Confissões — Livro Livro V
Livro V
I.1 Recebe o sacrifício das minhas confissões da mão da minha língua, que formaste e despertaste para que confesse o teu nome; e cura todos os meus ossos, e que eles digam: “Senhor, quem é semelhante a ti?” Pois quem se confessa a ti não te ensina o que se passa dentro dele, porque o coração fechado não deixa de fora o teu olhar, nem a dureza dos homens repele a tua mão; tu a desfazes quando quiseres, seja por compaixão, seja por castigo, e não há quem se esconda do teu calor. Mas que a minha alma te louve para te amar, e te confesse as tuas misericórdias para te louvar. Não cessa nem cala os teus louvores a tua criação inteira: nem todo espírito, pela sua boca voltada para ti, nem os animais e as coisas corpóreas, pela boca dos que as contemplam; para que a nossa alma se erga do seu cansaço para ti, apoiando-se nas coisas que fizeste e passando a ti, que as fizeste maravilhosamente. E ali está o refazimento e a verdadeira fortaleza.
II.2 Que se vão e fujam de ti os inquietos, os iníquos. E tu os vês e distingues as sombras; e eis que, com eles, todas as coisas são belas, e eles mesmos são torpes. E em que te prejudicaram? Ou em que desonraram o teu império, justo e íntegro desde os céus até as coisas ínfimas? Para onde fugiram, ao fugirem da tua face? Ou onde é que tu não os encontras? Mas fugiram para não ver a ti, que os vês, e para, cegos, tropeçarem em ti, porque não abandonas nada do que fizeste; para tropeçarem em ti os injustos e serem justamente atormentados, subtraindo-se à tua brandura, e tropeçando na tua retidão, e caindo na tua aspereza. É que não sabem que estás em toda parte, tu que nenhum lugar circunscreve, e que só tu estás presente até aos que se fazem longe de ti. Que se convertam, pois, e te busquem, porque tu não abandonaste a tua criatura assim como eles abandonaram o seu Criador: que eles se convertam. E eis que estás ali, no coração deles, no coração dos que se confessam a ti, e se lançam em ti, e choram no teu seio depois dos seus caminhos difíceis. E tu, fácil, lhes enxugas as lágrimas, e eles choram mais e se alegram no pranto, porque tu, Senhor, não um homem qualquer, carne e sangue, mas tu, Senhor, que os fizeste, os refazes e consolas. E onde estava eu, quando te buscava? Tu estavas diante de mim, mas eu tinha me afastado até de mim mesmo e não me encontrava: quanto menos a ti!
III.3 Quero declarar na presença do meu Deus aquele ano, o vigésimo nono da minha idade. Tinha chegado a Cartago um bispo dos maniqueus, chamado Fausto, grande laço do diabo, e muitos se enredavam nele pelo engodo da sua fala suave. Esta, embora eu já a louvasse, eu a distinguia, contudo, da verdade das coisas que estava ávido de aprender; e não olhava para a vasilha de linguagem, mas para o alimento de ciência que me servia para comer aquele Fausto, tão nomeado entre eles. Pois a fama me havia falado dele de antemão: que era peritíssimo em todas as doutrinas honestas e instruído como poucos nas disciplinas liberais. E, como eu tinha lido muitas obras dos filósofos e as retinha confiadas à memória, comparava algumas delas com aquelas longas fábulas dos maniqueus, e me pareciam mais prováveis as coisas que disseram aqueles que tanto puderam valer que foram capazes de avaliar o mundo, embora de modo nenhum lhe tenham encontrado o Senhor. Porque és grande, Senhor, e olhas para as coisas humildes, mas as altivas conheces de longe; e não te aproximas senão dos que têm o coração esmagado, nem és encontrado pelos soberbos, nem mesmo se eles, com curiosa perícia, contarem as estrelas e a areia, e medirem as regiões do céu estrelado, e rastrearem os caminhos dos astros.
III.4 Pois é com a sua mente e com o engenho que tu lhes deste que eles investigam estas coisas; e descobriram muitas, e predisseram, muitos anos antes, os eclipses dos luminares, do sol e da lua: em que dia, a que hora, em que parte haviam de acontecer; e o número não os enganou. E aconteceu tal como predisseram; e escreveram as regras que tinham descoberto, e elas se leem hoje, e por elas se prediz em que ano, e em que mês do ano, e em que dia do mês, e a que hora do dia, e em que porção da sua luz se há de eclipsar a lua ou o sol: e assim acontecerá como se prediz. E os homens que não sabem estas coisas se admiram e ficam pasmos, e os que as sabem exultam e se envaidecem; e, afastando-se por ímpia soberba e eclipsando-se da tua luz, preveem com tanta antecedência o eclipse futuro do sol, e não veem o seu, já presente (pois não buscam com piedade de onde lhes vem o engenho com que buscam estas coisas); e, descobrindo que tu os fizeste, não se entregam a ti, para que guardes o que fizeste, nem imolam a ti aquilo que eles mesmos de si tinham feito, nem degolam as suas altivezas como aves, e as suas curiosidades como os peixes do mar, com que percorrem as veredas secretas do abismo, e as suas luxúrias como os animais do campo, para que tu, Deus, fogo devorador, consumas os seus cuidados mortos, recriando-os para a imortalidade.
