Meridionais
O leque
Era um leque real; obra de exímio artista,
Mimo, talvez, de um deus. À sua estranha vista,
Diante da alma, irisado em pedras multicores,
Em cristais, em rubins, em pérolas, — aceso
Em estrelas, — abrindo as asas de ouro ao peso
De uma gruta de flores,
Errava esplendoroso um sonho; a fantasia,
Louca e lúbrica, os céus e os mares investia
E, no sol e no azul das águas, luminosa,
Como um pássaro doudo, a um tempo revoando,
Vaga, incerta, febril, mergulhava cantando
As asas cor de rosa.
Era o leque, talvez, que os elfos agitavam
Nessa noite em que à lua errantes celebravam
As núpcias de Titânia a loura; arrebatado
Fora, talvez, às mãos da Anfitrite marinha,
Quando as rédeas de prata em largo mar sustinha
Ao plaustro iluminado.
Dormira um dia à flor do regaço tranquilo,
Do colo escultural da serpente do Nilo,
De Cleópatra nua, — enquanto a aragem freme
Na aurifrigiata vela, e, à flauta que ressoa,
Rasga um sulco no mar com a refulgente proa
A luxuosa trireme.
Na brilhante armação de nácar levantino
Desse leque o cinzel de um gênio peregrino
Incrustara, arrojado, em cintilante estema,
A alma inteira: o coral da ilusão, a ametista
Do sonho, a glória, tudo, alucinando a vista,
Em radiante poema.
Via-se ali naquele artístico relevo
A loucura; a paixão, no primitivo enlevo,
Abre o olhar de topázio, enfebrecida logo
Rutila em rubro mar de púrpuras, abrasa,
Arde, queima, incendeia, alando à ponta da asa
Os seus rubins de fogo.
O amor chora e sorri, e a lágrima que escalda
É um diamante suspenso às mãos de uma esmeralda;
Logo a melancolia os olhos cismadores
Ergue; vê-se através de uma turquesa a mágoa;
Geme a saudade e aos pés de um branco pingo d'água
Brota um mundo de flores
A página de seda aos olhos representa
Uma gruta. É na Grécia. Em vaga luz que aumenta,
Oriental, entre a rama implexa, destacando
O fundo, linha a linha, — uma estranha figura
Está, com pés de cabra, em meio da espessura
Dos mirtos retouçando.
Perto a linfa, — um pequeno e trêmulo, arrufado
Fio de viva prata, em leito nacarado
De esparsas conchas. Talha o cristalino veio
Róseo pé, — é uma deusa. A corrente fendida
Docemente borbolha, em frouxa espuma erguida
E recurvado seio.
Flavo e crespo ondulando o rútilo cabelo
Cai da náiade, — é bela! Esplêndido modelo,
Atrai, fascina o colo, um mármore que cega,
E onde fresca ressalta a graça primitiva
Que, com um raio de amor, a pedra inerte aviva
Da estatuária grega.
Sente-se então no leque, ante a ideal pintura,
Um quê jamais expresso, uma ardente loucura...
Lume flagrante expira, absorto e deslumbrado,
O olhar; de chispa em chispa, o desejo incendido,
Como um facho, atravessa em músico alarido
O organismo extasiado...
Mas a um lado, afastando o virente embaraço
Dos caniços de ao pé, surge um versudo braço:
E eis a trêmula voz de uma flauta argentina
Começa a despertar o silêncio. Encantada,
Repete a gruta em peso a musical toada,
A estrofe cristalina.
Volve os olhos então a náiade medrosa:
— Que mavioso gemer, que música amorosa
É esta? Indaga... E nisto a forma inteiramente
Surge de um velho deus, de Pã... Como um sorriso,
Fecha o quadro um olhar cobiçoso, indeciso,
E um gesto indiferente.