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Lira dos Vinte Anos

Morena

O' Thereza, um outro beijo! e abandona-me a meus sonhos e a meus suaves delirios. (Jacopo Ortis)
É loucura, meu anjo, é loucura
Os amores por anjos.... eu sei!
Foram sonhos, foi louca ternura
Esse amor que a teus pés derramei!
Quando a fronte requeima e delira,
Quando o lábio desbota de amor,
Quando as cordas rebentão na lira
Que palpita no seio ao cantor,
Quando a vida nas dores é morta
Ter amores nos sonhos é crime?
É loucura: eu o sei! mas que importa?
Ai! morena! és tão bela!... perdi-me!
Quando tudo, na insomnia do leito,
No delírio de amor devaneia
E no fundo do trêmulo peito
Fogo lento no sangue se ateia;
Quando a vida nos prantos se escoa,
Não merece o amante perdão?
Ai! morena! és tão bela! perdoa!
Foi um sonho do meu coração!
Foi um sonho.... não cores de pejo!
Foi um sonho tão puro!... ai de mim!
Mal gozei-lhe as frescuras de um beijo!
Ai! não cores, não cores assim!
Não suspires! por que suspirar?
Quando o vento n'um lírio soluça,
E desmaia no longo beijar,
E ofegante de amor se debruça,
Quando a vida lhe foge, lhe treme,
Pobre vida do seu coração,
Essa flor que o ouvira, que geme,
Não lhe dera no seio o perdão?
Mas não cores! se queres, afogo
No meu seio o fogoso anhelar!
Calarei meus suspiros de fogo
E esse amor que me hade matar!
Morrerei, ó morena, em segredo!
Um perdido na terra sou eu!
Ai! teu sonho não morra tão cedo
Como a vida em meu peito morreu!

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