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Cançonetas

A Armânia

Armânia, de alvo rosto,
Encantador, divino,
Vagava junto à margem
Do Tejo cristalino:
Em torno à branda ninfa
Se ria a Natureza,
Ufana em ter criado
Tão nova gentileza:
Zéfiro, enchendo as rosas
De mágoa, e de ciúme,
Ia nos lábios d'ela
Gozar melhor perfume:
Lindos, sutis insetos
À roda lhe adejavam
E os louros Amorinhos
De inveja os enxotavam:
Sobre o matiz dos prados
O deleitoso Abril
Tornava-se de vê-la
Mais ledo, e mais gentil:
A flor, que pelo vento
Jazera debruçada,
Erguia o tenro colo,
Dos tenros pés tocada:
Com rápidos gorjeios
O rouxinol, que encanta,
Para seguir-lhe os passos
Ia de planta em planta:
À ninfa, que o pisava,
O chão se amolecia;
Cada sorriso d'ela
Abrilhantava o dia:
Dobrando a graça, o lustre
Do azul, etéreo véu,
No maior bem da terra
Se recreava o céu:
O Tejo namorado
Cedera a urna de ouro,
Se Amor lhe desse em troca
Tão singular tesouro:
Tudo prazer sentia
Ao ver um tal portento;
O céu, a terra, as aves,
O rio, o sol, e o vento:
Mas o amoroso Elmano
Notando oculto a bela,
Colhia outros efeitos
Dos atrativos d'ela;
Vibram-se-lhe seus olhos
Envenenado tiro;
Por onde a frecha entrava
Saía-lhe um suspiro:
Eis que o menino Idálio,
Que aos tristes amadores
Cruentas serpes guarda
Entre mimosas flores;
Ao som de um ai, que exala
O mavioso amante,
Encara, voa, e diz-lhe
Com ríspido semblante:
«Dos Fados no volume
Este decreto está:
—Quem for mais extremoso
Mais infeliz será.—
N'isto revoa o nume
Da ninfa para o lado,
Deixando em amarguras
Submisso o desgraçado.
Ah lastimoso Elmano!
O que ao traidor ouviste
Desterra vãos desejos
Para o silêncio triste.
Mas sempre ardor interno,
Muda paixão te rale,
Que a perfeição de Armânia
Os teus martírios vale.
E se entre agudas garras
De acerbos desprazeres
A mil fatais combates
Teu coração renderes,
A linda mão, que adoras,
Enfim compadecida,
Talvez te doure a morte,
Se te escurece a vida.
Pode a teu ponto extremo
Iluminar o horror,
A bela a doce Armânia,
Astro do céu de amor,
Dize-lhe então, soltando
Os derradeiros ais,
Que antes morrer por ela,
Do que viver co'as mais.

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