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Alma em Flor — Terceiro canto

Terceiro canto

I
Embala-me, balanço da mangueira,
Embala-me, que enquanto vou contigo,
Contigo venho, o meu pesar esqueço.
Rompe a luz da manhã rosada e linda,
Tudo desperta. E essa por quem padeço,
Lânguida e preguiçosa,
Entre brancos lençóis repousa ainda.
Embala-me, pendente da mangueira,
Na tensa corda, meu balanço amigo!
Em claro a noite inteira
Passei, pensando nela. Ah! que formosa
Estava ontem à tarde no mirante,
Um livro ao colo, às tranças uma rosa,
E o olhar perdido na amplidão distante!
Pensava... Em quem pensava?
Se fosse em mim... Como formosa estava!
Oh! não pausado e manso,
Mas aos arrancos, estirado voa,
Leva-me, meu balanço!
II
Assim cismando, à toa,
Olhos voltados já para a querida
Visão de Laura, já para o céu claro,
Para o campo e arredores,
A manhã passo. Sobre a serra erguida
Em frente nasce e, coroando-a, brilha
O sol. Loureja o ipê com as áureas flores.
Late nos grotões fundos, indo ao faro
Da caça, ao buzinar dos caçadores,
Da fazenda a matilha.
E no ar que sopra dos capões escuros,
Sente-se, de mistura a essências finas
E ao cheiro das resinas,
Um sabor acre de cajás maduros.
III
Cajás! Não é que lembra à Laura um dia
(Que dia claro! esplende o mato e cheira!)
Chamar-me para em sua companhia
Saboreá-los sob a cajazeira!
—Vamos sós? perguntei-lhe. E a feiticeira:
—Então! tens medo de ir comigo?—E ria.
Compõe as tranças, salta-me ligeira
Ao braço, o braço no meu braço enfia.
—Uma carreira!—Uma carreira!—Aposto!
A um sinal breve dado de partida,
Corremos. Zune o vento em nosso rosto.
Mas eu me deixo atrás ficar, correndo,
Pois mais vale que a aposta da corrida
Ver-lhe as saias a voar, como vou vendo.
IV
Um chão de folhas sob um céu de flores,
Eis a mata. Recebe-nos à porta
Do templo de verdura
Azul, trêfega, leve borboleta;
Vai volateando inquieta,
Recruza o atalho, o espaço corta,
E nos guia na selva espessa e escura.
Outras, alada chusma de mil cores,
Vêm-lhe ao encontro, farfalhando. Agora
Vê onde mais surpreso
O olhar se te demora:
Olha estes ramos a vergar com o peso
Das bignônias em flor; olha o disforme
Entrelaçado de cipós que os fios
Lembram suspensos de uma aranha enorme;
Olha estes hartos troncos, luzidios
Uns, rofos outros, uns desempenados,
Outros recurvos, tortos, semelhando
Em contorções vultos de condenados;
Olha... Este grito? este tinir que escutas
De martelo em bigorna? estes gemidos?
Estes soluços e risadas longas,
Ais, assobios, e de quando em quando
Silvos, cochichos, guinchos e estalidos?
São aves, são gaviões, são arapongas,
São guaches e tucanos, são nas grutas
Insetos e reptis... Canto assombroso!
Sinfonia fantástica!
Ela ouvia.
—Que é isso? E eu lhe explicava
O hino da selva.
V
Perto demorava
O lugar, onde o escuro tronco anoso
E os grossos braços curvos, carregados
De trepadeiras, válidos erguia
A cajazeira de cajás dourados.
VI
—Estou cansada.
—Senta-te.
Sentou-se.
Dos frutos que então vejo,—e o chão coberto
Deles estava, escolho o que mais doce
Me pareceu e dou-lh'o. Rejeitou-o.
—É ácido! diz, mal o provara, e fora
Num gesto o lança. Era à hora
Em que sobre o deserto
Ensoado o gavião negro abate o voo;
Em que alto o sol sentindo,
A cigarra sonora
Zine, e no ar morto, onde não corre o vento,
Parece estarem—tão sem movimento
Seus ramos vês—as árvores dormindo.
