Apólogos
O corvo e o pavão
Passeando o pavão com ufania,
É fama que dissera ao corvo um dia:
«Repara quanto devo à natureza,
Olha que lindas cores, que viveza!
Que adorno, que matiz! Olha este rabo!
Em mim não há senão; e tu, diabo,
Negro como um carvão, como um besouro,
Inda és, de mais a mais, ave de agouro!»
O corvo, que na língua não tem papas,
Lhe responde:—«Essas penas são mui guapas;
Mas, para refrear teu desvario,
Observa d'essas pernas o feitio.»
Ainda (quem dará crédito a isto?)
As pernas o pavão não tinha visto;
Mas que muito, se há gente, e gente grave,
Que em seus olhos não vê nem uma trave?