o ouvinte não é chamado a socorrer, mas apenas convidado a doer-se, e tanto mais aplaude o ator daquelas imagens quanto mais se dói. E, se aquelas desgraças dos homens, antigas ou falsas, forem representadas de modo que quem assiste não se doa, sai dali enfastiado e censurando; se, porém, se doer, fica atento e, alegre, chora.
II.3 Logo, até as dores são amadas. Certamente todo homem quer alegrar-se. Ou será que, não agradando a ninguém ser miserável, agrada no entanto ser misericordioso, e, como isso não se dá sem dor, por esta única causa são amadas as dores? Também isto vem daquele veio da amizade. Mas para onde vai? Para onde corre? Por que desce numa torrente de pez fervente, nos imensos borbotões das negras paixões, em que ela mesma se muda e se converte, desviada e precipitada da serenidade celeste por seu próprio querer? Deve-se, então, repudiar a misericórdia? De modo nenhum. Amem-se, pois, as dores algumas vezes; mas guarda-te da impureza, alma minha, sob a tutela do meu Deus, o Deus de nossos pais, louvável e sumamente exaltado por todos os séculos; guarda-te da impureza. Pois nem agora deixo de me compadecer; mas então, nos teatros, eu me alegrava com os amantes quando gozavam um do outro por meio de torpezas, embora o representassem apenas em imagem, no jogo do espetáculo; e, quando se perdiam um ao outro, eu me entristecia, como que compassivo; e uma coisa e outra, no entanto, me deleitavam. Agora, porém, tenho mais compaixão de quem se alegra na torpeza do que de quem padeceu como que duras penas com a perda de um prazer pernicioso e a privação de uma felicidade miserável. Esta é, certamente, a misericórdia mais verdadeira; mas nela a dor não deleita. Pois, embora seja aprovado pelo dever da caridade quem se dói do miserável, quem é genuinamente misericordioso preferiria, sem dúvida, que não houvesse de que se doer. Pois, se há uma benevolência malévola, coisa que não pode ser, pode também quem se compadece com verdade e sinceridade desejar que haja miseráveis, para deles se compadecer. Alguma dor, portanto, se há de aprovar; nenhuma, de amar. Pois tu, Senhor Deus, que amas as almas, te compadeces de um modo muito mais alto e mais puro do que nós, e mais incorruptível, por isso mesmo que nenhuma dor te fere. E, para tais coisas, quem é capaz?
II.4 Mas eu, então, miserável, amava doer-me, e buscava que houvesse de que me doer, quando, na desgraça alheia, falsa e dançada em cena, mais me agradava e mais fortemente me atraía aquela atuação do histrião que me arrancava lágrimas. Mas que admira, se eu, ovelha infeliz desgarrada do teu rebanho e impaciente da tua guarda, me cobria de sarna vergonhosa? Daí vinham os amores das dores; não das que me penetrassem mais fundo (pois não amava padecer o que amava contemplar), mas das que, ouvidas e fingidas, me arranhassem como que à superfície. A esses arranhões, porém, como às unhas de quem se coça, seguiam-se o inchaço ardente, a podridão e o pus horrível. Uma vida assim, a minha, era acaso vida, meu Deus?
III.5 E esvoaçava sobre mim, fiel, de longe, a tua misericórdia. Em quantas iniquidades me consumi, e que curiosidade sacrílega segui, para que ela me levasse, a mim que te desertava, ao mais baixo, aos serviços infiéis e enganadores dos demônios, a quem eu imolava as minhas más ações! E em tudo me flagelavas. Ousei até, durante a celebração das tuas solenidades, dentro das paredes da tua igreja, cobiçar e tratar o negócio de obter frutos de morte. Por isso me açoitaste com graves castigos, mas nada em comparação com a minha culpa, ó tu, minha imensa misericórdia, meu Deus, meu refúgio contra os terríveis malfeitores entre os quais vaguei de cerviz presunçosa, para me afastar para longe de ti, amando os meus caminhos e não os teus, amando a liberdade do fugitivo.