III.5 Mas não conheceram o caminho, o teu Verbo, pelo qual fizeste as coisas que eles contam, e a eles mesmos, que contam, e o sentido com que discernem o que contam, e a mente com que contam; e a tua sabedoria não tem número. Mas o próprio Unigênito se fez para nós sabedoria, e justiça, e santificação, e foi contado entre nós, e pagou o tributo a César. Não conheceram este caminho, por onde descessem de si até ele e, por ele, subissem até ele. Não conheceram este caminho, e se julgam excelsos e luminosos com os astros, e eis que caíram por terra, e o seu coração insensato se obscureceu. E dizem muitas coisas verdadeiras sobre a criação, e não buscam com piedade a Verdade, artífice da criação, e por isso não a encontram; ou, se a encontram, conhecendo a Deus, não o honram como Deus nem lhe dão graças, e se esvaecem nos seus pensamentos, e dizem-se sábios, atribuindo a si o que é teu; e por isso se empenham, com cegueira perversíssima, em atribuir também a ti o que é deles, lançando sobre ti mentiras, a ti, que és a Verdade, e trocando a glória do Deus incorruptível pela semelhança da imagem do homem corruptível, e de aves, e de quadrúpedes, e de serpentes; e convertem a tua verdade em mentira, e prestam culto e servem à criatura antes que ao Criador.
III.6 Ainda assim, eu guardava muitas coisas verdadeiras ditas por eles a partir da própria criação, e a razão delas me vinha ao encontro pelos números, pela ordem dos tempos e pelos testemunhos visíveis dos astros; e eu as comparava com os ditos de Mani, que sobre estes assuntos escreveu muitíssimo, num delírio copiosíssimo; e ali não me vinha ao encontro razão nenhuma, nem dos solstícios e equinócios, nem dos eclipses dos luminares, nem de coisa alguma semelhante que eu tinha aprendido nos livros da sabedoria do século. Ali, porém, mandavam-me crer; e aquilo não vinha ao encontro daquelas razões examinadas pelos números e pelos meus olhos, e era muito diferente.
IV.7 Porventura, Senhor Deus da verdade, quem quer que conheça estas coisas já te agrada? Infeliz, de fato, o homem que sabe todas elas e não te conhece a ti; e feliz o que te conhece, ainda que não as saiba. Mas quem conhece a ti e a elas não é mais feliz por causa delas, mas é feliz só por causa de ti, se, conhecendo-te, te glorifica como a ti e te dá graças, e não se esvaece nos seus pensamentos. Pois, assim como é melhor quem sabe possuir uma árvore e te dá graças pelo uso dela, ainda que não saiba quantos côvados tem de altura nem quanto se espalha em largura, do que aquele que a mede e lhe conta todos os ramos, mas não a possui nem conhece ou ama o seu Criador, assim o homem fiel, de quem é o mundo inteiro das riquezas, e que, como quem nada tem, tudo possui, unindo-se a ti, a quem todas as coisas servem, ainda que nem sequer conheça os giros do Setentrião, é tolice duvidar de que seja, por certo, melhor do que o medidor do céu, o contador das estrelas e o pesador dos elementos que se descuida de ti, que tudo dispuseste com medida, número e peso.
V.8 Mas, afinal, quem pedia a um tal Mani que escrevesse também sobre estas coisas, sem cuja perícia se podia aprender a piedade? Pois disseste ao homem: “Eis que a piedade é a sabedoria.” Esta, ele podia ignorá-la, ainda que conhecesse perfeitamente aquelas coisas; mas, como não as conhecia e ousava, com a maior impudência, ensiná-las, de modo nenhum podia conhecer a piedade. Pois é vaidade professar estas coisas do mundo, mesmo conhecidas; piedade, porém, é confessar-te a ti. Por isso aquele desencaminhado falou muito destas coisas, para que, refutado pelos que as tinham aprendido de verdade, se conhecesse com clareza qual era o seu juízo nas outras, que são mais escondidas. Pois não quis ser tido em pouca conta, mas tentou persuadir de que o Espírito Santo, consolador e enriquecedor dos teus fiéis, estava pessoalmente nele, com autoridade plena. Assim, quando foi apanhado dizendo falsidades sobre o céu e as estrelas e sobre os movimentos do sol e da lua, ainda que estas coisas não pertençam à doutrina da religião, ficava bem patente que as suas ousadias eram sacrílegas, pois dizia coisas não só ignoradas, mas também falsas, com tão insana vaidade de soberba, que se esforçava por atribuí-las a si como a uma pessoa divina.
