Alma em Flor — Segundo canto
Segundo canto
I
Com as toscas rodas brutas e puxados
Por bois que a espaços a aguilhada instiga,
Chiam, de longas canas carregados,
Os tardos carros pela estrada antiga.
Mas não é para ouvir que já da moagem
É o tempo e o engenho a trabalhar começa,
Que acordo. Acorda-me o contentamento
De que a vou ver, enfim. A sua imagem
Qual seja me idealiza o pensamento.
Eis-me inda cedo ao longo da varanda
Impaciente a esperar que ela apareça.
Suspensas do alto, de uma e de outra banda,
Pendem gaiolas, chilra a passarada,
Entre esguios ponteiros prisioneira.
Braceja ao sol nascente alta mangueira,
No outão da casa há século plantada.
Mas não é para ouvir como em teu seio,
Mangueira amiga, vêm, seteando a altura,
Atitar azulões e gaturamos,
Saís e encontros, que eu ali passeio;
Nem para ver, pêndulo de teus ramos,
Oscilar o balanço em que me embalo;
Não é. Se alguma cousa me tortura
E delicia, é estar pensando nela...
II
Apareceu. Que sobressalto ao vê-la!
Leve saia de cassa, à trança escura
Uma flor. Mal contendo íntimo abalo,
Ouço a apresentação:
—A prima Laura...
Ela me encara, fita
No meu o olhar, e a mão, suprema dita!
Me estende. Aperto-lhe a tremer a mão.
III
Não direi mostre ao sol o cardo agreste
Fruto menos corado
Que o seu lábio; que a estrela vespertina,
No páramo azulado,
Confrontada com o olhar que me domina,
De menos vida e menos luz se veste;
Não direi ainda está para que nasça
Lírio de neve igual à desse colo,
Ou entre as neves de longínquo polo
Neve que escura fique ante essa alvura;
Não direi do coqueiro que sem graça
É o porte airoso, a se aprumar na altura,
Se eu ao dela o comparo;
Que a pluma leve e aérea em flecha esguia
É menos que o seu corpo aérea e leve;
Não direi tenha a lua
Pelo céu alto e claro
Mais divina poesia,
Mais suave languidez que essa tristeza
(Amorosa, não sei)
Que essa tristeza que se lhe insinua
No olhar... Nada direi,
Porque ninguém se atreve
A descrever a máxima beleza,
Porque a beleza sua
Não se descreve.
IV
Quis ver, depois de rápido passeio,
Moer o engenho. Segui-a.
Pesada porta para o campo abria.
Verde, a perder de vista, em várzea expanso,
Verde, a ondular à viração de manso,
É um mar o canavial.
Da estrada entre os recortes dos barrancos
Roxos ou rubros, restrugia em cheio
Dos carros, a cambar aos solavancos,
O hino triunfal.
Ao pé das tachas, de onde a quando e quando
No fervor forte, desflorando a espuma,
Brota um bafo enjoativo, ela curiosa
Detém-se, e do trabalho a cena bruta,
O estrépito da luta,
Vida do engenho e movimento goza.
Fulva flameja férvida fornalha
Que as caldeiras de cobre aquece e afuma;
Aceleradamente trabalhando,
A máquina farfalha.
Eu olho apenas Laura, o olhar lhe espreito,
E quem meu rosto observe,
Há de ver, como vejo,
Que me enche o fogo vivo de um desejo,
E a tumultuar-me, a ressaltar no peito,
Meu coração, como essas tachas, ferve.
V
A mata virgem, desgrenhada aos ventos,
Eleva à noite a alma complexa e vária;
Do musgo humilde às grimpas da araucária
Há, talvez, gritos, há, talvez, lamentos.
Olhos presos na sombra, a passos lentos
Passeando na varanda solitária,
Apraz-me àquela orquestra tumultuária
A sós ouvir os rudes sons violentos.
Ó Noite, como que raivando, levas
Com o teu meu coração por essas trevas!
O teu—cólera, o meu—doce reclamo;
Ambos, ao fogo atroz que têm no seio,
O teu bramindo:—O Ódio eu sou, e odeio!
O meu chorando:—Eu sou o Amor, eu amo!
VI
Em torno à mesa que ante nós se estende,
Reunimo-nos todos, conversando,
Quando escurece, em vindo a noite, quando
O lampião grande, como um sol, se acende.
Nada, porém, ali me encanta e prende,
A não ser, bem que o sinto! o úmido e brando
Volver dos olhos dela, onde, brincando,
Amor que os fez, mostra que a amar se aprende.
Mas os olhos não só, que os meus, de cego,
Baixo às vezes, vencido de cansaço,
De tanto fluido e tal clarão ferido,
E longamente e extático os emprego
Em ver-lhe o claro mármore do braço
Nu destacar na manga do vestido.
VII
Aquele braço nu e aquela espuma
Da fofa manga atêm-me em mudo exame,
E sinto—não sei bem como lhe chame
Ao que em mim sinto... enlevo, amor, em suma.
Dão-me a ideia (esta imagem, como um liame,
Inda me enlaça o espírito e o perfuma)
Aquela fofa manga e braço de uma
Flor grande aberta, de alongado estame.