III.6 Também aqueles estudos que se chamavam honrosos tinham o seu rumo, voltado para os foros litigiosos, para que neles me destacasse, tanto mais louvado quanto mais fraudulento. Tão grande é a cegueira dos homens, que até da cegueira se gloriam. E até era eu o primeiro na escola do retor, e me alegrava com soberba e inchava de vaidade, embora muito mais sossegado, Senhor, tu o sabes, e de todo afastado dos transtornos que faziam os “transtornadores” (pois esse nome sinistro e diabólico é tido como distintivo de elegância), entre os quais eu vivia com um pudor despudorado, por não ser como eles. E andava com eles, e às vezes me deleitava com a sua amizade, embora sempre tivesse horror ao que faziam, isto é, aos transtornos com que perseguiam insolentemente o acanhamento dos desconhecidos, para o desconcertar zombando sem motivo e nutrindo com isso as suas alegrias malévolas. Nada há mais parecido com os atos dos demônios do que aquele ato. Que nome, pois, mais verdadeiro do que o de transtornadores, se eles mesmos, primeiro, estavam transtornados e pervertidos, enquanto os espíritos enganadores escarneciam deles e os seduziam às ocultas naquilo mesmo em que gostam de escarnecer dos outros e de enganá-los?
IV.7 Entre esses, eu, numa idade ainda frágil, estudava os livros da eloquência, na qual desejava sobressair, com um fim condenável e cheio de vento, pelos gozos da vaidade humana. E, seguindo a ordem costumeira dos estudos, chegara a um livro de um certo Cícero, cuja língua quase todos admiram, o coração não tanto. Mas esse livro contém uma exortação dele à filosofia e se chama Hortênsio. Esse livro, sim, mudou o meu afeto, e para ti mesmo, Senhor, mudou as minhas preces, e fez outros os meus votos e desejos. Tornou-se vil para mim, de repente, toda esperança vã, e eu ansiava pela imortalidade da sabedoria com um incrível ardor do coração, e começara a levantar-me para voltar a ti. Pois não era para afiar a língua (coisa que eu parecia estar comprando com o dinheiro de minha mãe, quando andava no meu décimo nono ano de idade, morto já meu pai havia dois anos), não era, pois, para afiar a língua que eu me servia daquele livro; e não me persuadira o seu modo de dizer, mas o que ele dizia.
IV.8 Como eu ardia, meu Deus, como ardia por voar de volta das coisas terrenas para ti, e não sabia o que fazias comigo! Pois contigo está a sabedoria. E o amor da sabedoria tem em grego o nome de filosofia, e era nesse amor que aquelas letras me acendiam. Há quem seduza por meio da filosofia, colorindo e pintando os seus erros com esse nome grande, aliciante e honroso; e quase todos os que, naqueles tempos e antes deles, eram desses, são apontados e mostrados naquele livro, e torna-se ali manifesta aquela salutar advertência do teu Espírito por meio do teu servo bom e piedoso: “Vede que ninguém vos engane por meio da filosofia e de vã sedução, segundo a tradição dos homens, segundo os elementos deste mundo, e não segundo Cristo; porque nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade.” E eu, naquele tempo, tu o sabes, luz do meu coração, como ainda não conhecia estas palavras do Apóstolo, deleitava-me naquela exortação só por isto: que aquele discurso me despertava, e me acendia, e me fazia arder, para amar, e buscar, e alcançar, e reter, e abraçar com força, não esta ou aquela seita, mas a própria sabedoria, qualquer que fosse; e só uma coisa me refreava em tamanho incêndio: que o nome de Cristo não estava ali. Porque este nome, segundo a tua misericórdia, Senhor, este nome do meu Salvador, teu Filho, o meu terno coração o tinha bebido piedosamente com o próprio leite materno e o guardava no fundo; e tudo o que fosse sem este nome, por mais erudito, polido e verídico, não me arrebatava por inteiro.
V.9 Resolvi, então, aplicar o espírito às santas Escrituras e ver como eram. E eis que vejo uma coisa não descoberta pelos soberbos nem desnudada para as crianças, mas humilde no ingresso, excelsa no progresso, e velada de mistérios. E eu não era tal que pudesse entrar nela ou inclinar a cerviz aos seus passos. Pois não senti, quando atentei naquela Escritura, o que agora digo; ao contrário, pareceu-me indigna de ser comparada à dignidade de Cícero. É que o meu inchaço fugia da sua modéstia, e a minha vista não penetrava o seu interior. Ela, no entanto, era tal que crescesse com os pequeninos; mas eu desdenhava ser pequenino e, inchado de fasto, julgava-me grande.
