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Versos e Rimas

A taça de Hafiz

Na áurea taça em que bebia
Hafiz, o poeta do Irão,
Viu que do vinho se erguia
Certa vez uma visão.
Muitas sonhara, nenhuma,
Porém, assim, tão formosa;
Veste alvas roupas de espuma
E alteia-se vaporosa.
Como aos reflexos de um mundo
Vago, de um sonho através,
Pousa da taça no fundo
A ponta esguia dos pés.
Do ardente vinho no afogo,
Sentindo-lhe inda os ressábios,
Hafiz, com os lábios em fogo,
Toca-lhe o fogo dos lábios.
E bebe. E, à visão atento,
Ouve ele, entretanto, ali:
— « Eu chamo-me esquecimento,
E em tua taça nasci.
Sou eu que às almas aflitas,
Da dor no cárcer medonho,
Aceno com as infinitas
Regiões aéreas do sonho.
A vida é um bocejo eterno.
Quem a compreende sou eu;
Às paredes desse inferno
Rasgo uma porta p'ra o céu.
Vem! a espiral de vapores
Que a mim me enlaça, te enlaça;
Sobe! cingida de flores
A fronte e em punho essa taça!
A embriaguez é remédio
Aos que alma enfarada têm
Dos baços dias do tédio.
Hafiz, inda um beijo. Vem! »
E à mão Hafiz, como louco,
A taça de novo erguia...
Mas — dura o vinho tão pouco!
A taça estava vazia.

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