Kiriale
Spectrum
VIII
I
Vestido de ouro o Sol, bom padre, canta a missa
Da luz no altar do céu. Véus de celestes damas,
As nuvens voam: cantam pássaros: e viça
Mais do que nunca o olhar de Flora pelas ramas.
Entra o Espectro. Com voz soluçante e submissa
Murmuro-lhe: — «Porque, se és luz, se já não amas,
Atormentar-me assim? Não haverá justiça
Final no inferno, fogo eterno, eternas chamas?
Para que perseguir-me, Anjo tristonho? Espera.
Ou antes de noite vem, quando o remorso chora,
E o luto os olhos fecha à alma da primavera.»
— «Bem te deves lembrar: quando tu me esqueceste,
Brilhava o mesmo sol no mesmo céu de agora...
Bem te deves lembrar: foi um dia como este.»
II
E o Espectro, que era um Anjo espiritual, esvoaça
Pelo ar tranquilo, e sobe ao céu. Noite silente.
Toda de branco, a lua, ancila triste, passa
Pelo mosteiro celestial, celestialmente.
Estrelas de um fulgor de diamantes sem jaça
Brilham na concha azul do céu de outubro quente.
Horas passam. De novo o Espectro vem. — «Por graça
Deixa-me em paz, deixa-me em paz eternamente.
Ou antes mais tarde vem, quando a treva de rastros
Envolve a terra, quando o céu negro recua
Para mais alto, e chora os semi-mortos astros.»
— «Quando eu morri, hora fatal, hora funesta,
Era uma noite assim, toda branca de lua...
Bem te deves lembrar: a noite era como esta.»