VI.10 Assim caí entre homens que deliravam com soberba, carnais demais e loquazes, em cuja boca estavam os laços do diabo e um visco preparado com a mistura das sílabas do teu nome, e do de nosso Senhor Jesus Cristo, e do Paráclito, nosso consolador, o Espírito Santo. Esses nomes não se apartavam da sua boca, mas só até o som e o ruído da língua; quanto ao mais, o coração vazio de verdade. E diziam: “Verdade e verdade”, e muito a repetiam para mim, e em parte nenhuma estava neles; mas diziam coisas falsas, não só de ti, que és verdadeiramente a Verdade, mas também destes elementos deste mundo, criação tua, a respeito dos quais eu devia ter ultrapassado, por amor de ti, até os filósofos que diziam coisas verdadeiras, ó meu Pai, sumamente bom, beleza de todas as coisas belas. Ó Verdade, Verdade, quão do íntimo já então suspirava por ti a medula do meu espírito, quando eles te faziam soar aos meus ouvidos, com frequência e de muitos modos, só com a voz e com livros muitos e enormes! E aqueles eram os pratos em que, a mim, faminto de ti, serviam, em teu lugar, o sol e a lua, belas obras tuas, mas, enfim, obras tuas, não tu, e nem sequer as primeiras. Pois as tuas obras espirituais vêm antes destas corpóreas, por mais luminosas e celestes que sejam. Mas eu não tinha fome e sede nem sequer daquelas primeiras, mas de ti mesma, de ti, Verdade, em quem não há mudança nem sombra de movimento. E ainda me serviam, naqueles pratos, fantasmas esplêndidos, em comparação com os quais já era melhor amar este sol, verdadeiro ao menos para estes olhos, do que aquelas coisas falsas, com o espírito enganado pelos olhos. E, no entanto, porque pensava que eram tu, comia-os, não com avidez, é verdade, porque não tinhas na minha boca o sabor do que és (pois tu não eras aquelas ficções vazias), e não me nutria deles, antes me esgotava. A comida em sonhos é muito semelhante à comida dos que estão acordados, e, no entanto, os que dormem não se alimentam dela; pois dormem. Mas aquelas coisas não se pareciam de modo algum contigo, como agora me disseste, porque eram fantasmas corpóreos, corpos falsos, menos certos do que estes corpos verdadeiros que vemos com a vista da carne, sejam celestes, sejam terrestres, em comum com os animais e as aves. Vemos estas coisas, e são mais certas do que quando as imaginamos. E, por sua vez, com mais certeza as imaginamos do que, partindo delas, conjeturamos outras maiores e infinitas, que de todo não existem. De tais vacuidades me apascentava eu então, e não me apascentava. Mas tu, meu amor, em quem desfaleço para ser forte, não és estes corpos que vemos, ainda que no céu, nem os que lá não vemos, porque tu os criaste, e nem sequer os contas entre as mais altas das tuas criações. Quão longe estás, então, daqueles meus fantasmas, fantasmas de corpos que de todo não existem! Mais certas do que eles são as imagens dos corpos que existem, e mais certos do que elas os corpos, que tu, porém, não és. Mas também não és a alma, que é a vida dos corpos (e por isso a vida dos corpos é melhor e mais certa do que os corpos); tu és a vida das almas, a vida das vidas, que vives de ti mesma, e não mudas, vida da minha alma.
