Poemas e Canções
Trovas
Ouve: se amor é pecado,
Eu, pecador, me confesso
De tudo quanto anda impresso
Em meu olhar enlevado.
Se com isso estou perdendo
A minh'alma transviada,
— Minh'alma não vale nada...
Eu peco, e não me arrependo.
Deste ardor em que me inflamo
Direi, para ser sincero,
Que dele somente espero
Amar-te mais do que te amo.
Se rezo, nas minhas preces
Só peço a Deus esta graça:
Que me conceda e me faça
Amar-te quanto mereces.
Eu vivo tão descuidado
De tudo mais desta vida,
Que nem me ocorre, querida,
A ideia de ser amado.
Amor com o feitio desse
Que a si mesmo renuncia,
— Como te agradeceria
O que eu por ti padecesse!
Deixa tu, pois, que se farte
Meu olhar impenitente
Todo embebido e contente
Da só ventura de olhar-te.
Sem razão foras severa
Com a pobre de uma roseira
Porque ela, queira ou não queira,
Dá rosas, se é primavera...
Deus, que nos pôs face a face
E deu-me os olhos que tenho,
Nisso mostrou certo empenho
Em que eu te visse — e te amasse.
Por força de lei divina
E não, decerto, por gosto,
Quando pousa no teu rosto
O meu olhar se ilumina.
Perdoa a muda insistência
Dos olhos que a ti levanto:
Olhar-te é o supremo encanto
De toda a minha existência.
Olhar-te... Delícia calma!
Mar tranquilo e sem escolhos!
É o pecado dos meus olhos
E a salvação da minh'alma.
Confesso-me, nada nego:
Amo-te... E nisto de amar-te
Só tenho de minha parte
A culpa de não ser cego,
É meu destino, que queres?
Eu te amo porque me encantas
— Tu, a mais linda das santas
E a mais santa das mulheres.