V.9 Pois, quando ouço que algum irmão cristão, este ou aquele, não sabe estas coisas e toma uma pela outra, olho com paciência o homem com a sua opinião, e não vejo que isso lhe faça mal, uma vez que não crê a teu respeito, Senhor, criador de todas as coisas, nada que seja indigno de ti, ainda que porventura ignore a posição e a disposição da criação corpórea. Faz-lhe mal, porém, se julgar que isto pertence à própria forma da doutrina da piedade e ousar afirmar com obstinação o que ignora. Mas também uma tal fraqueza, no berço da fé, é sustentada pela caridade, que é mãe, até que o homem novo se levante até o varão perfeito e já não possa ser levado em roda por todo vento de doutrina. Mas, quanto àquele que ousou fazer-se doutor, autor, guia e chefe dos que persuadisse dessas coisas, e de tal maneira que os que o seguiam julgassem seguir não um homem qualquer, mas o teu Espírito Santo, quem não julgaria que tamanha demência, se em alguma parte se provasse que ele disse falsidades, devia ser detestada e lançada para bem longe? Mas eu ainda não tinha averiguado com clareza se também segundo as palavras dele se podiam explicar as alternâncias dos dias e das noites mais longos e mais curtos, e da própria noite e do dia, e os eclipses das luzes, e o que mais desse gênero eu tinha lido em outros livros; de modo que, se porventura se pudesse, me ficasse incerto, sim, se a coisa era deste modo ou daquele, mas eu antepusesse, para a minha fé, a autoridade dele, por causa da santidade em que se acreditava.
VI.10 E, durante quase aqueles mesmos nove anos em que os ouvi com o espírito vagabundo, eu esperava a vinda desse Fausto com um desejo por demais ansioso. Pois os outros deles com quem eu topava por acaso, e que se perdiam diante das questões que eu lhes levantava sobre tais assuntos, me prometiam esse homem: com a sua vinda e numa conversa com ele, estas dúvidas, e outras maiores, se eu porventura as tivesse, se me desatariam com toda a facilidade e clareza. Quando, pois, chegou, achei-o homem afável e agradável no falar, e que tagarelava com muito mais suavidade as mesmas coisas que eles costumam dizer. Mas que tinha a ver com a minha sede o mais elegante servidor de taças preciosas? Os meus ouvidos já estavam fartos de tais coisas, e nem por isso me pareciam melhores, por serem mais bem ditas, nem verdadeiras, por eloquentes, nem sábia a alma, porque o rosto era conveniente e a fala graciosa. E aqueles que mo prometiam não eram bons juízes das coisas, e por isso ele lhes parecia prudente e sábio, porque os deleitava ao falar. Mas percebi também que outra espécie de homens tem por suspeita até a verdade e não quer aceitá-la, se se apresentar num discurso ornado e rico. A mim, porém, já me tinhas ensinado, meu Deus, por modos admiráveis e ocultos (e creio que foste tu que me ensinaste, porque é verdade, e não há outro mestre da verdade além de ti, onde quer e de onde quer que ela brilhe); já tinha, pois, aprendido de ti que não se deve ter uma coisa por verdadeira porque é dita com eloquência, nem por falsa porque os sinais dos lábios soam sem arte; e, por outro lado, nem por verdadeira porque é enunciada sem polimento, nem por falsa porque o discurso é esplêndido; mas que a sabedoria e a estultícia são como os alimentos úteis e os inúteis, e que com palavras ornadas e sem ornato, como em vasilhas finas e rústicas, se podem servir uns e outros alimentos.
VI.11 Assim, a minha avidez, com que por tanto tempo esperara aquele homem, deleitava-se, sim, com o movimento e o afeto com que ele discutia, e com as palavras apropriadas, que lhe acudiam com facilidade para vestir as ideias. Eu me deleitava, e com muitos, e até mais do que muitos, o louvava e exaltava; mas me pesava que, na assembleia dos ouvintes, não me fosse permitido apresentar-lhe e repartir com ele as inquietações das minhas questões, conversando familiarmente e recebendo e devolvendo a palavra. Quando o pude fazer e, com os meus amigos, comecei a ocupar-lhe os ouvidos, num momento em que não ficava mal discutir alternadamente, e expus algumas coisas que me inquietavam, experimentei primeiro que era homem inexperto nas disciplinas liberais, exceto a gramática, e mesmo esta de modo corriqueiro. E, como tinha lido alguns discursos de Cícero e pouquíssimos livros de Sêneca, algumas coisas dos poetas e os volumes da sua seita que estivessem escritos em latim e com elegância, e como tinha o exercício diário de discursar, daí lhe vinha a eloquência, que se tornava mais aceitável e mais sedutora pela moderação do engenho e por uma certa graça natural. É assim, como me lembro, Senhor meu Deus, juiz da minha consciência? Diante de ti estão o meu coração e a minha memória; diante de ti, que então me conduzias pelo segredo escondido da tua providência e já me punhas diante do rosto os meus vergonhosos erros, para que os visse e odiasse.