VI.11 Onde estavas, pois, para mim, então, e quão longe? E eu peregrinava longe de ti, excluído até das alfarrobas dos porcos que eu apascentava com alfarrobas. Quanto melhores eram as fábulas dos gramáticos e dos poetas do que aquelas armadilhas! Pois o verso e o poema e Medeia voando são certamente mais úteis do que os cinco elementos, pintados de várias cores por causa dos cinco antros das trevas, que de todo não existem e matam quem neles crê. Pois o verso e o poema, posso convertê-los até em verdadeiro alimento; quanto a Medeia voando, ainda que a cantasse, não a afirmava, ainda que a ouvisse cantar, não acreditava. Mas naquelas coisas acreditei — ai, ai! Por que degraus fui levado às profundezas do inferno, penando e ardendo na falta da verdade, quando a ti, meu Deus (pois a ti me confesso, que tiveste compaixão de mim quando eu ainda não me confessava), quando a ti eu buscava, não segundo a inteligência da mente, pela qual quiseste que eu fosse superior aos animais, mas segundo o sentido da carne! Tu, porém, eras mais interior do que o mais íntimo de mim e mais alto do que o mais alto de mim. Topei com aquela mulher atrevida, falta de juízo, o enigma de Salomão, sentada numa cadeira à porta e dizendo: “Comei de bom grado os pães escondidos, e bebei a água doce furtada.” Ela me seduziu, porque me encontrou morando fora, no olho da minha carne, e ruminando dentro de mim coisas tais como as que por ele eu havia devorado.
VII.12 Pois eu não conhecia aquilo outro que verdadeiramente é, e era levado, como que por esperteza, a dar o meu voto àqueles tolos enganadores, quando me perguntavam de onde vem o mal, e se Deus era limitado por uma forma corpórea e tinha cabelos e unhas, e se se deviam ter por justos os que tinham muitas mulheres ao mesmo tempo, e matavam homens, e sacrificavam animais. Com elas eu, ignorante das coisas, me perturbava, e, afastando-me da verdade, parecia-me que ia ao seu encontro, porque não sabia que o mal não é senão privação do bem, até chegar àquilo que de todo não é. (E como haveria eu de ver isso, se o meu ver não ia, com os olhos, além do corpo, e, com o espírito, além do fantasma?) E não sabia que Deus é espírito, não um ser que tivesse membros em comprimento e largura, nem cujo ser fosse uma mole; porque a mole é menor na parte do que no seu todo, e, se for infinita, é menor numa parte delimitada por um espaço certo do que na sua infinitude, e não está toda em toda parte, como o espírito, como Deus. E ignorava por completo o que havia em nós segundo o qual existíssemos e com razão se dissesse de nós, na Escritura, que somos à imagem de Deus.
VII.13 E não conhecia a verdadeira justiça interior, que não julga pelo costume, mas pela lei retíssima de Deus onipotente, pela qual se formam os costumes das terras e dos dias conforme as terras e os dias, existindo ela mesma em toda parte e sempre, não outra em outro lugar, nem diferente em outro tempo; segundo a qual eram justos Abraão e Isaac e Jacó e Moisés e Davi e todos aqueles louvados pela boca de Deus. Nem sabia que eles são julgados iníquos pelos inexperientes, que julgam pelo dia dos homens e medem os costumes de todo o gênero humano pela parte que é o seu próprio costume; como se alguém, não sabendo, em matéria de armaduras, que peça se ajusta a que membro, quisesse cobrir a cabeça com a caneleira e calçar-se com o elmo, e resmungasse porque não lhe assentam bem; ou como se, num mesmo dia em que se declarou feriado a partir das horas da tarde, alguém se irritasse por não lhe permitirem expor alguma coisa à venda, porque de manhã foi permitido; ou como se, numa mesma casa, visse algum servo manusear alguma coisa que não se permite fazer ao que serve as taças, ou fazer-se atrás das estrebarias o que se proíbe diante da mesa, e se indignasse porque, sendo uma só a morada e uma só a família, não se concede a mesma coisa em toda parte e a todos. Assim são esses que se indignam quando ouvem que naquele tempo foi lícito aos justos algo que neste não é lícito aos justos, e que Deus mandou a uns uma coisa e a outros outra, por causas próprias dos tempos, embora uns e outros tenham servido à mesma justiça; e, no entanto, veem num mesmo homem, num mesmo dia e numa mesma casa uma coisa convir a um membro e outra a outro, e uma coisa, lícita até há pouco, uma hora depois não ser lícita, e algo ser permitido ou mandado naquele canto que neste, ao lado, é proibido e castigado. Será a justiça vária e mutável? Mas os tempos, a que ela preside, não andam por igual; pois são tempos. Os homens, porém, cuja vida sobre a terra é breve, como não conseguem, pelo sentido, ligar as causas dos séculos passados e das outras nações, que não experimentaram, com estas que experimentaram, ao passo que, num só corpo, ou dia, ou casa, podem ver facilmente o que convém a cada membro, a que momentos, a que partes ou pessoas, lá se escandalizam, aqui se submetem.
