Lira dos Vinte Anos
Namoro a cavalo
Eu moro em Catumbi. Mas a desgraça
Que rege minha vida malfadada
Pôs lá no fim da rua do Catete
A minha Dulcineia namorada.
Alugo (três mil réis) por uma tarde
Um cavalo de trote (que esparrela!)
Só para erguer meus olhos suspirando
A minha namorada na janela....
Todo o meu ordenado vai-se em flores
E em lindas folhas de papel bordado
Onde eu escrevo trêmulo, amoroso
Algum verso bonito.... mas furtado.
Morro pela menina, junto d'ela
Nem ouso suspirar de acanhamento....
Se ela quisesse eu acabara a história
Como toda a Comédia — em casamento.
Ontem tinha chovido.... que desgraça!
Eu ia a trote inglês ardendo em chama,
Mas la vai senão quando uma carroça
Minhas roupas tafuis encheu de lama....
Eu não desanimei. Se Don Quixote
No Rossinante erguendo a larga espada
Nunca voltou de medo, eu, mais valente
Fui mesmo sujo ver a namorada....
Mas eis que no passar pelo sobrado
Onde habita nas lojas minha bela
Por ver-me tão lodoso ela irritada
Bateo-me sobre as ventas a janela....
O cavalo ignorante de namoros
Entre dentes tomou a bofetada,
Arrepia-se, pula, e dá-me um tombo
Com pernas para o ar, sobre a calçada....
Dei ao diabo os namoros. Escovado
Meu chapéu que sofrera no pagode
Dei de pernas corrido e cabisbaixo
E berrando de raiva como um bode.
Circunstância agravante. A calça inglesa
Rasgou-se no cair de meio a meio,
O sangue pelas ventas me corria
Em paga do amoroso devaneio!...