VII.12 Pois, depois que ele se mostrou bastante imperito naquelas artes em que eu julgara que se destacava, comecei a perder a esperança de que me pudesse abrir e resolver as questões que me inquietavam; ignorando-as, decerto, poderia possuir a verdade da piedade, mas se não fosse maniqueu. Os livros deles, com efeito, estão cheios de longuíssimas fábulas sobre o céu, os astros, o sol e a lua; e eu já não julgava que ele me pudesse explicar com precisão, como eu tanto desejava, comparando os cálculos dos números que eu tinha lido noutra parte, se as coisas eram antes assim como se continham nos livros de Mani, ou se, ao menos, também deles se podia dar uma razão igual. Contudo, quando as apresentei para serem consideradas e discutidas, ele, com toda a modéstia, nem ousou tomar sobre si esse fardo. Sabia, com efeito, que não sabia aquelas coisas, e não teve vergonha de confessá-lo. Não era daqueles faladores, muitos dos quais eu tinha aturado, que tentavam ensinar-me essas coisas e não diziam nada. Este tinha coração, se não reto para contigo, também não demasiado incauto para consigo mesmo. Não era de todo ignorante da sua ignorância, e não quis, discutindo temerariamente, meter-se em apertos de onde não teria saída nenhuma nem fácil volta: também por isso me agradou ainda mais. Pois mais bela é a temperança de um espírito que confessa do que aquelas coisas que eu desejava conhecer. E assim o achava em todas as questões mais difíceis e mais sutis.
VII.13 Quebrado, assim, o empenho que eu tinha posto nos escritos de Mani, e desesperando ainda mais dos outros mestres deles, já que naquelas muitas questões que me inquietavam assim se mostrara aquele tão nomeado, comecei a conviver com ele por causa do seu gosto pelas letras, em que ele próprio ardia e que eu, já então retor de Cartago, ensinava aos adolescentes; e a ler com ele ou o que ele, por ter ouvido falar, desejava, ou o que eu mesmo julgava adequado a tal engenho. De resto, todo o meu esforço, com que tinha decidido progredir naquela seita, uma vez conhecido aquele homem, se desfez por completo; não a ponto de me separar inteiramente deles, mas, como quem não encontra nada de melhor, tinha decidido contentar-me por enquanto com aquilo em que de algum modo já me tinha precipitado, a não ser que, por acaso, brilhasse alguma coisa mais digna de ser escolhida. Assim, aquele Fausto, que para muitos foi laço de morte, já tinha começado a afrouxar o meu, aquele em que eu estava preso, sem o querer e sem o saber. Pois as tuas mãos, meu Deus, no segredo da tua providência, não abandonavam a minha alma; e, do sangue do coração da minha mãe, pelas suas lágrimas de dia e de noite, se te oferecia sacrifício por mim; e agiste comigo de modos admiráveis. Foste tu que agiste assim, meu Deus, pois é pelo Senhor que são dirigidos os passos do homem, e ele quererá o seu caminho. Ou que cuidado há da salvação, fora da tua mão, que refaz o que fizeste?