VII.14 Estas coisas, então, eu as ignorava e não as notava; e elas me feriam os olhos de todos os lados, e eu não via. E cantava versos, e não me era permitido pôr qualquer pé em qualquer lugar, mas, num metro e noutro, de um modo e de outro, e, num mesmo verso, não o mesmo pé em todos os lugares. E a própria arte com que eu cantava não tinha uma coisa aqui e outra ali, mas tudo ao mesmo tempo. E não percebia que a justiça, a que serviam os homens bons e santos, contém, de modo muito mais excelente e sublime, ao mesmo tempo, tudo o que prescreve, e em parte nenhuma varia, e, no entanto, nos vários tempos, não prescreve tudo ao mesmo tempo, mas distribui e prescreve a cada um o que lhe é próprio. E, cego, censurava os piedosos patriarcas, que não só usavam das coisas presentes como Deus mandava e inspirava, mas também anunciavam as futuras como Deus revelava.
VIII.15 Acaso em algum tempo ou em algum lugar é injusto amar a Deus de todo o coração, e de toda a alma, e de toda a mente, e amar o próximo como a ti mesmo? Por isso as torpezas que são contra a natureza devem ser detestadas e punidas em toda parte e sempre, como foram as dos sodomitas. Ainda que todos os povos as praticassem, seriam réus do mesmo crime perante a lei divina, que não fez os homens para que usassem assim uns dos outros. Pois se viola a própria sociedade que devemos ter com Deus, quando a mesma natureza de que ele é autor é poluída pela perversidade da paixão. Já as torpezas que são contra os costumes dos homens devem ser evitadas conforme a diversidade dos costumes, de modo que o pacto de uma cidade ou de um povo, firmado entre si pelo costume ou pela lei, não seja violado pela paixão de nenhum cidadão ou estrangeiro. Pois é disforme toda parte que não se ajusta ao seu todo. Quando, porém, Deus manda alguma coisa contra o costume ou o pacto de quem quer que seja, ainda que nunca se tenha feito ali, deve-se fazê-la; e, se foi deixada, deve-se restaurá-la; e, se não estava instituída, deve-se instituí-la. Pois, se a um rei é lícito, na cidade em que reina, mandar alguma coisa que nem alguém antes dele nem ele próprio jamais havia mandado, e obedecer-lhe não é ir contra a sociedade da sua cidade, antes não lhe obedecer é que é ir contra a sociedade (pois é pacto geral da sociedade humana obedecer aos seus reis), quanto mais se deve servir sem hesitação a Deus, que reina sobre toda a sua criação, naquilo que ele tiver mandado. Pois, assim como, entre os poderes da sociedade humana, o poder maior se antepõe ao menor para ser obedecido, assim Deus a todos.