VII
Trouxe-lhe eu outros frutos, e melhores,
Que à árvore os fui colher e—áureo punhado,
Aos seus pés os espalho. Ela, entretanto,
Fosse fadiga ou sono que a prostrasse,
Como em macia rede,
Reclina o corpo sobre o emaranhado
Das trepadeiras a sorrir-se em flores,
E olhando-me de face:
—Vai-me ver água, disse, estou com sede.
VIII
Saí. Da gruta próxima o recanto
Debalde exploro: areia e folhas acho,
Folhas e areia só! água não vejo.
Água não vejo, nem sumido fio
Entreluz sob as pedras fugidio,
Nem gota brilha ao sol! E esforço e arquejo,
Em vão; entre as raízes olho e espreito,
Nas furnas entro em vão, me acurvo e agacho,
Em vão! E a voz de Laura, a quando e quando,
Ouço-a, já longe, aos gritos me chamando:
—Vem!—Lacerado o peito,
Laceradas as roupas dos espinhos,
Voltar procuro, mas na selva grossa
Tudo são descaminhos;
Voltar procuro sem que, oh! dura mágoa!
Numa folha sequer levar-lhe possa,
Como um pingo de pranto, um pingo d'água!
IX
Perco-me entre os cipós longos, tecidos.
Uns balouçam das árvores pendentes,
Outros no chão rojam, e retorcidos
Se enlaçam como inúmeras serpentes.
Roçam-me os pés, fogem espavoridos,
Sinto-os! verdes lagartos, repelentes
Cobras, e um ruído assombra-me os ouvidos,
Um ruído seco de ranger de dentes.
Logo abala a floresta estrondo horrendo.
Que foi? Passou. Restruge ainda da serra
O côncavo ferido... Deus me guarde!
Rezo, mal balbucio... E aflito, e vendo
Maior a solidão, caio por terra
E desato a chorar como um cobarde.
X
Do cipoal torso, enfim, desato os laços,
E a lugar chego tão deserto e bruto,
Tão silencioso que dos próprios passos,
Dos passos meus é todo o som que escuto.
Grandes, soberbas árvores se alteiam,
E a prumo os troncos, a ramada informe
Lá em cima arqueada em cúpula, vozeiam
Com um som de rezas por igreja enorme.
—Estou perdido! estou perdido! exclamo.
Nisto estremeço com ligeiro assombro:
Ao pé de mim ouço o estalar de um ramo
E um homem surge de espingarda ao ombro.
Fita de couro o peito lhe traspassa
E um polvarinho e saquitel suporta:
É um caçador,—traz por troféu de caça,
Pendente à cinta uma araponga morta.
Peço-lhe suplicante da floresta
Me ensine o rumo à cajazeira amiga;
—E água?—Água, aqui! Olhe, a que bebo é desta!
Uns gravatás numa pedreira antiga
Mostra. Abre as folhas: a água rebrilhando
Lá está; mais pura não na chove o Estio,
—Água de caçador que em torno olhando
O chão do bosque, não na vê de rio.
XI
Água! levo-lh'a, enfim, levo-a nos braços
Numa bromélia em flor à flor que a espera,
Levo-a correndo, como a largos passos
Levam as nuvens a da Primavera.
Levo-a, e sobeja e tanta que, contadas
As suas gotas, davam a medida
De meu pranto, das lágrimas choradas
Pela que a vai beber... e é minha vida.
XII
Chego. Ela estava meio reclinada
Das trepadeiras sobre a laçaria,
Olhos cerrados, boca entrecerrada,
Parecia dormir. Talvez dormia.
Pousa-lhe ao pé, na desatada trança
Pousa-lhe e brinca buliçosa e bela
Trêmula borboleta, e assim tão mansa,
Guardar parece o leve sono dela.
Oh! não me há de esquecer nunca esta imagem
Que adormecida via ali tão perto,
Destacando na sombra da folhagem,
Na rústica moldura do deserto!