VIII.14 Agiste, pois, comigo de tal modo que eu fosse persuadido a ir para Roma e a ensinar antes lá o que ensinava em Cartago. E não deixarei de te confessar de que modo fui persuadido disso, porque também nisto devem ser meditados e proclamados os teus profundíssimos recessos e a tua misericórdia, tão presente para conosco. Não quis ir para Roma porque os amigos que me aconselhavam isso me prometiam maiores ganhos e maior dignidade (embora também essas coisas então atraíssem o meu espírito), mas a causa maior e quase única era que eu ouvia dizer que lá os adolescentes estudavam mais sossegados e eram refreados pela coerção de uma disciplina mais ordenada: não irrompem a esmo e com insolência na escola de um mestre que não é o seu, nem são admitidos de maneira nenhuma, a não ser que ele o permita. Em Cartago, ao contrário, é feia e desenfreada a licença dos estudantes. Irrompem descaradamente e, com cara quase de furiosos, perturbam a ordem que cada um estabeleceu para o proveito dos seus discípulos. Cometem muitas injúrias com uma estupidez espantosa, que as leis puniriam se o costume não as patrocinasse; e isso os mostra tanto mais miseráveis, quanto fazem, como se já fosse lícito, o que pela tua lei eterna nunca será lícito, e julgam fazê-lo impunemente, quando são punidos pela própria cegueira com que o fazem e sofrem coisas incomparavelmente piores do que as que fazem. Assim, os costumes que, quando eu era estudante, não quis que fossem meus, era obrigado, quando era mestre, a suportá-los nos outros. E por isso me agradava ir para onde, segundo diziam todos os que o conheciam, tais coisas não aconteciam. Mas tu, minha esperança e minha porção na terra dos vivos, para que eu mudasse de terra pela salvação da minha alma, me aplicavas em Cartago aguilhões que dali me arrancassem e me propunhas em Roma atrativos que me atraíssem, por meio de homens que amam uma vida morta, uns aqui fazendo loucuras, outros lá prometendo vaidades; e, para corrigir os meus passos, te servias ocultamente da perversidade deles e da minha. Pois os que perturbavam o meu sossego estavam cegos de uma raiva torpe, e os que me convidavam para outra coisa tinham gosto pela terra; e eu, que detestava aqui uma miséria verdadeira, buscava lá uma felicidade falsa.
VIII.15 Mas por que eu partia daqui e ia para lá, tu o sabias, Deus, e não o indicavas nem a mim nem à minha mãe, que chorou atrozmente a minha partida e me seguiu até o mar. Mas eu a enganei, quando me segurava com violência para me fazer voltar ou para partir comigo, e fingi que não queria deixar um amigo até que ele, levantando-se o vento, se fizesse ao mar. E menti à minha mãe, e a que mãe! E escapei, porque também isto me perdoaste, guardando-me misericordiosamente das águas do mar, a mim, cheio de imundícies execráveis, até a água da tua graça, com a qual, uma vez lavado eu, se secariam os rios dos olhos maternos, com que ela todos os dias, por mim, regava diante de ti a terra debaixo do seu rosto. E, contudo, como ela se recusava a voltar sem mim, a custo a persuadi a ficar aquela noite num lugar que estava bem perto do nosso navio, a memória do bem-aventurado Cipriano. Mas naquela noite parti às escondidas, e ela não; ficou orando e chorando. E que te pedia ela, meu Deus, com tantas lágrimas, senão que não me deixasses navegar? Mas tu, decidindo lá do alto e atendendo ao eixo do seu desejo, não fizeste caso do que ela então pedia, para fazeres de mim o que ela sempre pedia. Soprou o vento, encheu as nossas velas e subtraiu às nossas vistas a praia, onde ela, pela manhã, enlouquecia de dor e enchia de queixas e gemidos os teus ouvidos, e tu não fazias caso daquilo, enquanto a mim me arrebatavas pelas minhas cobiças para pôr fim a essas mesmas cobiças, e o desejo carnal dela era açoitado pelo justo flagelo das dores. Pois ela amava ter-me junto de si, como costumam as mães, mas muito mais do que muitas; e não sabia que alegrias tu lhe havias de dar com a minha ausência. Não sabia: por isso chorava e gemia em altos brados, e naqueles tormentos se denunciava nela o resquício de Eva, buscando com gemido o que com gemido tinha dado à luz. E, contudo, depois de acusar os meus enganos e a minha crueldade, voltando de novo a rogar-te por mim, foi-se à vida de costume, e eu, para Roma.
IX.16 E eis que lá sou recebido pelo flagelo de uma doença do corpo, e já ia para os infernos levando todos os males que tinha cometido contra ti, contra mim e contra os outros, muitos e graves, além do vínculo do pecado original, pelo qual todos morremos em Adão. Pois nenhum deles me tinhas perdoado em Cristo, nem ele tinha desfeito na sua cruz as inimizades que eu contraíra contigo pelos meus pecados. Como, de fato, as desfaria numa cruz de fantasma, que era o que eu cria dele? Quanto mais falsa, pois, me parecia a morte da sua carne, tanto mais verdadeira era a da minha alma; e quanto mais verdadeira era a morte da sua carne, tanto mais falsa a vida da minha alma, que não cria nisso. E, agravando-se as febres, eu já me ia e perecia. Pois para onde iria eu, se então partisse daqui, senão para o fogo e para os tormentos dignos dos meus atos, na verdade da tua ordem? E ela não sabia disso e, contudo, orava por mim, ausente; e tu, presente em toda parte, a ouvias onde ela estava, e tinhas compaixão de mim onde eu estava, para que eu recuperasse a saúde do corpo, ainda insano no meu coração sacrílego. Pois nem sequer, em tão grande perigo, desejava o teu batismo; e melhor era eu menino, quando o pedi com insistência à piedade materna, como já recordei e confessei. Mas eu tinha crescido para a minha desonra e, demente, zombava dos conselhos da tua medicina, tu que não permitiste que eu, sendo como era, morresse duas vezes. Se o coração de minha mãe fosse ferido por esse golpe, nunca sararia. Pois não sei dizer bastante o que ela sentia por mim, e com quanto maior solicitude sofria em espírito as dores do meu parto do que me dera à luz na carne.