VIII.16 O mesmo se dá com os crimes, em que há desejo de fazer mal, seja por afronta, seja por injúria, e uma e outra coisa ou por vingança, como o inimigo ao inimigo; ou para obter alguma vantagem de fora, como o ladrão ao viajante; ou para evitar um mal, como a quem se teme; ou por inveja, como o mais infeliz ao mais feliz, ou o que prosperou em alguma coisa àquele que teme ver igualar-se a ele, ou cuja igualdade lhe dói; ou pelo simples prazer do mal alheio, como os espectadores dos gladiadores, ou os que zombam e escarnecem de quem quer que seja. Estas são as cabeças da iniquidade, que brotam do desejo de dominar, e de ver, e de sentir, ou de um só, ou de dois deles, ou de todos juntos; e vive-se mal contra os três e os sete, o saltério de dez cordas, o teu decálogo, ó Deus altíssimo e dulcíssimo. Mas que torpezas contra ti, que não te corrompes? Ou que crimes contra ti, a quem não se pode fazer mal? Mas punes aquilo que os homens cometem contra si mesmos, porque, ainda quando pecam contra ti, agem impiamente contra as suas próprias almas, e a iniquidade mente a si mesma, seja corrompendo e pervertendo a sua natureza, que tu fizeste e ordenaste, seja usando sem medida das coisas permitidas, seja ardendo pelas não permitidas, para aquele uso que é contra a natureza. Ou são tidos por réus os que se enfurecem contra ti em pensamento e em palavras, e recalcitram contra o aguilhão; ou quando, rompidos os limites da sociedade humana, se alegram atrevidos com alianças ou rupturas particulares, conforme alguma coisa lhes agradou ou os ofendeu. E estas coisas acontecem quando és abandonado, tu, fonte da vida, que és o único e verdadeiro criador e governador do universo, e quando, por soberba particular, se ama numa parte um falso uno. Por isso é pela piedade humilde que se volta a ti; e tu nos purificas do mau costume, e és propício aos pecados dos que se confessam, e ouves os gemidos dos que estão em grilhões, e nos soltas das cadeias que nós mesmos fizemos, se já não levantarmos contra ti os chifres de uma falsa liberdade, com a cobiça de ter mais e com o dano de perder tudo, amando mais o que é nosso do que a ti, o bem de tudo.
IX.17 Mas, entre as torpezas e os crimes e tantas iniquidades, há os pecados dos que progridem, que os que bem julgam censuram segundo a regra da perfeição e louvam pela esperança do fruto, como a erva da seara. E há certas coisas semelhantes à torpeza ou ao crime que não são pecados, porque não ofendem nem a ti, Senhor nosso Deus, nem a convivência social: quando se adquirem algumas coisas para uso da vida, convenientes também ao tempo, e é incerto se é por desejo de possuir; ou quando se pune com zelo de corrigir, por um poder legitimamente ordenado, e é incerto se é por desejo de fazer mal. Por isso, muitos atos que aos homens pareceriam reprováveis foram aprovados pelo teu testemunho, e muitos louvados pelos homens são condenados, sendo tu testemunha; porque muitas vezes uma é a aparência do ato e outra a intenção de quem o faz e a conjuntura oculta do tempo. Quando, porém, tu de repente ordenas alguma coisa inusitada e imprevista, ainda que a tenhas proibido alguma vez, embora ocultes por algum tempo a causa da tua ordem e embora seja contra o pacto social de alguns homens, quem duvidará de que deve ser feita, se é justa aquela sociedade dos homens que te serve? Mas bem-aventurados os que sabem que foste tu que o ordenaste. Pois tudo é feito pelos que te servem, ou para mostrar o que é necessário para o presente, ou para anunciar de antemão o futuro.
X.18 Eu, sem saber estas coisas, zombava daqueles teus santos servos e profetas. E que fazia eu, ao zombar deles, senão fazer que tu zombasses de mim, levado pouco a pouco, insensivelmente, a tais tolices que acreditava que o figo chora quando é colhido, e que a figueira, sua mãe, chora lágrimas de leite? E, no entanto, se algum santo comesse esse figo, colhido, é claro, por crime alheio e não seu, ele o misturaria às suas entranhas e dele exalaria anjos, ou antes, partículas de Deus, gemendo na oração e arrotando. Essas partículas do sumo e verdadeiro Deus teriam ficado presas naquele fruto, se não fossem libertadas pelo dente e pelo ventre do santo eleito. E eu, miserável, acreditei que se deve ter mais misericórdia com os frutos da terra do que com os homens, por causa dos quais eles nascem. Pois, se algum faminto que não fosse maniqueu pedisse, pareceria que o bocado, se lhe fosse dado, merecia como que a pena capital.