Flor, como acaso uma avistara um dia
Pendendo da ramagem sobre a estrada,
(O nome não lhe sei, não lh'o sabia)
No rebordo das pétalas franjada,
E com um filete que lhe aparecia
Ao fundo da campânula voltada.
VIII
Contai, arcos da ponte, ondas do rio,
Balsas em flor, lírios das ribanceiras,
O enlevo meu... Das curvas ingazeiras
Cerrado arqueia-se o dossel sombrio.
Arde o sol pelo campo, onde o bravio
Gado se dessedenta nas ribeiras;
À beira d'água, como em desafio,
Cantam, batendo roupa, as lavadeiras.
Eu... Ponte, rio, flores, balsas, tudo,
Eu, junto a vós, embevecido e mudo...
(Aquelas horas de êxtase contai-as!)
Eu, como que num fluido estranho imerso,
Faço, talvez, o meu primeiro verso,
Vendo corar ao sol as suas saias.
IX
Divina febre, cedo o ardor divino,
O fogo teu o sangue me escaldava;
Cedo as setas provei de tua aljava,
Menino ainda, alado deus menino.
Para estar junto dela, aos mais deixava,
Aos mais e a tudo, mísero e sem tino.
Ó delicioso influxo feminino,
Que bem gozava, quando te gozava!
Quanta vez, preso o olhar à fechadura
De seu quarto, horas mortas, com receio,
Eu na ponta dos pés me pus a espiá-la!
E quanta vez sonhei, forte loucura!
Vê-la vir, ao meu seio unir o seio,
E ao lábio o lábio, na deserta sala!
X
Uma noite (Até ali nunca o proveito
Alcançara de a ver: a alcova escura
Mostravas sempre, bronca fechadura!)
Pé ante pé, à porta chego. Espreito.
Havia luz. O olhar melhor ajeito.
Tenda piramidal, em toda a altura
Flácido escorre o cortinado. A alvura
Eis de seu leito. Mas vazio o leito!
Súbito um rugir seco a alcova corta
Súbito e quase nua ela aparece...
Mal pude ver-lhe a saia em desalinho!
A luz se apaga. E o ouvido agora à porta,
Em vez dos olhos, farta-se e estremece
De a ouvir mexer-se entre os lençóis de linho.
XI
Ouvi-lhe um dia (Acode-me à lembrança
O quadro: ela se achava a sós comigo
Olhando a tarde do mirante antigo,
De onde o extremo horizonte a vista alcança.
Eu ora uma ave no ar com os olhos sigo,
Ora lhe sigo o voar da leve trança)
Ouvi-lhe:—«Se não fosses tão criança,
Era capaz de me casar contigo!»
Frase cruel! Ah! como a repisava
Dia por dia o coração ansioso!
E a sós no quarto, que impaciência a minha,
Quando, no espelho os olhos, eu notava
Como inda longe, incerto, vagaroso
Meu buço de homem despontando vinha!
XII
Flores azuis, e tão azuis! aquelas
Que numa volta do caminho havia,
Lá para o fim do campo, onde em singelas
Brancas boninas o sertão se abria.
À ramagem viçosa, alta e sombria,
Presas, que azuis e vívidas e belas!
Um coro surdo e múrmuro zumbia
De asas de toda espécie em torno delas.
Nesses dias azuis ali vividos,
Elas, azuis, azuis sempre lá estavam,
Azuis do azul dos céus de azul vestidos;
Tão azuis, que essa idade há muito é finda,
Como findos os sonhos que a encantavam,
E eu do tempo através vejo-as ainda!
XIII
De uma feita era em rancho estreito e pobre:
Fala-nos rindo uma velhinha rude.
Sobrevém forte chuva, o sol se encobre,
Trovoa o céu, transborda cheio o açude.
Quis sair. Laura acode e ouvir-lhe pude:
—«Não vá! (e a mão ergueu num gesto nobre)
Talvez que a chuva passe e o tempo mude,
E que não mude, um teto aqui nos cobre!»
No quarto do oratório, à acesa vela,
À boa santa Bárbara rezavam.
Ficáramos na sala os dois sozinhos...
E eu, sem nada temer, ao lado dela,
Ouvia as ventanias que passavam
E os raios a cair pelos caminhos.
XIV
Mas se eu era criança! Ela o dissera!
Oh! céus! então outrem, de mais idade,
Ombro a ombro com a sua mocidade,
Sob um mesmo esplendor de primavera,
Outrem é que devia ser o eleito,
Não eu, eu que a adorava antes de vê-la,
Eu que a chamei chorando de meu leito
E os meus sonhos enchi da imagem dela!
Eu, só porque nasci, talvez, um dia,
Um ano ou mais depois da flor que amava,
Eu, só por ser mais moço, oh! Deus—pensava—
Eu só por isso não a merecia!
Um dia, um ano ou mais conta-os acaso
Amor que nada vê e ao peito a chama
Sabe apenas soprar em que me abraso?
Não se confrontam datas quando se ama.
Amor só quer saber se em quem palpita
Há um coração. Eu tenho-o e em fogo me arde.
Ama-se ou muito cedo ou muito tarde.
Fora do tempo, Amor se move e agita.
Ela o disse, porém... No ouvido encerro
A frase que lhe ouvi... Pobre criança,
De tua dor no círculo de ferro,
Morre agarrado à última esperança.
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