Aproximei-me. O chão que piso estala
Sob os meus pés; os lábios ressequidos
Sinto. Paro um momento a contemplá-la.
Queima-me a fronte, zunem-me os ouvidos.
Ato as mãos ao receio que, desperta
E zangada por ver tanta ousadia,
Não vá ficar com um beijo quem dormia...
E um beijo dou-lhe na boquinha aberta.
Ah! foi um beijo apenas! mas um beijo
Em que sequiosa se me extravasava
A alma toda, a alma toda e o meu desejo,
Com o calor forte em que a floresta estuava.
Foi apenas um beijo. Ela estremece,
Acorda e diz-me: (arde-lhe a face em brasa
E a expressão indignada me parece)
—Deixa-te estar que hei de contar em casa!
Caio-lhe aos pés, tomo-lhe as pequeninas
Mãos que com a chuva de meus prantos roro;
Não houve nunca um choro de resinas
Tão grande como as lágrimas que choro.
—Ficas aí? disse-me ainda.—Vamos!
E ei-la deita a correr. Sigo após ela.
Desvia os ramos. Eu desvio os ramos.
À cancela chegou. Chego à cancela.
No campo entramos, ela à minha frente
Sempre a correr. Ao pé do rio a vala
Salta. A vala saltei. Quase alcançá-la
Então consigo. Alcanço-a, finalmente,
Já na varanda.—Escuta—suplicante
Falo-lhe à meia voz—não digas nada!
Ela faz um muxoxo, passa adiante,
E desapareceu subindo a escada.
XIII
Depois... nada depois, nada! senão
Que de querer-lhe o coração não cansa,
(Tão cheio dela está meu coração!)
E eu sou feliz... mesmo sem esperança.
XIV
Depois... Um dia, choros na varanda.
Chego e a vejo a cavalo, o véu descido,
Um chicotinho à mão, e o seu comprido
Roupão que ajeita no selim de banda.
—Adeus! dizem-lhe adeus. Ela com o lenço
Acena, e parte.
Oh! desespero imenso!
Parte, lá vai! E quando ao fim da estrada,
Longe, a chorosa e trêmula cancela
Bate, bate-me n'alma essa pancada,
E alto me ponho a soluçar por Ela!
XV
Depois... Horas da tarde, há quem vos diga,
Há quem vos pinte a singular tristeza,
Com que passáveis, dando à Natureza
A impressão funda de uma dor antiga?
De vós me veio em tão distante idade
Esta contemplação do espaço triste
Do pôr do sol! De vós me veio e existe
Perpétuo n'alma o culto da saudade!
Como doíeis sob o pó dourado
Que o Ocaso peneirava! nos sombrios
Céus! no brilho metálico dos rios,
E em fumo e sombras pelo descampado!
Dizei a angústia em que eu me debatia
Quando, de uma janela ao canto posto,
Só com o meu sonho, em lágrimas o rosto,
Eu vos falava ao desmaiar do dia
Ai! coitado de mim nesses momentos,
Tendo a agravar-me a dor que tinha n'alma,
O vosso peso, Horas da tarde calma!
O sofrer vosso, Horas de sofrimentos!
Dizei por que meu longo olhar se perde,
Menos nas nuvens, menos no alto monte,
Do que na linha extrema do horizonte,
Que limita a extensão do campo verde...
XVI
Depois... Não a vi mais. Existe ainda?
Exista ou não, a nossa história é finda
XVII
Parado o engenho, extintas as senzalas,
Sem mais senhor, existe inda a fazenda,
A envidraçada casa de vivenda
Entregue ao tempo com as desertas salas.
Se ali penetras, vês em cada fenda
Verdear o musgo e ouves, se acaso falas,
Soturnos ecos e o roçar das alas
De atros morcegos em revoada horrenda.
Ama o luar, entretanto, essas ruínas.
Uma noite, horas mortas, de passagem
Eu a varanda olhava, quando vejo
À janela da frente, entre cortinas
De prata e luz, chegar saudosa imagem
E, unindo os dedos, atirar-me um beijo...

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