XI.19 E estendeste a tua mão do alto e arrancaste a minha alma desta profunda escuridão, quando por mim chorava diante de ti minha mãe, tua fiel, mais do que as mães choram os funerais dos corpos. Pois ela via a minha morte pela fé e pelo espírito que tinha de ti; e tu a ouviste, Senhor. Tu a ouviste e não desprezaste as suas lágrimas, quando, correndo em fio, regavam a terra sob os seus olhos em todo lugar em que orava: tu a ouviste. Pois de onde veio aquele sonho com que a consolaste, a ponto de ela consentir em viver comigo e ter comigo a mesma mesa em casa? (Coisa que começara a recusar, por aversão e horror às blasfêmias do meu erro.) Viu-se, com efeito, de pé sobre uma régua de madeira, e viu vir até ela um jovem resplandecente, alegre e sorrindo-lhe, enquanto ela estava triste e acabrunhada de tristeza. E, como ele lhe perguntasse as causas da sua tristeza e das suas lágrimas de cada dia (para ensinar, como se costuma, e não para aprender), e ela respondesse que chorava a minha perdição, ele lhe mandou (para que ficasse tranquila) e a advertiu que atentasse e visse que, onde ela estava, ali estava também eu. E, quando ela atentou, viu-me junto de si, de pé na mesma régua. De onde isto, senão de que os teus ouvidos estavam junto do coração dela, ó tu, bom e onipotente, que cuidas de cada um de nós como se só dele cuidasses, e de todos como de cada um?
XI.20 De onde também isto: quando ela me contou essa visão e eu procurava puxá-la para este sentido, que ela antes não desesperasse de vir a ser o que eu era, logo, sem nenhuma hesitação, disse: “Não; pois não me foi dito: ‘Onde ele está, ali estás também tu’, mas: ‘Onde tu estás, ali está também ele’.” Confesso-te, Senhor, a minha lembrança, até onde me recordo, e é coisa que muitas vezes não calei: que eu me comovi mais, já então, com esta tua resposta por meio de minha mãe acordada — que não se deixou perturbar por uma interpretação falsa tão próxima, e viu tão depressa o que era preciso ver (coisa que eu, certamente, antes de ela o dizer, não tinha visto) — do que com o próprio sonho, pelo qual foi predita à piedosa mulher, tanto tempo antes, uma alegria que viria tanto tempo depois, para consolo da sua aflição de então. Pois seguiram-se quase nove anos em que eu me revolvi naquele lodo do abismo e nas trevas da falsidade, tentando muitas vezes levantar-me e sendo lançado ao chão com mais força; e, contudo, aquela viúva casta, piedosa e sóbria, como as que tu amas, já mais animada pela esperança, mas não mais remissa no pranto e no gemido, não cessava, em todas as horas das suas orações, de chorar por mim diante de ti; e as suas preces entravam na tua presença, e tu, no entanto, ainda me deixavas revolver-me e envolver-me naquela escuridão.
XII.21 E deste, entretanto, outra resposta, de que me lembro. Pois muitas coisas passo por alto, porque me apresso para aquelas que mais me urgem a confessar-te, e de muitas não me lembro. Deste, pois, outra por meio de um sacerdote teu, um bispo criado na Igreja e versado nos teus livros. Como aquela mulher lhe rogasse que se dignasse conversar comigo, e refutar os meus erros, e desensinar-me o mal e ensinar-me o bem (pois fazia isso com quantos acaso achasse capazes), ele não quis, e com muita prudência, segundo percebi depois. Respondeu, de fato, que eu ainda era indócil, porque estava inchado com a novidade daquela heresia e já tinha perturbado muitos ignorantes com algumas questiúnculas, como ela mesma lhe contara. “Mas”, disse, “deixa-o lá. Apenas roga por ele ao Senhor. Ele mesmo, lendo, descobrirá qual é esse erro e quão grande a impiedade.” Ao mesmo tempo contou que também ele, ainda pequeno, fora entregue aos maniqueus por sua mãe, que fora seduzida, e que não só lera mas até copiara quase todos os livros deles, e que lhe ficara claro, sem que ninguém discutisse com ele nem o convencesse, quanto se devia fugir daquela seita; e por isso fugira. Tendo ele dito isso, como ela não quisesse aquietar-se, mas insistisse ainda mais, suplicando e chorando abundantemente, para que me visse e discutisse comigo, ele, já um tanto irritado de enfado, disse: “Vai-te de mim. Por tua vida: não é possível que pereça o filho dessas lágrimas.” E ela, nas suas conversas comigo, muitas vezes recordava que recebera aquilo como se tivesse soado do céu.
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