Apólogos
O leão caçando com o burro
(Traduzido do mesmo)
Fez anos o leão, quis ir à caça,
E a d'ele não costuma ser escassa:
Não consiste em pardais, em bagatelas,
Mas em bons javalis, e em corças belas.
O rei dos bosques próvido, e discreto,
Para sortir efeito o seu projeto,
Chama o burro, animal de voz não fina,
E o burro vai servir-lhe de buzina.
Ele ao posto o conduz, cobre-o de ramos,
Ordena-lhe que zurre, e a seus reclamos
Crê que inda os mesmos brutos, que dão provas
De atroz braveza, fugirão das covas.
Não era aquela tropa ainda usada
Ao fragor de asinina trovoada:
No ar o espantoso orneio enfim ressoa,
Vaga o terror, e as grutas despovoa:
Tremendo, a turba agreste alonga o passo;
Foge tudo, e fugindo, eis cai no laço,
Onde os espera a garra penetrante.
«Então, que tal, que tal? Não sou chibante?»
(Diz o burro ao leão, co'a fronte alçada,
Arrogando-se a glória da caçada.)
—«Troas (volta o leão) troas deveras,
E se não conhecesse quem tu eras,
Eu mesmo com teus zurros me assombrava.»
O burro, se pudesse, resmungava,
E tínhamos arenga, inda que havia
Motivo para aquela zombaria;
Pois quem há de sofrer, quieto, e mudo
Que um, que não vale nada, arrote em tudo?
Quem sofrerá que audácia o burro afete?
Caráter fanfarrão não lhe compete.