IX.17 Não vejo, pois, como ela sararia, se aquela minha morte, sendo eu tal, lhe tivesse traspassado as entranhas do amor. E onde estariam tantas preces, e tão frequentes, sem interrupção? Em parte nenhuma, senão junto de ti. Ou porventura tu, Deus das misericórdias, desprezarias o coração contrito e humilhado de uma viúva casta e sóbria, assídua nas esmolas, que atendia e servia aos teus santos, que não deixava passar um dia sem levar a oblação ao teu altar, que duas vezes por dia, de manhã e à tarde, vinha sem falta nenhuma à tua igreja, não para conversas vãs e falatórios de velhas, mas para te ouvir nas tuas palavras, e para que tu a ouvisses nas orações dela? E as lágrimas desta mulher, com as quais não te pedia ouro nem prata, nem bem algum vacilante ou volúvel, mas a salvação da alma de seu filho, tu, por cujo dom ela era assim, as desprezarias e as repelirias do teu auxílio? De modo nenhum, Senhor. Pelo contrário, estavas presente, e a ouvias, e fazias tudo na ordem em que tinhas predestinado que devia ser feito. Longe de ti enganá-la naquelas visões e respostas tuas, as que já recordei e as que não recordei, que ela guardava no peito fiel e, orando sempre, te apresentava como obrigações escritas do teu próprio punho. Pois te dignas, porque eterna é a tua misericórdia, de te fazer, por tuas promessas, devedor daqueles a quem perdoas todas as dívidas.
X.18 Restabeleceste-me, pois, daquela doença, e salvaste o filho da tua serva, então, por enquanto, no corpo, para que houvesse a quem desses uma salvação melhor e mais segura. E ainda então, em Roma, eu me juntava àqueles santos falsos e enganadores; e não só aos ouvintes deles, de cujo número era também aquele em cuja casa eu adoecera e convalescera, mas também aos que chamam eleitos. Pois ainda me parecia que não somos nós que pecamos, mas que não sei que outra natureza peca em nós; e agradava à minha soberba estar fora da culpa e, quando eu tinha feito algum mal, não confessar que o tinha feito, para que curasses a minha alma, porque pecava contra ti; mas eu gostava de me desculpar e de acusar não sei que outra coisa que estava comigo e não era eu. Na verdade, porém, tudo aquilo era eu, e a minha impiedade me tinha dividido contra mim mesmo; e o pecado mais incurável era justamente julgar-me não pecador; e iniquidade execrável era preferir que tu, Deus onipotente, tu fosses vencido em mim para minha perdição, a que eu fosse vencido por ti para minha salvação. Ainda não tinhas, pois, posto guarda à minha boca e uma porta de continência em volta dos meus lábios, para que o meu coração não se inclinasse a palavras más, para alegar escusas nos pecados com homens que praticam a iniquidade; e por isso eu ainda andava emparelhado com os eleitos deles; mas, já desesperando de poder progredir naquela falsa doutrina, mantinha agora com mais frouxidão e negligência aquelas mesmas coisas com que tinha decidido contentar-me, se não achasse nada melhor.
X.19 Pois também me tinha surgido o pensamento de que aqueles filósofos que chamam acadêmicos tinham sido mais prudentes que os outros, por terem sustentado que se deve duvidar de tudo e terem decretado que o homem não pode apreender nada de verdadeiro. Pois assim me parecia que eles tinham pensado claramente, conforme são vulgarmente tidos, a mim, que ainda não entendia a intenção deles. E não deixei de reprimir aquele mesmo meu hospedeiro na excessiva confiança que percebi que ele tinha nas coisas fabulosas de que estão cheios os livros de Mani. Contudo, eu tinha amizade mais familiar com eles do que com os outros homens que não pertenciam àquela heresia. Já não a defendia com o ardor de antes; mas, ainda assim, a familiaridade com eles (pois Roma esconde muitos deles) me tornava mais preguiçoso para buscar outra coisa, sobretudo porque eu desesperava de que na tua Igreja, Senhor do céu e da terra, criador de todas as coisas visíveis e invisíveis, se pudesse encontrar a verdade, da qual eles me tinham desviado; e me parecia muito vergonhoso crer que tu tivesses a figura da carne humana e fosses limitado pelos contornos corporais dos nossos membros. E, como, quando queria pensar no meu Deus, não sabia pensar senão moles de corpos (pois não me parecia que existisse nada que não fosse assim), essa era a causa principal e quase única do meu erro inevitável.
