Apólogos
O cão de fralda e a raposa
N'um dos pés arranhado um cão fraldeiro
Temeu chegar ao transe derradeiro;
O médico chamou, pôs-se de cama,
E a dor encareceu como uma dama;
(Porque n'este melindre, ou n'esta balda,
Uma dama equivale a um cão de fralda.)
Era então a raposa arteira, e fina,
Entre os brutos doutora em medicina.
Entrou n'um passo grave, um ar sisudo,
E em tom de quem dizia:—Eu saro tudo!—
Tendo-lhe visto o pé, que lhe doía,
Perguntou ao doente o que sentia.
Depois de se esfalfar com fofa prosa,
Concluiu: «A doença é perigosa;
Mas hei de conseguir a grande empresa
De ajudar, ou vencer a natureza.»
É certo que logrou tão alta sorte,
É certo que a venceu, mas foi co'a morte.
Tendo emplastros, e purgas decretado,
E com mil beberagens misturado
Mil gordos aforismos de Avicena,
Ou de Averróis, seguiu-se-lhe a gangrena,
Que tornando mortal a arranhadura,
O cãozinho encaixou na sepultura.
Assim que o duro médico feroz
O mandou visitar a seus avós,
Sem pejo, sem temor, sem pranto, ou ais,
A paga foi pedir aos tristes pais.
Clamaram:—«Inda a terra te não traga!
O filho nos mataste, e queres paga!...»
—Que! (responde a raposa) Ora essa é bela!
E o trabalho, que eu tive, é bagatela?
Dar vida não está na nossa mão;
Tanto nos rende o morto como o são.»