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Versos e Rimas

O sonho de Titânia

Lá vai, pé ante pé, de folha em folha, o alado,
O aéreo Puck, o trasgo, o gênio endemoniado.
Vede-o: não é mais leve, assim qual vai, tão leve,
A plúmula que o vento acaricia, a neve
Que se equilibra no ar em flóculos. Cautela,
Silêncio, auras sutis! dorme Titânia, a bela!
Deixai-a assim, qual é, no sono ameno e brando,
Dos tomilhos do bosque ao lado repousando;
Lidou tanto, através de vales e de outeiros
Tanto cansou, correndo, os zéfiros fragueiros,
Tanto a si se cansou também, que à pobrezinha
Necessário é dormir. Dorme, bela rainha!
Pé ante pé, de folha em folha, no entretanto,
O elfo lá vai. Não soa em de redor um canto,
Não trina um'ave, um sopro em de redor não passa,
Uma asa em de redor sequer se agita e esvoaça.
Calma estranha, mudez. O elfo lá vai. Que aéreo
Pisa! que aéreo o passo adianta! Que mistério
É esse que se vai passar ali?... Cautela,
Silêncio, auras sutis! dorme Titânia, a bela,
Dorme. E o elfo lá vai: um passo ainda e a alcança,
Curva-se e de uma flor que leva, sem tardança,
Cauteloso lhe abrindo as pálpebras, instila
Uma gota, que obtém do suco, na pupila.
Fá-lo e parte.
Vingado em seu despeito insano
'Stá dos gênios do espaço o excelso soberano,
Folga o altivo Oberon. Titânia, a encantadora,
(Auras, podeis falar, ela desperta agora!)
Titânia, a loura, acorda e, horror! da estranha planta
Graças ao suco estranho, ao poder que a quebranta,
Olha em roda e atro amor domina-a num momento,
Vendo, pasma a encará-la, a face de um jumento.
Beijos que ela lhe dá, num sôfrego carinho,
Flores de que lhe adorna o túmido focinho,
Confissões que lhe faz, vozes que lhe murmura,
Os pelos a alisar-lhe à tesa orelha escura,
Tudo à verdade induz de que um momento chega
Em que ao monstro mais vil o ser melhor se entrega,
Para os olhos, mais tarde, ao que sonhou volvendo,
Fitar com asco e pavor seu pesadelo horrendo.

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