X.20 Daí vinha também que eu cria que havia uma certa substância do mal, assim, e que tinha a sua mole, tétrica e disforme e grosseira, a que chamavam terra, ou tênue e sutil, como é o corpo do ar, que eles imaginam como uma mente maligna a rastejar por aquela terra. E, como uma piedade, fosse ela qual fosse, me obrigava a crer que um Deus bom não tinha criado natureza má nenhuma, eu estabelecia duas moles opostas uma à outra, ambas infinitas, mas a má mais estreita, a boa mais vasta; e deste princípio pestilento me seguiam os outros sacrilégios. Pois, quando o meu espírito tentava voltar à fé católica, eu era rechaçado, porque não era a fé católica aquela que eu julgava que fosse. E eu me parecia mais piedoso se te cresse, meu Deus, a quem, de dentro de mim, confessam as tuas misericórdias, infinito ao menos pelos outros lados, embora fosse obrigado a reconhecer-te finito por um lado, aquele em que se te opunha a mole do mal, do que se te imaginasse limitado por todos os lados na forma do corpo humano. E me parecia melhor crer que não tinhas criado mal nenhum (o qual, na minha ignorância, me parecia não só uma substância, mas também corpórea, porque nem a mente eu sabia pensar senão como um corpo sutil, que, contudo, se difundisse pelos espaços do lugar) do que crer que vinha de ti a natureza do mal tal como eu a imaginava. E o próprio Salvador nosso, o teu Unigênito, eu o imaginava como que estendido para a nossa salvação da massa da tua mole luminosíssima, de tal modo que nada mais cria dele senão o que pudesse imaginar na minha vaidade. Julgava, por isso, que uma tal natureza não podia nascer da Virgem Maria sem se misturar com a carne; e não via como pudesse misturar-se sem se manchar, sendo tal como eu a figurava. Temia, pois, crê-lo nascido na carne, para não ser obrigado a crê-lo manchado pela carne. Agora os teus espirituais hão de rir-se de mim com brandura e amor, se lerem estas minhas confissões; mas eu era assim.
XI.21 Depois, eu não julgava que se pudesse defender o que eles tinham censurado nas tuas Escrituras; mas às vezes, na verdade, desejava discutir cada ponto com alguém muito douto naqueles livros e experimentar o que ele pensava a respeito. Pois já os discursos de um certo Elpídio, que falava e discutia em pessoa contra esses mesmos maniqueus, tinham começado a me impressionar ainda em Cartago, quando ele apresentava das Escrituras coisas tais a que não se podia resistir facilmente. E me parecia fraca a resposta deles, que, de resto, não a davam facilmente em público, mas só a nós, em segredo: diziam que as Escrituras do Novo Testamento tinham sido falsificadas por não sei quem, gente que quis enxertar a lei dos judeus na fé cristã; e eles mesmos não apresentavam nenhum exemplar incorrupto. Mas o que mais me oprimia, preso e de certo modo sufocado, a mim que pensava coisas corpóreas, eram aquelas moles, sob as quais, ofegando pela aura límpida e simples da tua verdade, eu não conseguia respirar.
XII.22 Comecei, pois, a fazer com diligência aquilo por que tinha vindo, ensinar em Roma a arte retórica, e primeiro a reunir em casa alguns com quem e por meio de quem tinha começado a ser conhecido. E eis que fico sabendo que em Roma se fazem outras coisas, que eu não sofria na África. Pois me foi mostrado que lá, de fato, não se faziam aquelas desordens dos adolescentes perdidos; “mas de repente”, dizem, “para não pagarem ao mestre o seu salário, muitos adolescentes conspiram e se transferem para outro, desertores da palavra dada, para quem a justiça vale pouco diante do amor ao dinheiro.” Também a estes o meu coração odiava, embora não com ódio perfeito. Pois talvez os odiasse mais pelo que eu havia de sofrer da parte deles do que por fazerem a quem quer que fosse coisas ilícitas. Certamente, porém, tais pessoas são torpes, e fornicam longe de ti, amando os joguetes voláteis do tempo e um lucro de lodo, que suja a mão quando se agarra, e abraçando o mundo que foge, desprezando a ti, que permaneces, e chamas de volta, e perdoas à alma humana prostituída quando volta para ti. E agora odeio esses tais, depravados e retorcidos, embora os ame para que se corrijam: para que ao dinheiro prefiram a própria doutrina que aprendem, e a esta prefiram a ti, Deus, a verdade e a fartura do bem seguro e a paz castíssima. Mas então eu antes não queria aturá-los maus por minha causa do que queria que se fizessem bons por tua causa.
XIII.23 Assim, depois que de Milão se mandou pedir a Roma, ao prefeito da cidade, que provesse aquela cidade de um mestre de retórica, com a concessão até do transporte público, eu mesmo pleiteei o lugar por meio daqueles mesmos homens embriagados de vaidades maniqueias (era para me livrar deles que eu ia, mas nem eu nem eles o sabíamos), para que o então prefeito Símaco, depois de me pôr à prova com um discurso de tema proposto, me mandasse. E cheguei a Milão, ao bispo Ambrósio, conhecido em todo o orbe da terra entre os melhores, teu piedoso servidor, cujas palavras então ministravam com vigor ao teu povo a flor do teu trigo, e a alegria do óleo, e a sóbria embriaguez do vinho. A ele eu era conduzido por ti sem o saber, para por ele ser conduzido a ti sabendo. Aquele homem de Deus me recebeu paternalmente e amou a minha peregrinação com um amor bem de bispo. E comecei a amá-lo, a princípio não como mestre da verdade, que de modo nenhum eu esperava encontrar na tua Igreja, mas como homem benévolo para comigo. E ouvia-o com assiduidade discorrer diante do povo, não com a intenção que devia, mas como que sondando a sua eloquência, para ver se correspondia à sua fama, ou se fluía maior ou menor do que se apregoava; e ficava suspenso das suas palavras, atento, mas, quanto às coisas, assistia sem interesse e com desdém. E me deleitava com a suavidade do seu discurso, que, embora mais erudito, era, contudo, menos alegre e menos afagador do que o de Fausto, no que se refere ao modo de falar. Quanto às coisas mesmas, porém, não havia comparação: pois aquele se extraviava nos enganos maniqueus, e este ensinava a salvação do modo mais salutar. Mas a salvação está longe dos pecadores, como eu, que então ali estava; e, contudo, eu me aproximava pouco a pouco e sem saber.
XIV.24 Pois, embora não me esforçasse por aprender o que ele dizia, mas só por ouvir como dizia (era esse o vão cuidado que me tinha restado, a mim que já desesperava de que ao homem se abrisse um caminho para ti), entravam no meu espírito, juntamente com as palavras que eu amava, também as coisas de que me descuidava, pois não as podia separar. E, enquanto abria o coração para acolher quão eloquentemente ele falava, entrava também, ao mesmo tempo, quão verdadeiramente falava; aos poucos, é certo. Pois primeiro começou a parecer-me que também aquelas coisas se podiam defender, e passei a julgar que não era descaramento afirmar a fé católica, em favor da qual eu tinha pensado que nada se podia dizer contra os ataques dos maniqueus; sobretudo depois de ouvir resolvido um enigma dos escritos antigos, e outro, e mais vezes ainda: neles, quando os tomava à letra, eu era morto. Assim, explicados espiritualmente muitos passos daqueles livros, eu já censurava o meu desespero, ao menos aquele com que tinha crido que de modo nenhum se podia resistir aos que detestavam e escarneciam a Lei e os Profetas. Mas nem por isso eu sentia que devia já seguir o caminho católico, porque também ele podia ter os seus defensores doutos, que refutassem as objeções com abundância e sem absurdo; nem por isso devia já ser condenado o que eu sustentava, porque as partes da defesa se equilibravam. Assim, a católica não me parecia vencida, mas também ainda não aparecia vencedora.
XIV.25 Então, sim, apliquei com força o espírito, para ver se de algum modo podia, com algumas provas seguras, convencer os maniqueus de falsidade. Se eu pudesse pensar uma substância espiritual, logo todas aquelas maquinações se desfariam e seriam lançadas fora do meu espírito; mas não podia. Contudo, a respeito do próprio corpo deste mundo e de toda a natureza que os sentidos da carne alcançam, considerando e comparando cada vez mais, eu julgava que muitos filósofos tinham pensado coisas muito mais prováveis. Assim, à maneira dos acadêmicos, tal como se julga que eram, duvidando de tudo e flutuando entre todas as coisas, decidi que os maniqueus deviam ser abandonados, pois não achava que, naquele mesmo tempo da minha dúvida, devesse permanecer numa seita à qual eu já antepunha alguns filósofos. A esses filósofos, porém, por estarem sem o nome salutar de Cristo, recusava-me de todo a confiar a cura do langor da minha alma. Decidi, pois, ser catecúmeno na Igreja católica, que meus pais me tinham recomendado, até que brilhasse alguma coisa certa para onde dirigisse o meu curso.
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